Capítulo 7 — O Beijo Que Não Era Parte do Acordo

2560 Words
Quando abri os olhos, o quarto estava vazio. Senti o lado da cama frio, a ausência dela como um grito surdo ecoando entre as paredes. Levei alguns segundos para processar. Meus dedos correram sobre o lençol, como se pudessem encontrá-la ali, impressa no tecido. Mas tudo que encontrei foi o silêncio e um papel dobrado em cima do travesseiro. Minha respiração ficou pesada. Senti o sangue ferver antes mesmo de abrir o bilhete. “Fui para o escritório. Stella.” Simples. Rápido. Frio. A audácia. Levantei num pulo, o corpo inteiro tensionado. O quarto parecia pequeno demais para conter o furacão que explodia dentro de mim. Como ela ousava? Depois da noite mais intensa da nossa vida. Depois de cada confissão sussurrada entre gemidos. Depois de cada olhar que dizia mais do que qualquer palavra. Ela simplesmente foi embora. Andei até o banheiro, apoiei as mãos na pia de mármore. O reflexo me encarava com uma fúria que eu não via há anos. Meus punhos fecharam. Eu não era um homem acostumado a ser deixado. Muito menos a ser ignorado. Passei a mão pelos cabelos, tentando respirar. Mas cada lembrança dela, o cheiro, o som da voz, o gosto na minha boca, incendiava ainda mais o peito. “Ela acha que pode se esconder atrás do papel de secretária”, pensei, o maxilar travado. “Acha que pode fingir que nada aconteceu.” Um riso rouco, amargo, escapou. Ela não fazia ideia no que estava se metendo. Cheguei à empresa poucos minutos depois, ainda usando a mesma camisa da noite anterior, os botões abertos no pescoço. Entrei no prédio como uma tempestade, ignorando cada olhar curioso, cada saudação forçada. Quando a porta do meu andar se abriu, o ar pareceu mudar. O silêncio caiu sobre os corredores como uma lâmina afiada. Eu sabia onde encontrá-la. Caminhei até a sala dela, a passos firmes, cada pisada ecoando como um trovão. Abri a porta sem bater. Ela estava lá. Sentada. Com a postura impecável, o cabelo preso num coque que deixava o pescoço exposto. Os olhos focados no computador, como se fosse apenas mais uma manhã qualquer. Assim que me viu, o corpo dela tensionou. Por um segundo, pensei ver o pânico passar nos olhos. Mas, em seguida, ela ergueu o queixo, como se vestisse uma armadura invisível. — Bom dia, senhor West. A voz saiu firme, quase provocativa. O sangue ferveu. Fechei a porta atrás de mim, andando até ela. Stella se levantou lentamente, a respiração acelerada, mas sem desviar o olhar. — Achei seu bilhete. Falei, a voz baixa, cortante. Ela engoliu em seco, mas manteve o queixo erguido. — Eu… achei que devia vir trabalhar. Temos uma agenda cheia hoje, senhor. — Senhor? Repeti, aproximando-me. — Depois de ontem à noite, você ainda tem coragem de me chamar de senhor? Os lábios dela tremeram. Um rubor subiu pelo pescoço, manchando as bochechas. — Eu… Tentou falar, mas a voz falhou. Agarrei seu pulso, puxando-a contra mim. O choque dos corpos arrancou um arfar dela. Senti o coração dela disparado, o cheiro doce, o calor que subia como um incêndio. — Você acha que pode simplesmente fugir? Perguntei, meu rosto tão perto do dela que nossas respirações se misturavam. — Fingir que não aconteceu? Ela tentou recuar, mas não deixei. Meus dedos subiram para o queixo, segurando com força, obrigando-a a me olhar. — Eu não estou fugindo… Murmurou, mas os olhos dela tremiam. — Não mente. Rosnei, aproximando ainda mais. — Eu sinto quando você mente. As mãos dela se fecharam sobre meu peito, como se quisesse me afastar. Mas em vez disso, senti os dedos se contraírem, segurando meu tecido, ancorando-se ali. O silêncio entre nós era um grito contido. O ar parecia vibrar, pesado, denso. Então, sem pensar, capturei