- O silêncio que grita

840 Words
Uma semana. Foi esse o tempo que Isabela Duarte levou para conseguir atravessar novamente os portões da faculdade. Não porque tivesse parado de existir durante aqueles dias, mas porque precisou aprender a respirar outra vez. Precisou reaprender a sair de casa sem sentir que o mundo inteiro a observava. Precisou convencer a si mesma, todas as manhãs, de que o erro não foi dela — mesmo quando tudo ao redor insistia em dizer o contrário. Na primeira vez que entrou no campus depois do que aconteceu, sentiu o corpo inteiro enrijecer. Os passos ficaram mais lentos. Os ombros, tensos. O coração batia alto demais, como se denunciasse sua presença antes mesmo que alguém a visse. E viram. Os olhares vieram antes das palavras. Vieram carregados de julgamento, curiosidade e algo ainda pior: desprezo disfarçado de interesse. Isabela sentiu na pele o peso de ser observada não como pessoa, mas como história m*l contada. Alguns meninos cochichavam. Outros não se davam ao trabalho de disfarçar. Olhavam como se tivessem direito. Como se a i********e dela fosse pública. Como se o corpo que ela sempre tratou com respeito tivesse perdido valor no instante em que foi exposto sem consentimento. Ela apertou a alça da mochila com mais força e seguiu. Na sala de aula, escolheu um lugar mais afastado. Não queria sentar na frente naquele dia. Não queria ser vista. Não queria chamar atenção. A ironia era c***l: durante anos, foi reconhecida pela inteligência. Agora, parecia invisível como mente — e exposta como corpo. As meninas que antes riam com ela no intervalo desviavam o olhar. Algumas cochichavam. Outras simplesmente fingiam que Isabela não existia. Uma delas, que já tinha sido sua amiga, passou por ela no corredor e murmurou algo para a outra: — Nunca imaginei… Isabela fingiu não ouvir. Mas ouviu. E doeu. Ela tentou se concentrar nas aulas. Tentou anotar. Tentou acompanhar o raciocínio do professor. Mas as palavras pareciam escorrer da lousa sem se fixar em lugar nenhum. A mente voltava sempre para o mesmo ponto: por que comigo? Os dias seguintes foram ainda piores. Semana após semana, Isabela atravessava a faculdade como uma sombra. Sozinha no almoço. Sozinha nos trabalhos em grupo. Sozinha até nos silêncios. Os meninos não a respeitavam. Alguns faziam comentários disfarçados de elogios. Outros se aproximavam como se ela estivesse disponível para qualquer coisa, como se a exposição tivesse apagado seus limites. As meninas, por sua vez, pareciam puni-la por algo que nunca escolhera. Olhares frios. Sussurros. A palavra “vulgar” não era dita em voz alta — mas estava presente em cada gesto. Isabela começou a duvidar de tudo. Da própria força. Do sonho que sempre carregou. Da ideia de que bastava ser correta para estar segura. E, no meio disso tudo, Lucas. Ele tentou contato desde o primeiro dia. Mensagens longas. Áudios chorosos. Promessas vazias. Dizia estar sofrendo. Dizia estar arrependido. Dizia que também estava sendo julgado. Mas, aos poucos, Isabela percebeu a mudança. Lucas começou a se fazer de vítima. Falava para quem quisesse ouvir que tinha cometido um erro, mas que estava sendo punido demais. Que amava Isabela, mas que ela tinha sido dura. Que estava sozinho. Que estava perdido. E o mundo, c***l como é, decidiu acolhê-lo. A fama correu rápido. O mesmo Lucas que antes era discreto agora era visto como o “cara”. O errado arrependido. O menino que sofreu por amor. As meninas se aproximavam. Riam alto ao redor dele. Tocavam seu braço. Convidavam para festas. Ele aceitava. Isabela via. Via no corredor. Via nas redes sociais. Via em fotos que não queria ver, mas que sempre chegavam até ela de alguma forma. O homem que dizia amá-la tinha destruído sua vida acadêmica, sua imagem, sua segurança — e agora parecia colher algo parecido com admiração. Isso a dilacerava. Porque não era só o término. Não era só a traição. Era a injustiça. Era perceber que o erro dele virou história interessante, enquanto a dor dela virou rótulo. Era ver o sonho sendo esmagado lentamente, dia após dia, por algo que ela nunca escolheu. Algumas noites, Isabela pensava em desistir. Em trancar o curso. Em mudar de faculdade. Em desaparecer. Mas então lembrava da mãe. Do orgulho nos olhos dela quando falava da filha estudiosa. Lembrava de quem sempre foi antes de tudo aquilo. E continuava. Mesmo quebrada. Mesmo sozinha. Mesmo sangrando por dentro. Lucas tentou falar com ela pessoalmente algumas vezes. Tentou se aproximar no campus. Tentou puxar conversa como se nada tivesse acontecido. Isabela nunca respondeu. Não por fraqueza. Mas porque entendeu que algumas pessoas perdem o direito à explicação quando destroem demais. Ainda assim, vê-lo rindo com outras meninas a feria como uma lâmina lenta. Não por ciúme — mas por constatar que ele seguia em frente enquanto ela precisava lutar todos os dias apenas para existir naquele espaço. Naquela noite, sentada no quarto, Isabela encarou os próprios livros espalhados pela cama. O silêncio era pesado, mas não vazio. Era o silêncio de quem estava sendo moldada à força.
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