Lucas acordou com a cabeça latejando.
A luz atravessava as frestas da cortina como lâminas, e cada movimento fazia o mundo girar um pouco mais rápido do que deveria. A boca seca, o estômago embrulhado, o gosto amargo da ressaca misturado a uma sensação estranha de inquietação. Antes mesmo de abrir os olhos, o celular começou a vibrar outra vez.
E outra.
E outra.
Ele esticou o braço, tateando a mesa de cabeceira, e finalmente pegou o aparelho. A tela acendeu com uma enxurrada de notificações. Mensagens de números que ele não reconhecia. Grupos da faculdade. Chamadas perdidas. O nome de Isabela Duarte aparecia repetidamente.
O coração dele acelerou.
— Que p***a é essa… — murmurou, a voz rouca.
Abriu a primeira mensagem. Depois a segunda. Depois a terceira.
E então entendeu.
O vídeo.
O mundo pareceu parar por um segundo longo demais. A memória da noite anterior veio em flashes desconexos: risadas, copos cheios, a sensação estúpida de querer provar alguma coisa, o celular na mão… e depois, um vazio.
— Não… — ele sussurrou, sentando na cama de uma vez.
As mãos tremiam enquanto ele rolava a tela, vendo comentários, julgamentos, piadas. O estômago revirou. Um gosto metálico subiu pela garganta. Ele tentou ligar para Isabela, mas a chamada caiu direto na caixa postal.
Tentou de novo.
Nada.
Do outro lado da cidade, Isabela Duarte estava sentada no chão do quarto, encostada na cama, com o celular apertado contra o peito como se aquilo pudesse impedir o mundo de continuar girando.
Ela não chorava alto. As lágrimas simplesmente desciam, constantes, silenciosas, molhando a camiseta que usava desde a noite anterior. O vídeo tinha chegado até ela por alguém que sequer conhecia. Um nome qualquer. Um “você já viu isso?”. Um link que ela nunca deveria ter aberto.
Mas abriu.
E naquele instante, algo dentro dela se quebrou de um jeito que não tinha conserto.
Não era vergonha. Era traição.
O corpo dela — que sempre foi dela. A entrega — que foi escolha. A confiança — que foi total. Tudo jogado no mundo como se não tivesse valor.
Isabela sentiu náusea. Correu para o banheiro, ajoelhou diante do vaso, mas não vomitou. O que doía não era físico. Era mais fundo.
Ela ligou para Lucas. Uma vez. Duas. Dez.
Nada.
Quando a mãe entrou no quarto e a encontrou naquele estado, não precisou perguntar muito. Isabela levantou os olhos inchados e, com a voz falhando, contou tudo. Cada palavra parecia arrancar um pedaço dela.
A mãe não gritou. Não acusou. Apenas a abraçou forte, como se quisesse protegê-la do mundo inteiro.
— Você não fez nada errado — disse, firme. — Nada.
Isabela não foi à faculdade naquele dia. Não porque se sentisse menor, mas porque não sabia como sustentar o próprio corpo diante de tanta dor. Não sabia como respirar sem sentir o peso de cada olhar imaginado.
Lucas, desesperado, foi até a casa dela.
Tocou a campainha. Bateu. Chamou pelo nome.
— Isabela, por favor…
Ela ouviu. Cada batida parecia um soco no peito. Mas não atendeu.
Ele foi embora com a sensação de que estava perdendo tudo.
Continuou ligando. Mandando mensagens. Implorando.
Horas depois, quando a mãe saiu para trabalhar, Isabela respondeu com uma única frase curta:
Você pode vir. Mas só pra conversar.
Lucas chegou em poucos minutos. Quando entrou, encontrou Isabela sentada no sofá, ereta, os olhos vermelhos, mas o rosto firme. Não era a menina que ele costumava ver chorando e se entregando ao consolo dele. Era outra versão. Mais dura. Mais distante.
— Eu sinto muito — ele começou, a voz quebrada. — Eu juro que não lembro de quase nada. Eu nunca faria isso sóbrio.
Isabela levantou a mão.
— Não importa se você estava bêbado.
Ele engoliu em seco.
— Eu não enviei o vídeo.
— Mas você mostrou — ela respondeu, num tom controlado que doía mais do que grito. — Você deixou que vissem. Você abriu a porta.
Lucas passou a mão pelo rosto, os olhos marejados.
— Me perdoa. Eu te amo.
Isabela pegou o celular e abriu uma foto. Virou a tela na direção dele.
— E isso?
Era ele. Rindo. Dançando com outras meninas.
— Não aconteceu nada — ele se apressou. — Eu só dancei.
Ela respirou fundo.
— Engraçado. Porque eu não podia nem respirar perto de outro homem sem você surtar. Eu não podia conversar. Não podia rir. Não podia existir. E você podia beber, dançar, se exibir… e ainda expor o que era nosso.
As palavras saíam com calma, mas cada uma carregava uma lâmina.
— Eu confiei em você — Isabela continuou. — Eu escolhi você. E você me transformou em uma piada.
— Eu vou consertar — ele disse, quase de joelhos. — Eu faço qualquer coisa.
Isabela levantou-se.
— Não tem conserto, Lucas.
Ele sentiu o chão sumir.
— Não diz isso.
— Eu sei quem eu sou — ela disse, os olhos finalmente enchendo de lágrimas outra vez. — Eu sou mais do que o que você mostrou. Mais do que o que espalharam. Mas eu não consigo continuar com alguém que me traiu desse jeito.
— Eu não sou essa pessoa — ele insistiu.
— Mas foi você quem fez.
O silêncio que se seguiu foi pesado, definitivo.
— Eu não quero te ver nunca mais — Isabela concluiu. — Não liga. Não aparece. Não tenta.
Lucas chorava abertamente agora. Um choro feio, desesperado, tardio.
— Por favor…
Ela abriu a porta.
— Vai embora.
Ele saiu sentindo-se a pior pessoa do mundo. Porque, pela primeira vez, não havia desculpa que aliviasse o peso do que tinha feito.
Isabela fechou a porta e encostou as costas nela. As pernas cederam. O choro veio forte, rasgando o peito, mas junto com ele havia algo novo. Uma dor imensa… e uma certeza.
Ela tinha perdido muita coisa.
Mas não tinha perdido a si mesma.
E isso ninguém nunca mais tiraria dela.