a boca dela num beijo que não era parte de nenhum acordo, de nenhum contrato. Foi brutal. Quente. Um beijo que dizia tudo que eu não podia falar. Um beijo que rasgava cada máscara, cada resistência. Ela resistiu no início, as mãos empurrando fracas. Mas depois, senti quando o corpo dela cedeu. O gemido baixo explodiu contra minha boca, e os braços me envolveram num aperto desesperado. O gosto dela me enlouquecia. O calor da língua, o jeito como ela tremia, como se estivesse despencando de um abismo. Quando me afastei, ela estava ofegante, os lábios vermelhos, inchados, os olhos úmidos. — Não foi um beijo do contrato. Murmurei, ainda colado nela. — Foi meu. Só meu. — Christian… Ela sussurrou, a voz quebrada. Passei os dedos pelo rosto dela, sentindo a pele quente, frágil, pulsante. — Não ouse mais fugir de mim. Ordenei, minha voz saindo quase como uma prece. — Você não é apenas uma funcionária. Você é minha. E eu sou seu, mesmo que eu negue todos os dias. Os olhos dela se encheram de lágrimas, mas ela não disse nada. Apenas encostou a testa na minha, respirando como se precisasse de mim para continuar viva. Naquele momento, o escritório, os papéis, o mundo inteiro desapareceram. Só existiam dois corações batendo rápido demais, duas almas lutando para não se perderem uma na outra. E um beijo que não era parte de acordo nenhum. Era puro, selvagem. Era nosso. Quando Christian saiu, o som da porta batendo reverberou nas paredes como um trovão. A sala pareceu encolher, o ar ficou pesado, e eu fiquei ali, com os lábios ainda latejando do beijo que não fazia parte de contrato nenhum. A respiração veio em ondas, curtas, irregulares. Passei a mão no rosto, tentando apagar os vestígios daquela explosão íntima. Mas era inútil. O gosto dele ainda queimava na minha boca, o cheiro dele ainda grudava na minha pele. Dei um passo para trás, tentando encontrar algum chão. As pernas tremiam, o coração parecia querer escapar do peito. "Respira, Stella", repeti para mim mesma, como um mantra. "Você não pode fraquejar aqui." Arrumei a blusa, alisei a saia e puxei uma mecha de cabelo que havia se soltado do coque. Passei os dedos nos lábios, sentindo o inchaço, o calor. Foi então que ouvi um pigarro discreto na porta. Levantei o rosto. Dona Júlia estava parada ali, segurando uma pilha de papéis contra o peito. Era a secretária mais antiga do escritório, quase uma lenda viva. Trabalhara por anos com o Dr. Alves, o advogado rabugento do andar de cima. Ela era do tipo que via tudo, ouvia tudo — e julgava tudo. — O que foi aquilo? Perguntou, arqueando uma sobrancelha fina, a voz carregada de curiosidade. — Ele parecia um touro furioso. O deboche subiu pela minha garganta como um instinto de defesa. Endireitei a postura, ergui o queixo e forcei um sorriso forçado. — Ah… Fingi ajeitar a pilha de papéis na mesa. Talvez ele tenha se irritado porque eu corrigi um documento importante. Você sabe como homens poderosos odeiam ser contrariados. Ela me olhou por alguns segundos, os lábios franzidos, como se pesasse cada palavra. — Corrigiu um documento? Repetiu, descrente. — Stella… você acha que eu nasci ontem? Soltei um riso baixo, teatral, e me virei, fingindo estar ocupada no computador. — Dona Júlia, o senhor Christian é sempre assim. Temperamental. Nada que me surpreenda. Ela soltou um suspiro indignado, murmurando algo sobre "essa juventude sem juízo", e se afastou balançando a cabeça. Eu mantive o ar de despreocupação até ouvir os passos dela sumirem no corredor. Então, deixei escapar um suspiro pesado, quase um soluço. Antes que eu pudesse me recompor, um barulho seco me fez gelar. O som de vidro se partindo. Virei o rosto para a sala dele. Um copo estilhaçado no