Alice Martins nunca foi uma mulher de se impressionar fácil. Já tinha trocado uma fralda em um carro em movimento, lidado com um bebê que só dormia ouvindo heavy metal e até acalmado gêmeos brigando por um único brigadeiro sem precisar recorrer à violência.
Ela tinha seis anos de experiência sólida. Jovem, bela e pulso firme quando se tratava de cuidar de qualquer criança.
Ao pisar na casa impecavelmente branca e gélida da família de Ethan Blackwood, Alice sentiu algo estranho. Não medo. Não insegurança.
Era tédio.
Tudo ali gritava "olha como sou rico e emocionalmente indisponível". O tipo de lugar onde uma única poltrona custava o mesmo que um carro e onde as plantas provavelmente tinham contratos de confidencialidade com quem morava ali.
Então era ali que duas crianças moravam? Nem mesmo parecia que a casa gostava de crianças que poderiam riscar suas paredes.
Ela ajeitou sua bolsa (um modelo de 2017 que já tinha visto dias melhores), respirou fundo e se aproximou da mulher que parecia ser a governanta.
Havia combinado com RH toda documentação e o salário era o combinado inicial pelo telefone. O que deixava ela pensativa.
O quão desesperado o homem estava?
— Oi! Alice Martins, babá profissional e domadora de ferinhas. Vim para começar e também conhecer o chefe.
A mulher, que tinha a expressão de alguém que vivia à base de café e arrependimentos, apenas inclinou a cabeça em direção à porta dupla à sua direita.
— O senhor Blackwood está esperando.
Alice sorriu.
— Ótimo! Vamos lá conhecer o homem que assusta banqueiros e chora ao ver o extrato bancário dos outros. Bem, isso foi o que eu li. Mas acredito ser verdade, já que a proposta foi ótima.
Sorriu, falando mais do que devia talvez. Mas ela não era o tipo de mulher que segurava a língua na boca. Liberdade de expressão era seu segundo nome.
A governanta piscou algumas vezes e abriu a porta antes que ela pudesse responder.
E foi assim que, em plena manhã de terça-feira, ela fez sua entrada triunfal na casa de reuniões particular de Ethan Blackwood.
Era realmente tudo que diziam na Internet e até na revista.
— Venha, por aqui.
Alice seguiu a mulher e viu o corredor largo e iluminado. Parecia um condenado a pena de morte no corredor da morte, prestes a levar uma injeção mortal.
A porta de madeira se abriu e a mulher da esperou que ela entrasse e depois fechou.
Um frio na barriga tomou conta dela.
Estava nervosa com tudo aquilo. Devia anotar isso no seu bloco de notas.
A primeira coisa que Alice notou foi a mesa.
Uma aberração de vidro e metal, brilhante e fria como se tivesse sido feita para assustar visitantes.
A segunda coisa foi o próprio Ethan.
Era mais bonito olhando de perto e não pela tela de um notebook.
Alto, impecável, usando um terno que provavelmente custava o mesmo que uma viagem para a Europa. O tipo de homem que não sorria sem uma razão lucrativa. Cabelo escuro perfeitamente penteado, rosto marcado por traços duros e olhos que pareciam examinar o valor de mercado de cada pessoa ao seu redor. Era forte, de forma sutil e que se escondia atrás da roupa.
Alice já lidou com bebês que gritavam ao ver vegetais e crianças que se escondiam no freezer de supermercados, mas nada preparou ela para aquele olhar quando ele encarou ela com olhos brilhantes.
Ethan Blackwood a analisou de cima a baixo, como se estivesse avaliando um investimento de risco.
Alice cruzou os braços e devolveu o olhar. Nada intimidada por ele e nem pelo jeito peculiar que ela logo percebeu.
— Se estiver me julgando pelo cabelo bagunçado, já aviso que foi o vento. Se estiver me julgando pelo tênis manchado com tinta, já aviso que foi uma criança vingativa. E se estiver me julgando pela minha presença, sinto muito, mas já estou aqui. Sou Alice. Falei com o senhor ontem.
O homem piscou. Uma. Duas vezes.
Depois, voltou a falar.
— Sente-se.
Alice caminhou até a cadeira, se jogou nela como se estivesse no sofá de casa e cruzou as pernas.
— Então, senhor. Como posso te ajudar hoje?
