POV: Caio
O evento era uma inauguração qualquer — um novo empreendimento do Grupo Alencar, celebrado com champanhe e discursos protocolares pro conselho e pra imprensa especializada e Caio só apareceu porque Natasha tinha ligado, vinte minutos antes, avisando que precisava dele ali.
— Ele está errático — tinha dito ela, a voz baixa pelo telefone. — Desde ontem. Não sei o que ele vai fazer, e prefiro que você esteja por perto.
Agora, parado num canto do salão com uma taça que não bebia, Caio observava o irmão do outro lado do ambiente, cumprimentando convidados com o mesmo sorriso de sempre — mas havia alguma coisa diferente na postura dele, uma rigidez que não estava lá na festa de retorno, semanas atrás.
Natasha se aproximou, discreta, fingindo examinar uma escultura próxima.
— Ele sabe sobre o Marcelo — sussurrou, sem olhar pra ele.
— Como sabe disso?
— Porque essa manhã ele perguntou, do nada, se eu tinha "conversado com alguém interessante ultimamente". — Ela pegou uma taça de champanhe de uma bandeja que passava, mais pra ter as mãos ocupadas do que por vontade. — Ele está testando o que eu sei.
Caio sentiu o corpo tenso, os olhos buscando o irmão do outro lado do salão de novo.
— Precisamos ser cuidadosos essa noite.
— Eu sei.
Do outro lado do ambiente, Henrique terminou uma conversa e começou a caminhar na direção deles, o sorriso público firme no rosto, mas os olhos carregando algo mais frio por baixo.
— Que bom ver vocês dois conversando — disse, chegando perto, a voz perfeitamente calma. — Sobre o quê, se me permite perguntar?
— Arte — respondeu Natasha, rápido, gesticulando pra escultura. — Estava explicando pro Caio sobre o artista.
— Interessante. — Henrique olhou pra escultura por um segundo, depois de volta pros dois. — Vocês dois parecem estar conversando bastante ultimamente. Sobre arte, presumo.
O tom carregava um peso que não deixava dúvida sobre a real intenção da frase.
— Henrique — começou Caio, a voz calma, mas firme. — Se você tem alguma coisa pra dizer, diz direto. Prefiro isso a comentários velados.
O irmão o encarou por um longo momento, o salão ao redor continuando sua conversa alheia, ninguém prestando atenção suficiente pra notar a tensão crescente entre os três.
— Tudo bem — disse Henrique, finalmente, a máscara de calma começando a rachar nas bordas. — Direto, então. Vocês dois acham que eu sou i****a?
— Ninguém disse isso — respondeu Natasha, a voz controlada apesar do desconforto visível.
— Não precisa dizer. — A voz de Henrique subiu um pouco, o suficiente pra algumas cabeças próximas começarem a virar discretamente. — Documentos desaparecendo do arquivo morto. Minha esposa "revisando papéis antigos" às sete da noite. Conversas secretas em cafés que ela acha que eu não sei que aconteceram.
Caio sentiu o corpo inteiro tenso, pronto pra intervir se necessário, mas mantendo a voz baixa.
— Você está fazendo uma cena, Henrique. Numa festa cheia de gente do conselho e da imprensa.
— Estou tendo uma conversa franca com meu irmão e minha esposa. — Mas a voz dele baixou, percebendo, tarde demais, quantas pessoas já tinham notado a tensão. — Uma conversa que devíamos ter tido há semanas.
Natasha olhou ao redor, notando os olhares discretos se acumulando, o burburinho baixo começando a se espalhar pelo salão.
— Não aqui — disse ela, firme. — Não desse jeito.
— Por que não? — A voz de Henrique ganhou um tom quase desesperado, a máscara de controle rachando de vez. — Vocês dois parecem achar que estão sendo cuidadosos, mas eu vejo tudo. Cada olhar, cada mensagem trocada, cada desculpa esfarrapada pra sumir no meio do dia.
— Henrique, baixa a voz — pediu Caio, olhando ao redor, sentindo a situação escapar do controle rapidamente.
— Por quê? Com medo que alguém descubra a verdade sobre vocês dois?
O silêncio que se seguiu foi pesado o suficiente pra Caio sentir fisicamente. Algumas pessoas próximas claramente tinham ouvido, os olhares agora abertamente curiosos, o burburinho crescendo.
Natasha ficou pálida, os olhos passando rápido entre os dois irmãos, claramente calculando o dano daquela cena pública.
— Você está fazendo papel de louco na frente de todo o conselho — disse ela, a voz baixa mas cortante. — É isso que você quer? Que todo mundo comece a fazer perguntas sobre por que o presidente do Grupo Alencar está tendo um colapso numa inauguração?
O comentário pareceu atingir Henrique como um balde de água fria. Ele olhou ao redor, finalmente percebendo a atenção que tinha atraído, o rosto perdendo um pouco da cor.
— Com licença — murmurou, recompondo a postura rapidamente, o sorriso público voltando como uma máscara m*l ajustada. — Preciso verificar os discursos.
Ele se afastou rápido, cumprimentando alguns convidados próximos com uma cordialidade forçada que não enganava ninguém que tivesse prestado atenção nos últimos minutos.
Caio soltou a respiração que nem sabia que estava segurando.
— Isso foi perto demais — disse, baixo, pra Natasha.
— Foi. — Ela ainda tremia visivelmente, tentando recompor a própria expressão. — Ele está perdendo o controle, Caio. Rápido demais.
— Isso é bom pra gente.
— Ou extremamente perigoso. — Ela olhou pra ele, os olhos sérios. — Homem que perde o controle em público é homem que pode fazer qualquer coisa em particular.
Do outro lado do salão, eles viram Henrique parado sozinho por um momento, o copo de uísque na mão, os olhos fixos neles com uma intensidade que não tinha mais nada de calma calculada.
Só ódio puro, m*l disfarçado.
— Precisamos ir embora daqui — disse Caio, finalmente. — Separados, com intervalo de tempo, sem dar mais motivo pra suspeita.
— Concordo.
Ela se afastou primeiro, cumprimentando alguns conhecidos no caminho pra saída, a postura profissional reconstruída com esforço visível. Caio esperou dez minutos antes de fazer o mesmo, sentindo, o tempo inteiro, o peso do olhar de Henrique cravado nas próprias costas.
No estacionamento, já dentro do carro, ele recebeu uma mensagem de Natasha.
Cheguei em casa. Ele ainda está na festa. Preciso conversar com você amanhã, longe de tudo isso. Descobri outra coisa hoje, antes do evento, e não tive coragem de contar no meio da confusão.
Caio sentiu o estômago apertar, digitando a resposta rápido.
Que coisa?
A resposta demorou pra chegar, os pontinhos aparecendo e desaparecendo várias vezes antes da mensagem final surgir na tela.
Acho que sei quem Henrique está planejando culpar pela fraude. E o nome vai te surpreender.