chão, pedaços brilhando sob a luz fria. Ele tinha ouvido. O ar me faltou. Senti o sangue deixar meu rosto, e meus dedos gelaram no teclado. Uma batida surda no peito, como se eu tivesse sido pega em flagrante. O celular vibrou em cima da mesa. O som curto, mas tão alto que pareceu um trovão. A tela iluminou, mostrando o nome que eu nunca tinha coragem de salvar como "Christian". Ali aparecia apenas "C.W.". Com a mão trêmula, deslizei o dedo para desbloquear. "Na minha sala. Agora." Curto. Frio. Cortante. Senti as pernas fraquejarem. Passei a língua pelos lábios, tentando recuperar algum resquício de dignidade. Olhei meu reflexo no monitor: os olhos ainda marejados, a boca vermelha, o coque um pouco desalinhado. Levantei. Ajeitei a saia mais uma vez, puxei o ar como se fosse me lançar de um penhasco. Cada passo até a porta dele parecia ecoar em câmaras vazias dentro de mim. Meu corpo inteiro gritava lembranças da noite anterior. Dos toques, dos gemidos, das promessas silenciosas que, agora, pareciam uma miragem c***l. Bati na porta com delicadeza, mas não esperei resposta. Empurrei e entrei. O escritório estava mergulhado numa penumbra estranha, o cheiro forte de uísque ainda pairava no ar. Ele estava de costas, olhando pela janela, os ombros tensos, as mãos nos bolsos. O copo estilhaçado permanecia no chão, ignorado como se fosse um inseto morto. Eu sabia que ele estava me ouvindo. Sabia que sentia minha presença. O silêncio era tão denso que quase doía. Dei um passo hesitante, e antes que pudesse abrir a boca, ouvi a voz dele, baixa, grave, cheia de uma raiva contida que me fez tremer. — Feche a porta. Engoli em seco e obedeci. Ali, naquela sala, eu não era a funcionária. Eu não era a mulher que ele tomara na cama. Eu não era ninguém. Eu era apenas a presa, esperando a sentença. Fechei a porta devagar, tentando conter a respiração descompassada. O som do trinco ecoou como um estalo no silêncio pesado do escritório. Christian permaneceu parado, o olhar perdido na cidade lá fora, como se a vista noturna pudesse conter a tempestade que rugia dentro dele. Eu queria falar. Pedir desculpas. Gritar. Mas nada saía. — Você se diverte me provocando, não é? Ele disse finalmente, a voz baixa, mas carregada de uma fúria gelada que arrepiou cada centímetro do meu corpo. Dei um passo hesitante. — Christian, eu… Ele se virou num movimento rápido, os olhos cravados em mim como lâminas afiadas. — Não ouse me chamar assim aqui. Rosnou, a mandíbula tão tensa que eu temi que se quebrasse. — Aqui, sou seu chefe. O homem que você tentou humilhar esta manhã com seu teatrinho barato. Meu coração bateu tão forte que senti a pulsação na garganta. — Eu não quis… Minha voz falhou, tremendo. Ele deu um passo em minha direção. Meu corpo automaticamente recuou, mas bati contra a porta fechada. Sem saída. Christian continuou avançando até ficar tão perto que senti o calor dele irradiar contra minha pele. Ele apoiou as mãos na madeira atrás de mim, me prendendo ali, o rosto tão próximo que nossas respirações se misturaram. — Você acha que pode brincar comigo? Perguntou, a voz baixa, um fio de voz que carregava mais ameaça do que um grito. — Acha que pode me deixar na cama, sair como se nada tivesse acontecido, fazer piadas com uma velha fofoqueira e continuar com essa pose de funcionária obediente? A vergonha me queimava. Meu corpo inteiro tremia, mas eu me recusei a desviar o olhar. — Eu só queria… manter as coisas profissionais. Murmurei, cada palavra difícil como se fosse engolir cacos de vidro. — Foi um erro. Ele bufou, a risada curta e amarga. — Um erro? Repetiu, inclinando o rosto ainda mais. — Foi isso que nossa noite significou pra você? Um erro? Eu engoli em