Ethan Blackwood, CEO de uma das maiores firmas de investimentos do país, um homem que fazia tubarões das finanças suarem frio, franziu o cenho.
Aquela era a mulher que tanto falaram fazer mágica? Parecia uma adolescente desleixada. Nem falava pelos cabelos pretos bagunçado, era pelo jeito solto. Não parecia profissional.
Uma Babá devia ser profissional, certo?
— Senhor Blackwood.
Alice piscou.
— O quê?
— Me chame de senhor Blackwood.
Ela prendeu uma risada.
— Olha, eu sou babá, não executiva da sua empresa. Se eu tiver que te chamar de "senhor Blackwood", então você tem que me chamar de "senhora Martins". Então, prefiro Alice.
A boca dele se contraiu minimamente.
— Alice.
— Senhor, Ethan.
Ele suspirou como se já estivesse arrependido de viver.
Ethan precisou puxar os papéis. O currículo enorme e bem feito.
Era a mesma pessoa?
Ethan abriu uma pasta, pegou um papel e começou a ler.
— Tenho seu currículo aqui. Vários anos como babá. Especialização em crianças problemáticas. Experiência com— Ele parou de ler e ergueu as sobrancelhas. — Como exatamente você "impediu um motim em um acampamento de verão" com um pacote de biscoitos?
Alice sorriu.
— Segredo profissional. Mas as crianças foram incríveis.
Ethan a olhou como se quisesse insistir, mas desistiu. Era o desespero?
Sim.
Não aguentava mais as crianças, jurou que se eles invadissem mais uma reunião, ele mandaria os dois para um colégio interno e não iria ligar para desnaturada da sua irmã para pedir permissão.
A bomba estava com ele. Ele não queria que estourasse nele, como vinha acontecendo.
— Os meus sobrinhos já passaram por sete babás nos últimos três meses. Nenhuma ficou mais de uma semana.
Alice abriu um grande sorriso. Ethan precisou fazer uma pausa. Era até bonito.
— Ótimo. Desafios me mantêm jovem.
— Eu não estou brincando. Não brincava quando falei que tinha uma emergência.
— Nem eu.
Ethan a encarou, tentando encontrar um traço de hesitação. Não encontrou. Nada.
Gostou daquilo.
— Minha irmã está na América, deixou os dois comigo. Você terá que seguir as regras da casa. Sem excessos de afeto, sem métodos pouco ortodoxos e, acima de tudo, sem se envolver demais. Você é apenas uma funcionária.
Alice revirou os olhos.
— Ah, sim. A clássica abordagem "as crianças precisam de rigidez e disciplina". Nunca vi isso dar errado.
Ele ignorou a ironia da mulher. Poderia ficar bravo, mas se ela fosse boa mesmo, podia aguentar uma ou outra coisa. Era o desespero de um homem que nunca conviveu com criança nenhuma além dele ou da irmã quando mais nova.
— Você aceita ou não? As crianças são... Impossíveis. Estou a ponto de mandá-las para um internato ou colégio militar.
Alice se inclinou para frente, estreitando os olhos.
— Tenho só uma pergunta antes de assinar qualquer contrato ou ir conhecer as crianças.
— Qual?
— Se os seus sobrinhos são tão impossíveis assim... por que você não contratou um exorcista em vez de uma babá?
Ethan fechou os olhos por um breve momento. Talvez estivesse reconsiderando todas as suas escolhas de vida.
Depois, estendeu a mão para um contrato sobre a mesa.
— Assine isso. Você começa hoje. Se for tão boa como disseram, posso desconsiderar suas piadas. Isso é um efeito colateral de cuidar de criança, não é?
Alice pegou a caneta e assinou com um floreio exagerado. Depois sorriu, satisfeita por mais um trabalho.
Se sentiu a própria Mery Poppins. Só que uma versão de luxo de um magnata de Nova York.
— Ótimo. Agora, onde estão as criaturinhas? Quero conhecê-las antes que decidam me afogar no tanque de peixes. Você não tem um, não é?
Ethan não respondeu. Apenas apertou um botão na mesa.
A porta ao fundo se abriu para uma sala retrate.
E então, Alice viu as crianças.
Seu primeiro pensamento foi: "Bom, talvez eu devesse mesmo ter trazido água benta."
Mas era tarde demais para voltar atrás.
Ela era a babá agora.
E que os jogos comecem.