Isabela Duarte sempre soube quem era.
Não porque alguém dizia, nem porque precisava provar alguma coisa, mas porque, desde cedo, aprendeu a se reconhecer no silêncio. Na disciplina. No esforço. No caderno organizado, nas provas devolvidas com notas altas, nos elogios discretos de professores que viam nela algo além do óbvio.
Naquela sala cheia de vozes, cochichos e olhares atravessados, Isabela era mais do que a menina bonita que chamava atenção. Era a aluna que sentava na frente. Que fazia perguntas difíceis. Que não tinha medo de levantar a mão quando ninguém mais levantava. Que estudava até tarde não por obrigação, mas porque carregava um sonho que não cabia em comentários vazios.
Ela ouvia, sim. Sempre ouvia.
As meninas comentando.
Os meninos inventando histórias.
Os risos abafados quando Isabela passava pelo corredor.
Mas nada disso a definia.
Isabela sabia da verdade dela. Sabia do amor que sentia pelo Lucas. Sabia que escolhera estar com ele. Sabia que o corpo dela era entregue por vontade, por desejo, por entrega — nunca por obrigação. Mas também sabia que não estava ali apenas por ele. Estava ali por ela mesma. Pela mãe. Pela promessa silenciosa que fez quando decidiu que iria se formar, custasse o que custasse.
Era isso que a mantinha de pé.
E talvez fosse exatamente isso que começava a incomodar o Lucas.
Ele percebia os olhares. Sempre percebeu. Os comentários atravessavam seus ouvidos como farpas, e mesmo quando ninguém dizia nada, ele sentia. A forma como alguns meninos a observavam. O jeito como professores elogiavam Isabela. Como ela falava com segurança, com inteligência, como se não tivesse medo de ocupar espaço.
Aquilo o deixava orgulhoso… e, ao mesmo tempo, profundamente inseguro.
— Você viu como aquele cara ficou te olhando hoje? — ele comentou, já pela terceira vez naquela semana.
Isabela suspirou, fechando o caderno.
— Lucas, eu estava olhando para a lousa.
— Não é isso. — Ele passou a mão no cabelo, inquieto. — Você chama atenção demais.
Isabela levantou os olhos devagar.
— E isso é um problema?
Ele não respondeu de imediato. E esse silêncio disse mais do que qualquer palavra.
— Parece que você gosta — ele continuou. — Gosta que fiquem te olhando.
Aquilo doeu.
— Não confunde as coisas — Isabela disse, firme. — Eu não faço nada para provocar ninguém. Eu venho pra estudar.
— Mas você sabe como os caras são.
— Eu sei quem eu sou — ela respondeu, num tom baixo, controlado. — E isso deveria bastar.
A conversa começou a esquentar. Não era a primeira vez, mas daquela vez havia algo diferente. Um limite sendo tocado. Um cansaço acumulado.
— Às vezes parece que você esquece que namora — ele disparou.
Isabela se levantou de uma vez.
— E às vezes parece que você esquece que eu não sou sua posse.
O impacto daquelas palavras foi imediato.
— Eu nunca disse isso.
— Não precisa dizer — Isabela respondeu. — Você mostra. No jeito que fala. No jeito que me controla. No jeito que transforma tudo em desconfiança.
Lucas se sentiu ferido no orgulho. Não gostava de ser confrontado. Muito menos por Isabela, que sempre foi compreensiva, paciente, amorosa.
— Então talvez seja melhor você ir pra sua casa hoje — ele disse, seco. — Esfriar a cabeça.
Isabela ficou parada por alguns segundos, tentando entender se tinha ouvido direito.
— Você tá me mandando embora?
— É melhor assim.
Ela pegou a bolsa, sentindo o nó subir na garganta.
— Tudo bem.
Saiu sem olhar para trás.
O caminho até casa pareceu mais longo do que nunca. As lágrimas vieram silenciosas, sem soluço, sem cena. Era uma dor quieta. A dor de perceber que o amor, quando atravessado pelo ciúme, começa a perder o cuidado.
Enquanto isso, Lucas tentava abafar o incômodo chamando os amigos. Precisava se distrair. Precisava beber. Precisava provar — para eles e para si mesmo — que estava no controle.
A mesa se encheu rápido. Garrafas, copos, risadas altas. Lucas não tinha o costume de beber tanto, mas naquela noite não se importou. Cada gole parecia empurrar para longe a conversa que não queria enfrentar.
— Cara, você é muito sortudo — um dos amigos comentou. — A Isabela é linda e ainda é a mais inteligente da sala.
— É — outro completou. — Difícil achar uma assim.
Lucas riu, já um pouco alterado.
— Eu sei.
— Sério, ela é diferente.
— A Isabela é minha — ele disse, com um sorriso torto. — Sempre foi.
Os amigos trocaram olhares.
— Vocês já… sabe… — um deles fez um gesto no ar.
Lucas inclinou o corpo pra frente, confiante demais.
— É claro.
— Tá zoando.
— Não tô.
— Você é muito na sua, cara. Duvido.
Ele sentiu a provocação como um desafio.
— Querem prova?
Sem esperar resposta, puxou o celular. Os dedos estavam lentos, imprecisos, mas a intenção era clara. Abriu o vídeo. Um vídeo íntimo. Algo que deveria ter ficado entre ele e Isabela. Algo que nasceu da confiança dela.
— c*****o… — alguém murmurou.
— Você é o cara mesmo — outro riu.
Lucas se sentiu poderoso por um segundo. Importante. Dono de algo que nunca deveria ter sido exibido.
Depois, as meninas chegaram. Música mais alta. Convite pra dançar. Lucas largou o celular em cima da mesa, levantou, foi atrás da distração, sem notar quem ficava para trás.
Entre risadas, um garoto que não era do grupo fixo observou a tela ainda acesa. Olhou ao redor. Pegou o aparelho. Com alguns toques rápidos, transferiu o vídeo para o próprio celular.
Sem alarde.
Sem culpa.
Sem imaginar o estrago.
O celular voltou para a mesa.
E, naquele instante, a vida de Isabela Duarte começou a ruir.