POV: Natasha
A reunião do jurídico durou uma hora e meia, e Natasha não lembrava de uma palavra do que tinha sido dito.
Assinou onde precisava assinar. Concordou com prazos que nem prestou atenção. A mente inteira presa numa única frase, repetindo sem parar: eu escrevi, Natasha. Nos primeiros dois anos, escrevi mais de uma vez.
Voltou pro próprio escritório no fim da tarde, trancou a porta — coisa que raramente fazia — e sentou na cadeira, olhando pra parede sem realmente ver nada.
A memória veio sem aviso, do jeito que memórias ruins sempre vêm.
Cinco anos atrás.
Ela tinha vinte e três anos, morava sozinha num apartamento pequeno perto da faculdade, e passava as noites verificando o celular a cada dez minutos, esperando uma mensagem que nunca chegava.
Os primeiros dias tinham sido pânico puro. Ligou pra todo mundo que conhecia, pra família dele, pra amigos em comum, ninguém sabia de nada, ou fingia não saber. Henrique, na época ainda só um cunhado distante, tinha sido o único que parecia genuinamente preocupado, aparecendo no apartamento dela com notícias — sempre vagas, sempre incompletas, sempre suficientes pra manter a esperança acesa por mais um dia.
"Ele deve estar bem. A família tem contatos, estamos verificando."
"Ainda sem notícias, mas o passaporte dele foi usado num aeroporto europeu."
"Desculpa, Natasha. Não sei o que mais te dizer."
Ela tinha se agarrado a cada migalha de informação que Henrique trazia, achando que ele estava do lado dela, tentando ajudar, quando na verdade — ela via isso agora, com uma clareza que doía — ele estava controlando exatamente o quanto ela sabia, exatamente o ritmo em que a esperança dela ia morrendo.
Os primeiros seis meses, ela ainda escrevia cartas que nunca enviava, porque não tinha pra onde mandar. Guardava numa caixa de sapato, cada uma começando com "Caio, onde você está" e terminando sem assinatura, porque não fazia sentido assinar uma carta que ninguém ia ler.
No sétimo mês, ela parou de escrever.
No primeiro ano, parou de esperar o celular tocar.
No segundo ano, aceitou o convite de Henrique pra jantar pela primeira vez — não porque sentisse alguma coisa por ele, mas porque estava cansada, tão cansada de segurar sozinha o peso de uma ausência que ninguém mais parecia lembrar.
E ele tinha sido paciente. Gentil, do jeito calculado que ela só reconhecia agora, olhando pra trás. Nunca pressionou. Nunca pediu nada que ela não estivesse pronta pra dar. Deixou que ela chegasse até ele no próprio ritmo, achando que a decisão tinha sido inteiramente dela.
"Você merece ser feliz, Natasha. Caio escolheu ir embora. Você não precisa carregar essa escolha pro resto da vida."
Ela tinha acreditado nisso. Tinha construído um casamento inteiro em cima dessa frase.
E agora, sentada no próprio escritório, com uma carta escondida na bolsa que provava que nada daquilo tinha sido escolha de Caio, ela sentia a raiva subir devagar, como maré, cobrindo cada memória daqueles cinco anos com uma luz completamente diferente.
Bateram na porta.
— Natasha? — A voz de Larissa, do outro lado. — Você está aí? Tranquei minha própria porta há uma hora tentando trabalhar, mas não consigo parar de pensar na cara que você fez ontem na festa.
Natasha se levantou, destrancou a porta, e a amiga entrou já com a expressão de quem sabia que alguma coisa grande tinha acontecido.
— O que foi? — perguntou Larissa, fechando a porta atrás de si.
Natasha pegou a bolsa, tirou a carta de dentro, e entregou sem dizer nada.
Larissa leu em silêncio, os olhos correndo rápido pela página, e quando terminou, olhou pra Natasha com uma mistura de choque e fúria que espelhava exatamente o que ela mesma sentia.
— Ele escreveu isso?
— Sete meses depois de ir embora.
— E você nunca recebeu.
— Nunca.
Larissa dobrou a carta de novo, devagar, como se tivesse medo de estragar alguma coisa importante demais pra ser tratada com descuido.
— Você sabe o que isso significa, né? — perguntou, a voz baixa.
— Que alguém interceptou as cartas dele.
— Que Henrique provavelmente interceptou as cartas dele.
Natasha sentiu o peito apertar com a confirmação em voz alta do que ela mesma vinha evitando dizer diretamente, mesmo pra si mesma.
— Eu não tenho prova disso.
— Você tem cinco anos de coincidências convenientes demais pra ser coincidência — disse Larissa, sentando na cadeira do outro lado da mesa. — Ele sempre foi o primeiro a te dar notícias. Sempre foi ele quem "verificava" as coisas. Sempre foi ele quem te consolava exatamente na hora certa.
— Larissa.
— Eu sei que é difícil ouvir isso.
— Não é difícil de ouvir. — Natasha sentiu a voz tremer, mas continuou. — É difícil de aceitar que eu fui tão burra a ponto de não perceber nada disso durante cinco anos inteiros.
Larissa se levantou, contornou a mesa, e apertou o ombro da amiga com força.
— Você não foi burra. Você confiou em alguém que passou anos construindo cada mentira com cuidado suficiente pra parecer verdade. Isso não é burrice, Nat. Isso é manipulação bem feita.
Natasha ficou em silêncio, olhando pra carta na mesa, sentindo cinco anos inteiros de certezas ruindo devagar, peça por peça.
— O que eu faço agora? — perguntou, mais pra si mesma do que pra Larissa.
— Agora você descobre a verdade inteira — respondeu a amiga, firme. — Não a versão que o Henrique contou. Não a versão que o Caio está começando a contar. A verdade inteira, com prova de verdade.
— E se a verdade for pior do que eu imagino?
Larissa olhou pra ela por um longo momento, a expressão suavizando.
— Então você vai encarar isso também. Porque a única coisa pior do que descobrir uma verdade dolorosa é passar o resto da vida fingindo que não desconfia dela.