POV: Caio
Rafael chegou às sete em ponto, uma pasta grossa debaixo do braço, os olhos vermelhos de quem não tinha dormido direito.
— Isso é pior do que eu imaginava — disse, sem cumprimento, já abrindo a pasta em cima da mesa da cozinha.
Caio serviu dois cafés, sentou de frente pro amigo, e olhou pros papéis espalhados entre eles.
— Me mostra.
Rafael separou o primeiro documento — um contrato de consultoria, datado de seis anos atrás, com a assinatura dele.
— Esse aqui é legítimo. Foi um trabalho pontual que eu fiz pro Grupo Alencar, antes de virar seu advogado. Consultoria em fusões internacionais, três meses de duração.
— Isso eu sei.
— O problema é o que veio depois. — Rafael pegou outro documento, mais recente, com um timbre de escritório de advocacia que Caio não reconheceu. — Henrique protocolou, há dez dias, uma notificação extrajudicial contra mim. Alegando que, durante minha consultoria, eu tive acesso privilegiado a informações financeiras que usei depois pra manipular você.
Caio sentiu o sangue gelar.
— Manipular como?
— A alegação é que eu identifiquei brechas no sistema financeiro da empresa, forjei os documentos da fraude usando meu conhecimento interno, e depois convenci você a fugir do país com medo de ser incriminado — quando, na verdade, segundo essa versão, você seria completamente inocente e eu o principal arquiteto de tudo.
— Isso é absurdo.
— É absurdo, mas é bem construído. — Rafael passou mais um documento, esse com uma lista de nomes. — Ele já reuniu três "testemunhas" dispostas a confirmar que eu tinha comportamento suspeito na época. Provavelmente pessoas pagas ou pressionadas, mas vai ser difícil provar isso rápido o suficiente.
Caio se levantou, andou até a janela, tentando processar a dimensão do que Henrique estava construindo.
— Ele está preparando isso há quanto tempo?
— Pela data dos primeiros documentos, pelo menos três semanas. Ou seja, antes mesmo de eu aparecer com você na festa de retorno.
— Ele já sabia que a gente ia voltar.
— Deve ter sabido pela mesma fonte que te avisou sobre a data, imagino.
Caio fechou os olhos, sentindo o peso de cada peça se encaixando numa imagem que ficava mais assustadora a cada segundo.
— Se isso vai pra frente — disse, finalmente —, o que acontece com você?
— Legalmente, no Brasil, ele provavelmente não consegue nada sólido o suficiente pra uma condenação criminal com o que tem. Mas ele não precisa de uma condenação. — Rafael bebeu um gole do café, a mão levemente trêmula. — Ele precisa só de dúvida suficiente pra virar a narrativa pública. Se a imprensa pegar essa história, mesmo sem prova definitiva, meu nome fica manchado o suficiente pra qualquer testemunho meu perder credibilidade.
— Ele está tentando me isolar. Tirando qualquer apoio que eu tenha antes de precisar enfrentar ele de verdade.
— Exatamente.
Caio voltou pra mesa, olhando pros documentos espalhados, a raiva crescendo devagar, substituindo o medo inicial por algo mais frio e calculado.
— Precisamos adiantar nosso plano — disse, finalmente. — Não podemos esperar reunir prova perfeita se ele está disposto a atacar preventivamente.
— Concordo. Mas precisamos ser estratégicos. Se a gente reagir com raiva, sem prova sólida o suficiente, só vamos confirmar a narrativa dele de que estamos desesperados pra encobrir alguma coisa.
— Então o que você sugere?
Rafael ficou em silêncio por um momento, os dedos batendo de leve na mesa.
— Precisamos da Natasha. — Ele olhou pra Caio, direto. — Ela é a única pessoa com acesso legítimo e credibilidade suficiente pra confirmar publicamente que recebeu as cartas interceptadas, que viu os documentos do arquivo morto, que testemunhou o comportamento de Henrique de perto. Sem ela, a gente tem provas fragmentadas. Com ela, temos uma testemunha crível de dentro da própria família.
Caio sentiu um peso diferente se instalar no peito.
— Ela acabou de sair de casa ontem à noite. Está exausta, machucada, tentando processar tudo que descobriu.
— Eu sei que o momento é r**m. Mas o relógio está correndo, Caio. Quanto mais tempo a gente espera, mais tempo Henrique tem pra construir a versão dele da história.
— Não vou pressionar ela a fazer nada antes que esteja pronta.
— Eu não estou pedindo pra você pressionar. — A voz de Rafael suavizou. — Estou pedindo pra você conversar com ela. Com honestidade, sem esconder a urgência real da situação. Ela merece saber que o tempo importa, mesmo que a decisão final seja só dela.
Caio ficou em silêncio, olhando pros documentos na mesa, sentindo o peso de equilibrar a proteção que queria dar a Natasha com a urgência real que a situação exigia.
— Vou falar com ela — disse, finalmente. — Hoje, se possível. Mas do jeito dela, no tempo dela.
— É tudo que eu peço.
Rafael começou a guardar os documentos de volta na pasta, e Caio ficou observando, a mente já correndo através de como abordar aquela conversa sem parecer que estava usando o momento de fragilidade dela pra qualquer coisa que se parecesse com manipulação.
— Rafael — disse, antes que o amigo se levantasse pra ir embora.
— O quê?
— Obrigado. Por ter ficado do meu lado esses cinco anos inteiros, mesmo quando isso significava colocar sua própria reputação em risco.
Rafael deu um meio sorriso cansado.
— A gente atravessou coisa demais juntos pra eu desistir agora. — Ele se levantou, pegando a pasta. — Só precisamos terminar isso, Caio. De um jeito ou de outro.
Depois que Rafael saiu, Caio ficou sentado sozinho na cozinha, o café esfriando na xícara, pensando em como ia encontrar as palavras certas pra pedir a Natasha, ainda machucada e recém-saída de casa, pra se tornar a peça central de uma guerra que ela nunca tinha escolhido lutar.