seco. As lembranças daquela noite e as mãos dele me segurando, o calor insuportável, os gemidos que ainda vibrava no meu peito, me invadiram com força. — Não… Sussurrei, num sopro. — Não foi um erro. Mas… Christian ergueu uma das mãos, segurou meu queixo com firmeza, forçando-me a olhar direto nos olhos dele. — Então, diga. Ordenou. — Diga o que foi. Meus olhos se encheram de lágrimas. A garganta apertada, o peito pesado. Eu tremia da cabeça aos pés. — Foi… tudo. Respondi, a voz falhando. — Foi tudo. Foi… mais do que eu imaginei que poderia sentir. Por um segundo, o olhar dele mudou. Um relâmpago de vulnerabilidade cortou a fúria, mas desapareceu tão rápido quanto veio. Então ele aproximou a boca do meu ouvido, a respiração quente me fazendo arrepiar inteira. — Você me enlouquece. Ele murmurou, a voz grave, carregada de uma dor crua. — Você me quebra por dentro, Stella. E ainda assim… eu não consigo parar. Aquelas palavras me atingiram como um soco no estômago. Meus joelhos quase cederam. Ele encostou a testa na minha, os olhos fechados, como se estivesse travando uma guerra interna. — Eu não posso continuar assim. Ele disse, quase num sussurro. — Eu não posso me permitir querer você dessa forma. — Então para. Minha voz saiu mais alta do que eu pretendia. — Para agora. Os olhos dele se abriram, negros, queimando. — Não me provoca. Avisou, a voz rouca, vibrando como um trovão contido. — Eu posso ser muitas coisas, Stella, mas não sou feito para me controlar quando se trata de você. Nossos olhares se prenderam. O ar entre nós parecia eletrificado, vibrando com uma tensão quase insuportável. Então, sem aviso, ele me beijou de novo. Não foi um beijo planejado. Não foi um beijo negociado. Foi um roubo. Uma invasão. Uma confissão. Os lábios dele esmagaram os meus com uma urgência que falava de noites m*l dormidas, de pensamentos proibidos, de um desejo tão profundo que beirava o desespero. Eu respondi com a mesma intensidade, minhas mãos agarrando os braços dele, as unhas cravando na pele. O mundo desapareceu. Só havia aquele beijo, aquela raiva transformada em fome, aquele amor não declarado gritando em silêncio. Quando ele finalmente se afastou, nós dois estávamos ofegantes. As testas coladas, os lábios inchados, os corpos tremendo. — Não me deixe de novo. Ele disse, num tom tão baixo que parecia apenas um pensamento. — Não fuja de mim. Eu fechei os olhos, engolindo o choro que ameaçava me afogar. — Eu tenho medo. Confessei, a voz rasgada. — Medo de você. Medo do que sinto. Christian passou o polegar pelo meu rosto, recolhendo uma lágrima. — Eu também tenho medo. Admitiu, a confissão saindo como uma lâmina suave. — Mas você já está em mim. Não existe mais volta. Por alguns segundos, ficamos apenas respirando, o silêncio pesado, cheio de tudo que não sabíamos dizer. Então ele deu um passo para trás, passando a mão pelos cabelos. O olhar dele estava distante, confuso, como se ele mesmo não soubesse para onde correr. — Volte para a sua mesa. Disse, enfim, a voz fria, mas os olhos… os olhos diziam outra coisa. — Agora. Assenti, sem forças para discutir. Abri a porta, senti o ar frio do corredor bater no rosto quente. Antes de sair, olhei por cima do ombro. Ele ainda estava lá, parado, olhando para o chão, como se lutasse contra demônios invisíveis. Saí, fechando a porta devagar, engolindo o nó na garganta. Caminhei até minha mesa com passos trêmulos, sentindo todos os olhares sobre mim, mas ignorando. Sentei, respirei fundo, fechei os olhos. Naquele beijo, entendi tudo. Não era apenas um jogo. Não era apenas um contrato. Era um abismo. Um que eu já não queria mais evitar. E ele… Ele era a queda.
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