A REGRA QUE ELE QUEBROU

1150 Words
Eu passei três anos aprendendo a não sentir. E um único olhar dele foi suficiente para colocar tudo em risco. A festa continuava ao nosso redor como se nada tivesse acontecido. Taças tilintavam, risos eram distribuídos com facilidade, músicas suaves preenchiam o salão. Mas eu só conseguia ouvir o som acelerado do meu próprio coração. — O contrato terminou — repeti, firme, como se as palavras pudessem me proteger. Rafael não sorriu. Ele nunca sorria quando algo realmente importava. — Terminou no papel — respondeu. — Não na prática. Havia algo diferente nele. Não era só saudade. Era inquietação. Como se tivesse perdido o controle de algo essencial e ainda não soubesse lidar com isso. — Eu não faço mais parte da sua vida — falei, dando um passo para trás. Ele avançou um passo à frente. O espaço entre nós ficou perigosamente curto. — Você sempre fez parte — disse, baixo. — Só não percebi quando ainda tinha você todos os dias. Aquela frase me atingiu como um golpe lento. Não porque fosse romântica. Mas porque era tardia. — Eu não posso conversar com você sobre isso aqui — murmurei. — Não agora. — Então venha comigo. — Para onde? — Para um lugar onde você sempre me dizia a verdade. Meu estômago se revirou. O terraço. Durante o casamento, o terraço havia sido o único lugar onde eu conseguia respirar. Onde o luxo não sufocava. Onde eu podia ser apenas Helena, não a esposa do CEO. — Não é uma boa ideia — tentei. Rafael inclinou-se levemente, a voz firme, irrecusável. — Por favor. Não era um pedido. Era a primeira vez que ele parecia… precisar. Subimos em silêncio. O vento noturno estava frio, mas o céu estava limpo. A cidade brilhava abaixo de nós, indiferente ao caos que ele causava dentro de mim. — Você foi embora sem dizer nada — ele começou, apoiando as mãos no parapeito. — Eu disse tudo o que precisava durante três anos — respondi. — Só não fui ouvida. Ele respirou fundo, como se escolhesse as palavras com cuidado. — Eu não sabia que você se sentia assim. Soltei uma risada curta, amarga. — Esse foi o problema, Rafael. Você nunca soube. O silêncio caiu pesado entre nós. Pela primeira vez, ele não parecia confortável nele. — Eu achei que estava sendo correto — disse. — Dei espaço. Respeitei limites. — Você se escondeu atrás deles — corrigi. — Me transformou em parte da decoração da sua vida. Ele virou-se para mim, o olhar mais intenso do que eu lembrava. — Eu não sabia como fazer diferente. — Mas eu sabia — respondi. — Todos os dias. Minha voz falhou, mas não desviei o olhar. — Todos os dias eu acordava esperando que você me visse. Não como esposa contratada. Como mulher. Como alguém que estava ali por você. Ele passou a mão pelos cabelos, tenso. — Por que nunca disse nada? — Porque não fazia parte do contrato — sussurrei. — E porque eu tinha medo de ouvir o silêncio como resposta. Rafael se aproximou devagar. Não havia pressa, nem domínio. Apenas cuidado. — Eu pensei em você todos os dias depois que foi embora — confessou. — Achei que sentiria alívio. Mas a casa ficou vazia. E eu… fiquei perdido. Aquela era a regra quebrada. Durante três anos, Rafael Montez nunca havia admitido fraqueza. Nunca havia confessado ausência. Nunca havia falado de sentimentos. — Você não pode aparecer na minha vida agora e dizer isso — falei, sentindo o peito apertar. — Eu precisei aprender a seguir em frente. — Conseguiu? — perguntou, quase em um sussurro. Hesitei. — Estou tentando. Ele se aproximou mais um passo. Eu senti seu perfume, sua presença. Tudo aquilo que eu havia treinado para esquecer. — Eu não quero um contrato — disse. — Quero uma chance. Meu coração gritava para acreditar. Minha razão implorava para correr. — Você sabe o que está pedindo? — perguntei. — Sei. — Seus olhos não desviaram dos meus. — Estou pedindo para tentar sem garantias. Sem regras. Sem controle. — Isso não parece algo que você costuma fazer. — Não é. — Ele respirou fundo. — Mas você nunca foi algo comum na minha vida. O vento soprou mais forte. Meu corpo reagiu antes da minha mente quando ele estendeu a mão e tocou meus dedos. Um toque leve, hesitante. Diferente de tudo que havíamos vivido. — Não — murmurei, mesmo sem afastar a mão. — Não agora. Ele respeitou. Sempre respeitou. Talvez demais. — Eu vou provar — disse. — Não com palavras. Com atitudes. — Eu não sou mais a mulher que assinou aquele contrato — alertei. — Eu sei — respondeu. — E é exatamente por isso que estou aqui. Ficamos ali por alguns minutos, sem dizer nada. O silêncio agora era diferente. Carregado de possibilidades. Quando descemos, a festa estava chegando ao fim. Eu me despedi sem promessas. Na manhã seguinte, meu telefone tocou cedo. Era ele. — Bom dia, Helena. A voz soava mais próxima. Menos CEO. Mais homem. — Bom dia. — Preciso falar com você. No escritório. Como antes. Meu coração acelerou. — Não trabalho mais para você. — Não como funcionária — corrigiu. — Como alguém que eu preciso ouvir. Contra meu melhor julgamento, aceitei. O Grupo Montez parecia o mesmo. Mas eu não era. Quando entrei na sala, encontrei uma mulher sentada à mesa. Elegante, confiante, sorriso calculado. — Ah, você deve ser a ex-esposa — disse ela, estendendo a mão. — Laura Ferraz. Rafael entrou logo depois. — Laura é diretora de relações institucionais — explicou. Ela me analisou de cima a baixo com interesse demais. — Fiquei curiosa quando ouvi falar de você — disse. — Afinal, não é qualquer pessoa que ocupa esse lugar por três anos. O lugar. Sorri educadamente. — Foi temporário. Rafael percebeu a tensão. — Laura, pode nos dar um momento? Ela arqueou a sobrancelha, surpresa, mas se levantou. — Claro. — Antes de sair, olhou para mim novamente. — Nos veremos mais vezes. A porta se fechou. — Você não me disse que tinha alguém — falei, tentando manter a calma. — Eu não tenho — respondeu rápido. — Laura é apenas… uma possibilidade que todos insistem em empurrar. — E você? — perguntei. — O que você quer? Ele se aproximou da mesa, apoiando as mãos, exatamente como fazia quando tomava decisões importantes. — Eu quero você. Sem contrato. Sem obrigação. Sem fingimento. Meu coração acelerou, mas eu mantive a postura. — Então vai ter que aprender a me conquistar — falei. — Porque desta vez, Rafael… eu não vou aceitar menos do que mereço. Ele sorriu de leve. Um sorriso verdadeiro. Raro. — Então é melhor eu começar agora. E naquele instante, eu soube: o homem que nunca quebrou regras estava disposto a quebrar todas por mim.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD