Eu nunca fui boa em mentir. As palavras sempre me traíram, denunciando segredos pelos meus olhos antes mesmo que minha boca pudesse articular qualquer defesa. Mas, naquela manhã, no silêncio c***l do elevador espelhado, eu soube que havia cruzado uma linha da qual não haveria volta.
Meus dedos tremiam quando puxei o celular, as unhas curtas, recém-feitas, marcando a tela enquanto eu digitava a mensagem fatal para minha prima, aquela mesma que passou a vida me diminuindo, tomando tudo que era meu, transformando cada conquista minha em piada.
"Estarei no seu aniversário, sim. E, ah, vou levar meu namorado. Sim, aquele de quem te falei. O CEO bilionário, Christian, O homem dos seus sonhos."
A mentira escapou como um sussurro indecente. E assim que enviei, um calor corrosivo subiu pelo meu pescoço, queimando até o couro cabeludo. Eu podia quase ouvir a risada dela ecoando do outro lado da cidade, alimentada pelo veneno que sempre destilou em cada palavra.
O problema? Eu não tinha namorado. Muito menos um CEO bilionário.
Christian West, meu chefe, o homem mais temido de Nova York, era a única opção que me veio à mente. Talvez porque fosse o rosto que mais ocupava meus pensamentos — contra a minha vontade. Ele era arrogante, insuportavelmente autoritário, e tão belo que parecia esculpido para torturar cada centímetro da minha sanidade.
Eu o odiava. Ou, pelo menos, era o que repetia todas as manhãs como um mantra protetor. Mas havia algo nele, um magnetismo escuro, perigoso, que me puxava para perto como uma maré faminta.
A porta do elevador se abriu. Respirei fundo, tentando restaurar a compostura antes de atravessar o corredor que levava até a fortaleza de vidro de Christian. Mas, como em uma coreografia c***l, ele surgiu no caminho, impecável em um terno cinza escuro que parecia ter sido costurado diretamente em seu corpo.
Os olhos dele encontraram os meus, frios, avaliadores, e eu senti minhas pernas tremerem sob o salto.
— Atrasada, Stella? A voz dele cortou o ar como uma lâmina.
— Não, senhor. Menti. De novo. Será que ele tinha ouvido o que falei ao telefone.
Os lábios dele se curvaram num sorriso seco, quase invisível, como se pudesse ler meus pensamentos mais íntimos. E talvez pudesse. Christian tinha um talento sobrenatural para me despir sem precisar me tocar.
— Na minha sala. Agora. Ordenou, girando nos calcanhares antes que eu pudesse formular qualquer desculpa.
Entrei atrás dele, o coração martelando contra as costelas. O ar ali dentro parecia mais denso, impregnado de sua presença. Ele apoiou as mãos sobre a mesa, o terno esticando sobre as costas largas, e virou-se devagar, o olhar cravado em mim como se eu fosse um animal prestes a ser devorado.
— Está acontecendo alguma coisa que eu deva saber? Ele perguntou, a voz baixa, rouca, perigosa.
— Não… não que eu saiba. Murmurei, desviando o olhar.
Ele caminhou em minha direção, passos felinos, predadores. O perfume dele era amadeirado, quente, com uma nota de tabaco e algo indefinível, completamente viciante e invadiu meus sentidos, deixando-me zonza.
— Sabe o que eu odeio mais do que incompetência, Stella? Ele parou tão perto que pude sentir o calor do seu corpo.
— Mentiras.
A palavra caiu entre nós como uma bomba silenciosa. Meu estômago se contraiu.
— Eu não menti… sussurrei, a voz falhando.
Os olhos dele queimavam. Sem aviso, Christian ergueu a mão, segurou meu queixo com firmeza, forçando meu rosto a encontrá-lo. Meu ar desapareceu.
— Você esquece que tenho olhos e ouvidos em toda parte? Ele aproximou ainda mais, o hálito quente roçando minha pele.
— Uma prima, um convite… Um namorado?
O choque percorreu meu corpo como um raio. Eu me sentia nua, despida de cada defesa que ainda restava.
— Foi um m*l-entendido…
Eu tentei. Mas as palavras saíram fracas, implorando por perdão.
Christian soltou uma risada baixa, sombria, que vibrou entre nós.
— m*l-entendido? Então, segundo sua versão, eu sou o seu “namorado bilionário”?
Ele repetiu, o sarcasmo escorrendo como veneno.
Meu rosto queimava. O coração parecia querer romper as costelas, implorando para fugir.
— Eu… Foi só… Uma maneira de calar a boca dela.
Minha voz saiu pequena, frágil.
O silêncio que se seguiu foi absoluto. Christian me observava como um predador estuda a presa antes do ataque final. Então, com uma lentidão c***l, ele abaixou o rosto até nossos narizes quase se tocarem.
— Você não faz ideia no que acabou de se meter, pequena.
Ele sussurrou, a voz um trovão contido.
— Mas já que resolveu brincar… Vamos jogar.
O ar se transformou numa prisão. Eu podia sentir cada batida do meu coração ecoar nos ossos.
Ele se afastou, girando para a mesa, pegou o telefone e falou com uma calma assustadora:
— Reserve o helicóptero. Vamos sair hoje à noite. Stella vai me acompanhar no evento de caridade.
Fez uma pausa, os olhos cravados em mim.
— E separe o melhor vestido para ela. Algo… marcante.
