— Quando a confiança morre

997 Words
Lucas acordou com a cabeça latejando. A luz atravessava as frestas da cortina como lâminas, e cada movimento fazia o mundo girar um pouco mais rápido do que deveria. A boca seca, o estômago embrulhado, o gosto amargo da ressaca misturado a uma sensação estranha de inquietação. Antes mesmo de abrir os olhos, o celular começou a vibrar outra vez. E outra. E outra. Ele esticou o braço, tateando a mesa de cabeceira, e finalmente pegou o aparelho. A tela acendeu com uma enxurrada de notificações. Mensagens de números que ele não reconhecia. Grupos da faculdade. Chamadas perdidas. O nome de Isabela Duarte aparecia repetidamente. O coração dele acelerou. — Que p***a é essa… — murmurou, a voz rouca. Abriu a primeira mensagem. Depois a segunda. Depois a terceira. E então entendeu. O vídeo. O mundo pareceu parar por um segundo longo demais. A memória da noite anterior veio em flashes desconexos: risadas, copos cheios, a sensação estúpida de querer provar alguma coisa, o celular na mão… e depois, um vazio. — Não… — ele sussurrou, sentando na cama de uma vez. As mãos tremiam enquanto ele rolava a tela, vendo comentários, julgamentos, piadas. O estômago revirou. Um gosto metálico subiu pela garganta. Ele tentou ligar para Isabela, mas a chamada caiu direto na caixa postal. Tentou de novo. Nada. Do outro lado da cidade, Isabela Duarte estava sentada no chão do quarto, encostada na cama, com o celular apertado contra o peito como se aquilo pudesse impedir o mundo de continuar girando. Ela não chorava alto. As lágrimas simplesmente desciam, constantes, silenciosas, molhando a camiseta que usava desde a noite anterior. O vídeo tinha chegado até ela por alguém que sequer conhecia. Um nome qualquer. Um “você já viu isso?”. Um link que ela nunca deveria ter aberto. Mas abriu. E naquele instante, algo dentro dela se quebrou de um jeito que não tinha conserto. Não era vergonha. Era traição. O corpo dela — que sempre foi dela. A entrega — que foi escolha. A confiança — que foi total. Tudo jogado no mundo como se não tivesse valor. Isabela sentiu náusea. Correu para o banheiro, ajoelhou diante do vaso, mas não vomitou. O que doía não era físico. Era mais fundo. Ela ligou para Lucas. Uma vez. Duas. Dez. Nada. Quando a mãe entrou no quarto e a encontrou naquele estado, não precisou perguntar muito. Isabela levantou os olhos inchados e, com a voz falhando, contou tudo. Cada palavra parecia arrancar um pedaço dela. A mãe não gritou. Não acusou. Apenas a abraçou forte, como se quisesse protegê-la do mundo inteiro. — Você não fez nada errado — disse, firme. — Nada. Isabela não foi à faculdade naquele dia. Não porque se sentisse menor, mas porque não sabia como sustentar o próprio corpo diante de tanta dor. Não sabia como respirar sem sentir o peso de cada olhar imaginado. Lucas, desesperado, foi até a casa dela. Tocou a campainha. Bateu. Chamou pelo nome. — Isabela, por favor… Ela ouviu. Cada batida parecia um soco no peito. Mas não atendeu. Ele foi embora com a sensação de que estava perdendo tudo. Continuou ligando. Mandando mensagens. Implorando. Horas depois, quando a mãe saiu para trabalhar, Isabela respondeu com uma única frase curta: Você pode vir. Mas só pra conversar. Lucas chegou em poucos minutos. Quando entrou, encontrou Isabela sentada no sofá, ereta, os olhos vermelhos, mas o rosto firme. Não era a menina que ele costumava ver chorando e se entregando ao consolo dele. Era outra versão. Mais dura. Mais distante. — Eu sinto muito — ele começou, a voz quebrada. — Eu juro que não lembro de quase nada. Eu nunca faria isso sóbrio. Isabela levantou a mão. — Não importa se você estava bêbado. Ele engoliu em seco. — Eu não enviei o vídeo. — Mas você mostrou — ela respondeu, num tom controlado que doía mais do que grito. — Você deixou que vissem. Você abriu a porta. Lucas passou a mão pelo rosto, os olhos marejados. — Me perdoa. Eu te amo. Isabela pegou o celular e abriu uma foto. Virou a tela na direção dele. — E isso? Era ele. Rindo. Dançando com outras meninas. — Não aconteceu nada — ele se apressou. — Eu só dancei. Ela respirou fundo. — Engraçado. Porque eu não podia nem respirar perto de outro homem sem você surtar. Eu não podia conversar. Não podia rir. Não podia existir. E você podia beber, dançar, se exibir… e ainda expor o que era nosso. As palavras saíam com calma, mas cada uma carregava uma lâmina. — Eu confiei em você — Isabela continuou. — Eu escolhi você. E você me transformou em uma piada. — Eu vou consertar — ele disse, quase de joelhos. — Eu faço qualquer coisa. Isabela levantou-se. — Não tem conserto, Lucas. Ele sentiu o chão sumir. — Não diz isso. — Eu sei quem eu sou — ela disse, os olhos finalmente enchendo de lágrimas outra vez. — Eu sou mais do que o que você mostrou. Mais do que o que espalharam. Mas eu não consigo continuar com alguém que me traiu desse jeito. — Eu não sou essa pessoa — ele insistiu. — Mas foi você quem fez. O silêncio que se seguiu foi pesado, definitivo. — Eu não quero te ver nunca mais — Isabela concluiu. — Não liga. Não aparece. Não tenta. Lucas chorava abertamente agora. Um choro feio, desesperado, tardio. — Por favor… Ela abriu a porta. — Vai embora. Ele saiu sentindo-se a pior pessoa do mundo. Porque, pela primeira vez, não havia desculpa que aliviasse o peso do que tinha feito. Isabela fechou a porta e encostou as costas nela. As pernas cederam. O choro veio forte, rasgando o peito, mas junto com ele havia algo novo. Uma dor imensa… e uma certeza. Ela tinha perdido muita coisa. Mas não tinha perdido a si mesma. E isso ninguém nunca mais tiraria dela.
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