CAPÍTULO 18 — Poeira e Proximidade

1087 Words
POV: Caio O arquivo morto ficava no subsolo, dois andares abaixo do estacionamento, num corredor que Caio não lembrava de ter visitado nem uma vez nos anos em que trabalhou na empresa. Natasha o esperava na entrada, um crachá temporário na mão, a expressão tensa de quem já tinha calculado três vezes se aquilo era uma boa ideia e ainda não tinha chegado a uma resposta definitiva. — Você trouxe o crachá? — perguntou ela, sem cumprimento. — Rafael conseguiu um acesso temporário através de um contrato de consultoria. Devia funcionar. — Devia? — Vai funcionar. Ela passou o próprio crachá no leitor, e a porta destravou com um clique baixo. Entraram num corredor m*l iluminado, fileiras de arquivos de metal se estendendo até onde a luz não alcançava mais. — Isso aqui não foi digitalizado? — perguntou Caio, olhando pra extensão do lugar. — Parcialmente. Documentos anteriores a dez anos atrás ainda estão só em papel. — Ela caminhou entre as fileiras, contando as numerações em voz baixa. — O período que você quer deve estar por aqui. Encontraram a seção certa depois de quinze minutos de busca, uma fileira específica marcada com o ano da fraude. Natasha puxou uma caixa pesada, e os dois sentaram no chão, entre as fileiras, começando a separar documentos. O trabalho era lento. Contratos antigos, memorandos internos, planilhas financeiras que exigiam atenção detalhada pra entender o que significavam. Caio sentiu, pela primeira vez em muito tempo, uma sensação estranha de normalidade — os dois trabalhando lado a lado, cotovelos quase se tocando, o silêncio preenchido só pelo som de papel sendo folheado. — Aqui — disse ela, de repente, estendendo uma folha. — Isso é do negócio que você mencionou? Caio pegou o documento, os olhos correndo rápido pelas linhas. Era um memorando interno, datado de duas semanas antes de ele ter ido embora, mencionando uma "revisão urgente de assinaturas" no fechamento do negócio internacional. — Isso é novo — murmurou, mais pra si mesmo. — Eu nunca vi esse documento antes. — O que significa "revisão urgente de assinaturas"? — Significa que alguém, na época, percebeu alguma inconsistência e pediu verificação. — Ele olhou pra data de novo. — Duas semanas antes de eu ir embora. Bem na época em que tudo começou a desmoronar. Natasha se aproximou mais, olhando por cima do ombro dele pro documento, o cabelo dela quase tocando o rosto de Caio. Ele sentiu o cheiro do shampoo dela, familiar de um jeito que doía, e por um segundo esqueceu completamente do papel na mão. — Quem assinou esse memorando? — perguntou ela, a voz mais próxima do que ele esperava. Ele forçou os olhos de volta pro documento. — A assinatura está borrada. Ilegível. — Convenientemente. — É. Eles continuaram trabalhando, mais uma hora, encontrando fragmentos — um e-mail impresso mencionando "discrepância nos valores", uma planilha com números que não fechavam exatamente com os registros oficiais, um bilhete manuscrito pedindo pra "resolver isso antes que vire problema maior". Nada definitivo. Mas peças suficientes pra confirmar que alguma coisa, naquele período, tinha sido escondida com cuidado. — Isso não prova que foi Henrique — disse Natasha, olhando pros papéis espalhados no chão entre eles. — Não prova ainda. — Mas é o suficiente pra confirmar que existiu uma fraude de verdade. — É. Ela ficou em silêncio, olhando pros documentos, o peso da confirmação parecendo afundar nela devagar. Caio observou o rosto dela, a forma como a mandíbula travava, como os olhos brilhavam com uma mistura de raiva e mágoa que ele reconhecia bem — porque tinha sentido a mesma coisa, sozinho, num apartamento do outro lado do oceano, por cinco anos inteiros. — Você está bem? — perguntou, a voz suave. — Não sei mais o que significa estar bem. Ele estendeu a mão, hesitante, e tocou o braço dela, um gesto pequeno, quase nada, mas o suficiente pra fazer ela olhar pra ele de novo, os olhos úmidos que ela claramente lutava pra não deixar transbordar. — Eu sinto muito — disse ele. — Por tudo isso. Por você ter que descobrir a verdade desse jeito, aos pedaços, num arquivo empoeirado. — Não é sua culpa. — Parte é. Ela não afastou o braço. Ficaram ali, sentados entre as fileiras de arquivo, o silêncio do subsolo pesando diferente agora, carregado de uma proximidade que nenhum dos dois parecia disposto a quebrar. — Caio. — Eu sei. — A gente não pode. — Eu sei disso também. Mesmo assim, nenhum dos dois se afastou. A mão dele continuou no braço dela, os olhos presos um no outro, o mundo inteiro reduzido àquele corredor m*l iluminado, cheio de segredos empoeirados e de uma tensão que cinco anos de distância não tinham conseguido apagar. Um barulho no corredor principal — passos, vozes distantes de algum funcionário do turno da noite — quebrou o momento. Natasha se afastou rápido, recolhendo os documentos com mãos ligeiramente trêmulas. — Precisamos ir — disse, a voz mais controlada do que o corpo parecia sugerir. — Antes que alguém nos veja aqui juntos. Caio assentiu, ajudando a guardar os papéis de volta na caixa, o coração ainda acelerado pelo momento que quase tinha acontecido — de novo — entre eles. — Vou levar cópias disso pro Rafael — disse ele, já se levantando. — Ele vai saber analisar melhor o que temos. — E eu vou continuar procurando. Com mais cuidado, sem levantar suspeita. Eles saíram do arquivo em silêncio, o crachá temporário de Caio passando pelo leitor uma última vez, a porta se fechando atrás deles com um som que pareceu, de alguma forma, selar um pacto que nenhum dos dois tinha verbalizado completamente. No corredor, já perto do elevador, Natasha parou. — Isso que quase aconteceu lá dentro — disse, sem olhar pra ele. — Não pode acontecer de novo. Não até eu resolver tudo o que preciso resolver primeiro. — Entendido. — Eu falo sério, Caio. — Eu sei que fala. — Ele a olhou, a expressão suave mas firme. — E eu vou respeitar isso, por mais difícil que seja. Ela assentiu, entrou no elevador sozinha, e Caio ficou parado no corredor vazio, sentindo o mesmo aperto no peito que sentia desde que tinha voltado — a certeza cada vez mais forte de que, documentos ou não, prova ou não, o que sentia por ela não tinha diminuído nem um pouco em cinco anos de distância. Só tinha esperado, paciente, o momento certo de voltar a arder.
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