Eu não conseguia me mexer. O mundo girava.
— Você não pode me obrigar!
Eu explodi, finalmente.
Os lábios dele se curvaram num sorriso lento, perigoso.
— Ah, querida, eu não só posso como vou.
A voz dele era uma promessa sombria, quase erótica.
— E se ousar me desafiar… Eu vou te mostrar o que realmente significa ser minha.
Cada célula do meu corpo gritou. Eu queria odiá-lo. Queria gritar, correr, sumir. Mas havia algo mais forte, algo que queimava sob minha pele: desejo.
O mesmo desejo que me fazia sonhar com a mão dele no meu pescoço, o mesmo que me fazia acordar suada nas madrugadas, pensando no que sentiria se ele realmente me tomasse.
A porta se abriu e ele sumiu do meu campo de visão, deixando um perfume agridoce, quase c***l, pairando no ar. Eu fiquei ali, tentando respirar, tentando lembrar quem eu era antes daquela mentira que agora me arrastava para um abismo desconhecido.
Na tela do meu celular, a mensagem da minha prima brilhava.
"Você vai mesmo ter coragem de aparecer? m*l posso esperar para conhecer seu homem perfeito."
Minhas pernas cederam. Apoiei-me na borda da mesa, o peito subindo e descendo como se eu tivesse corrido quilômetros.
Christian não era um homem. Era um furacão. Uma força bruta que destruía tudo em seu caminho, inclusive a parte de mim que ainda acreditava que poderia controlar meu destino.
Eu sempre fui boa em sobreviver. Mas, pela primeira vez, eu não sabia se queria lutar ou me render.
Naquele momento, percebi a verdade c***l: eu não estava apenas presa em uma mentira. Eu estava presa a ele.
E, no fundo, talvez fosse exatamente isso que eu quisesse desde o início.
As horas seguintes passaram como um borrão. As vozes no corredor, o tilintar distante de xícaras na copa, as risadas eram abafadas e tudo parecia vir de um universo paralelo, longe demais para que eu pudesse alcançar.
Eu estava ali, sentada na cadeira dura do meu escritório, mas minha mente já havia sido sequestrada por Christian. Por sua presença avassaladora. Pela certeza sufocante de que, a partir daquele momento, minha vida não me pertencia mais.
A porta entreabriu-se. Marta, a assistente de RH, espiou, seus olhos arregalados.
— Stella…
Ela murmurou, hesitante.
— O motorista do senhor West já está te esperando lá embaixo.
Tive vontade de rir. Alto. Gritar. Queria perguntar se ela sabia que eu estava sendo enviada para o sacrifício. Para o altar de um homem que não acredita em deuses, mas que é adorado como um.
— Obrigada, Marta.
Minha voz saiu estranhamente calma.
Levantei-me devagar, como se cada músculo estivesse coberto por uma camada de chumbo. Caminhei até o espelho do banheiro ao lado da minha sala, fechei a porta e encarei o reflexo.
Meus olhos estavam arregalados, pupilas dilatadas. O peito subia e descia como se eu tivesse acabado de emergir de um mergulho profundo. Meus lábios estavam entreabertos, vermelhos de tanto morder.
Ali, sozinha, permiti que a verdade emergisse. Eu não estava apenas com medo. Eu estava excitada.
O perigo dele me atraía como uma lâmina reluzente. A forma como ele me segurou, a promessa velada no olhar, o aviso de que eu não tinha mais escapatória… tudo isso me incendiava de dentro para fora.
Passei os dedos pelos lábios, lembrando da proximidade quente, do hálito dele roçando minha pele. Minha respiração se tornou mais rápida, o sangue pulsava entre as pernas, latejante, exigente.
Fechei os olhos, permitindo que a fantasia tomasse forma: Christian me prendendo contra a parede, sua mão subindo por minha coxa, seus lábios rasgando cada espaço de lógica. Eu gemendo o nome dele, odiando cada segundo… e, ao mesmo tempo, desejando cada um deles.
Abri os olhos num sobressalto. Era loucura. Pura e completa loucura.
Respirei fundo. Precisava de controle. Precisava me recompor.
Ajeitei a saia, passei os dedos pelo coque que começava a desmanchar, respirei fundo mais uma vez. Então, saí.
O elevador parecia um túmulo suspenso, cada segundo um martírio. Quando as portas se abriram no térreo, o motorista de Christian estava ali, com um terno impecável, segurando uma caixa grande nas mãos.
— Senhorita Martins?
Ele me entregou a caixa.
— Ordem do senhor West.
O toque do papelão contra meus dedos me fez estremecer. Dentro, eu sabia, havia o vestido. O “marcante”, como ele dissera.
Saí do prédio, sentindo o ar noturno me golpear o rosto. Dentro da limusine, abri a caixa. O tecido escorregou entre meus dedos como água quente. Era um vermelho profundo, quase c***l, com fendas ousadas e decote capaz de fazer qualquer homem esquecer o próprio nome.
No fundo da caixa, um bilhete escrito em caligrafia firme, elegante, brutal:
“Quero todos olhando para você. Para depois entenderem que você é só minha.”
Meu peito se contraiu. Um arrepio elétrico subiu por toda a espinha.
Naquele instante, eu soube: já não havia volta.
Eu não estava apenas entrando em um carro. Eu estava mergulhando no mundo que sempre me chamou. E Christian West… era o próprio perigo.