CAPÍTULO 13 — A Vida Que Ela Construiu

782 Words
POV: Caio Caio ficou sabendo do endereço dela por Rafael, que tinha ficado sabendo por um contato no mercado imobiliário, que tinha ficado sabendo porque, cinco anos atrás, o casamento de Natasha Almeida com Henrique Alencar tinha sido notícia o suficiente pra sair em coluna social. Ele não devia estar ali. Sabia disso enquanto estacionava o carro alugado na rua arborizada, de frente pro prédio onde ela morava — onde ela e Henrique moravam, precisava corrigir a si mesmo, porque era isso que doía, o e Henrique, o fato de que aquele endereço não pertencia só a ela. Ficou parado ali por vinte minutos, sem descer do carro, só olhando pra fachada do prédio, tentando entender que direito ele tinha de sentir o que sentia. Nenhum. Não tinha nenhum direito. Mas foi, mesmo assim. O celular vibrou. Rafael. — Onde você está? — perguntou, direto, sem cumprimento. — Perto do apartamento dela. — Caio. — Eu sei. — Não, você não sabe, porque se soubesse não estaria aí. — A voz de Rafael veio tensa. — A gente combinou de ir devagar. De deixar ela processar. Você não pode ficar rondando a vida pessoal dela como se isso fosse ajudar alguma coisa. — Eu só queria ver. — Ver o quê, exatamente? Caio olhou pra fachada do prédio de novo, as janelas iluminadas em diferentes andares, sem saber qual delas era a dela. — A vida que ela construiu sem mim. Rafael soltou um suspiro longo do outro lado da linha. — E o que você vai fazer com essa informação? Vai se sentir pior do que já se sente? Vai ficar remoendo cada detalhe de uma vida que você não fez parte por cinco anos? — Talvez. — Isso não é saudável, cara. — Eu sei que não é. Caio desligou o carro, mas continuou sentado, as mãos no volante, olhando pro prédio como se pudesse, só de encarar aquilo tempo suficiente, entender exatamente o tamanho do que tinha perdido. Não era o dinheiro. Não era a empresa, as ações, o cargo que Henrique tinha assumido. Era isso — o fato simples e brutal de que, enquanto ele passava cinco anos reconstruindo provas num apartamento alugado do outro lado do oceano, Natasha estava aqui, construindo uma vida inteira, aprendendo a acordar todo dia ao lado de outro homem, aprendendo a chamar aquele lugar de lar. Um casal saiu do prédio, rindo de alguma coisa, e por um segundo o coração dele apertou, achando que podia ser ela. Não era. Ele se odiou um pouco por sentir alívio com isso. O celular vibrou de novo. Dessa vez não era Rafael. Natasha: Precisamos conversar. Amanhã, no escritório, antes do expediente. Só nós dois. Caio ficou olhando pra mensagem por um longo momento, sentindo o peito apertar de um jeito que misturava esperança e medo em proporções quase iguais. Claro. Que horas? Sete. Ninguém mais chega tão cedo. Estarei lá. Ele guardou o celular, ligou o carro de novo, e ficou mais um instante olhando pro prédio antes de finalmente sair da rua, o coração batendo um ritmo estranho, misto de culpa por ter ido até ali e alívio por, finalmente, ter um motivo real pra vê-la de novo. No caminho de volta, ligou pra Rafael. — Ela quer conversar amanhã. A sós, no escritório, antes de todo mundo chegar. — Isso é bom ou r**m? — Não sei ainda. — O que você vai levar pra essa conversa? Caio pensou por um momento, os olhos fixos na estrada, a cidade passando em luzes desfocadas pelas janelas do carro. — A verdade inteira — disse, finalmente. — Sem guardar mais nada. — Você tem certeza disso? Ainda não temos prova completa contra Henrique. Se você contar tudo agora e ela decidir do lado dele, a gente perde a vantagem que levou cinco anos pra construir. — Eu sei do risco. — E mesmo assim vai fazer isso? Caio olhou pro retrovisor, pro próprio reflexo cansado, os olhos de um homem que tinha passado a vida inteira calculando cada movimento e que, pela primeira vez em muito tempo, estava prestes a fazer alguma coisa só porque o coração mandava, sem nenhum cálculo por trás. — Mesmo assim — disse. — Porque ela merece a verdade inteira, mesmo que isso signifique que eu perca tudo tentando dar isso a ela. Desligou o telefone e dirigiu o resto do caminho em silêncio, sabendo que a conversa da manhã seguinte podia ser o momento em que finalmente recuperava a mulher que amava — ou o momento em que perdia, de uma vez por todas, qualquer chance de reconstruir o que Henrique tinha passado cinco anos destruindo.
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