CAPÍTULO 15 — Fissuras

854 Words
POV: Henrique Ela chegou em casa naquela noite diferente. Henrique percebeu assim que ela entrou — o jeito como cumprimentou, sem o beijo de sempre no rosto, sem o "oi" automático que virava rotina depois de três anos de casamento. Só um aceno de cabeça, os olhos evitando os dele, e um "preciso tomar banho" antes de desaparecer pelo corredor. Ele ficou parado na sala, o copo de uísque esquecido na mão, sentindo o peso daquele silêncio como nunca tinha sentido antes. Sabia. De algum jeito, sem precisar de nenhuma prova concreta, sabia que ela tinha descoberto alguma coisa importante naquele dia. Esperou vinte minutos, ouvindo o chuveiro ligado, antes de pegar o celular e ligar pra Fernanda. — Ela está estranha — disse, assim que a chamada foi atendida. — Estranha como? — Fria. Distante. Do jeito que fica quando está processando alguma coisa grande demais pra falar em voz alta. Fernanda ficou em silêncio por um momento. — Você acha que o Caio contou alguma coisa a mais? — Acho que ele contou tudo. — Tudo o quê, exatamente? Você nem sabe o que ele sabe de fato. Henrique fechou os olhos, sentindo a cabeça latejar. — Não importa o que ele sabe de fato. Importa o que ele consegue fazer ela acreditar. — E o que você vai fazer? Ele olhou pro corredor, pra porta fechada do banheiro, pro vapor escapando por baixo dela. — Vou continuar sendo o marido que ela sempre conheceu — disse, por fim. — Paciente. Compreensivo. O homem que nunca faz nada que precise ser escondido. — Isso pode não ser suficiente dessa vez. — Vai ter que ser. Ele desligou antes que ela pudesse discordar de novo, e ficou parado na sala, o copo ainda na mão, tentando reconstruir mentalmente cada palavra que tinha dito nos últimos dias, procurando alguma brecha que pudesse ter deixado escapar. Não encontrava nada específico. Mas sabia, com a certeza de quem passou anos lendo as reações das pessoas, que alguma coisa tinha mudado de forma irreversível. O chuveiro parou. Alguns minutos depois, Natasha saiu do quarto, vestida com uma roupa simples de dormir, o cabelo ainda molhado, e sentou no sofá, uma distância cuidadosa dele. — Como foi seu dia? — perguntou ele, tentando soar casual. — Cansativo. — Alguma coisa específica? Ela olhou pra ele, e por um segundo Henrique viu, atrás dos olhos dela, alguma coisa que parecia avaliação pura — como se ela estivesse medindo cada palavra que ele dizia, comparando com alguma versão da verdade que só ela conhecia agora. — Nada que eu queira discutir agora — disse, finalmente, desviando o olhar pra televisão desligada. O silêncio entre eles esticou, desconfortável, diferente de todos os silêncios anteriores do casamento — aqueles pelo menos tinham a decência de parecer neutros. Esse tinha peso. Tinha intenção. — Natasha. — Henrique, por favor. Não hoje. Ele quis insistir, quis perguntar diretamente o que Caio tinha dito, o que ela sabia, o quanto de sua história tinha começado a desmoronar sob o peso da verdade. Mas alguma coisa no rosto dela — uma frieza nova, uma distância que ele nunca tinha visto antes — o fez recuar. — Tudo bem — disse, engolindo a própria ansiedade. — Quando você quiser conversar, estou aqui. — Estou cansada de "quando eu quiser conversar" — disse ela, de repente, a voz mais dura do que ele esperava. — Estou cansada de você sempre esperando pacientemente, sempre me dando espaço, sempre sendo o marido perfeito que nunca pressiona nada. Ele sentiu o estômago apertar. — Não entendo o que eu fiz de errado agora. — Talvez seja exatamente esse o problema — disse ela, se levantando. — Você nunca faz nada errado. Nunca levanta a voz, nunca perde a paciência, nunca dá motivo pra nenhuma desconfiança. É like você sempre soubesse exatamente a coisa certa a dizer, na hora certa, do jeito certo. — Isso é r**m? — Não sei mais — disse ela, já caminhando pro quarto de hóspedes, o mesmo que ele vinha usando havia meses. — Só sei que às vezes penso que ninguém é tão perfeito assim sem motivo. Ela fechou a porta atrás de si, deixando Henrique sozinho na sala, o copo de uísque agora completamente esquecido na mesa, a mente correndo tentando entender exatamente o quanto tinha sido exposto naquela única conversa. Pegou o celular de novo. Discou o mesmo número da noite anterior. Dessa vez, atendeu na primeira chamada. — Precisamos conversar pessoalmente — disse Henrique, sem cumprimento. — Amanhã. Em algum lugar que ninguém vai reconhecer nenhum de nós dois. — Achei que você tinha dito pra eu ficar quieto e deixar isso morrer. — Os planos mudaram. — Henrique olhou de novo pro corredor escuro, pra porta fechada onde a esposa dormia sozinha, cada vez mais longe dele. — Preciso saber exatamente o que você contou pra Caio Alencar, e preciso saber agora. Do outro lado da linha, o silêncio confirmou o que ele já temia. Alguém tinha falado. E ele precisava descobrir quem, antes que fosse tarde demais pra consertar qualquer coisa.
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