A luz da manhã ainda era um fantasma pálido no horizonte quando o despertador rompeu o silêncio do meu quarto. No visor do relógio, os números digitais brilhavam com uma insistência fria. Levantei-me com a mente já fervilhando; a antecipação de uma nova jornada costuma agir em mim como uma dose potente de cafeína pura.
Aproximei-me do espelho e encarei o reflexo que Sarah ajudara a construir. O vestido azul-marinho, de corte impecável e tecido que abraçava sutilmente as curvas antes de cair com fluidez, conferia-me um ar de autoridade serena. Sarah tinha um olho clínico para a moda; ela sabia que, para uma jornalista, a imagem é o primeiro parágrafo de uma entrevista. Se você quer que as pessoas confiem os seus segredos a você, precisa parecer alguém que sabe exatamente o que fazer com eles.
Caminhei na ponta dos pés pelo corredor até o quarto da minha irmã. O ambiente cheirava a lavanda e à inocência de quem ainda não conhece os monstros que espreitam nas sombras do leste europeu. Sarah odiava acordar cedo — para ela, o mundo só começava a fazer sentido após o meio-dia, então a minha intenção era apenas uma despedida silenciosa.
Aproximei-me da cama e depositei um beijo suave em sua testa. Ela mexeu-se, um suspiro sonolento escapando de seus lábios entreabertos.
— Irmã... — ela sussurrou, a voz grogue e arrastada pelo sono profundo. Ela bocejou, os olhos tentando, sem sucesso, focar em mim.
—Pode dormir, pequena. Estou a ir agora — murmurei, passando a mão pelos seus cabelos rebeldes, sentindo aquele aperto no peito que a p******o fraternal sempre traz. —Deixarei a chave do carro com você. Use-o com juízo.
—Tenha cuidado... qualquer coisa, ligue-me — ela balançou a cabeça devagar, o rosto voltando a afundar no travesseiro. Antes que eu pudesse cruzar a porta, sua voz veio como um fio quase inaudível: —Megan, vai tranquila. Eu te amo.
Um sorriso involuntário iluminou o meu rosto, aquecendo-me contra a frieza daquela madrugada.
—Também te amo, Sarah.
Fechei a porta e o som do "click" pareceu o ponto final da minha vida cotidiana. A partir dali, eu não era apenas uma irmã preocupada; eu era a repórter em busca da Notícia. Arrastei as minhas malas pelo assoalho de madeira, o som das rodinhas ecoando pela casa vazia. Dei uma última olhada para trás, um último registro mental da segurança do meu lar, antes de trancar a porta e encarar o ar gelado da rua.
O Uber já estava a caminho, enquanto esperava, o brilho da tela do meu celular iluminava o meu rosto. Liguei para Bonnie; conhecendo a minha assistente, ela estaria a ter crises existenciais entre escolher qual sapato levar e se deveria carregar um terço extra na bagagem.
—Bonnie? Bom dia — falei assim que ela atendeu, tentando injetar uma energia vibrante na ligação. —O voo está marcado para as nove. Já estou no carro e vou passar aí para te buscar. Deixarei o carro com a Sarah, então vamos de carona até o aeroporto.
—Oi, Megan... — a voz dela soava como se estivesse em meio a um campo de batalha doméstico. —Beleza, estou terminando de fechar a última mala... ou tentando. Já saio para o portão.
Encerrei a ligação e foquei nas mensagens do Sr. Jackson. Ele era um homem de detalhes. As coordenadas da nossa hospedagem na Transilvânia, os dados da conta para o reembolso das passagens e os contatos locais no vilarejo estavam todos lá.
Era um itinerário profissional, mas, entre as linhas burocráticas, eu sentia o peso do desconhecido.
O motorista chegou em poucos minutos. Era um homem silencioso, o que agradeci imensamente; eu precisava de silêncio para organizar meus pensamentos. Ele colocou minhas malas no porta-malas com uma eficiência mecânica. Informei a parada intermediária no aplicativo e nos pusemos a caminho sob o céu que começava a tingir-se de tons de pêssego e cinza.
Quando dobramos a esquina da casa de Bonnie, eu a vi. Ela estava cercada por malas como se estivesse se mudando definitivamente, e não apenas partindo para uma reportagem de algumas semanas. Pedi ao motorista para buzinar, e ela saltou, literalmente, atravessando o portão com uma pressa cômica.
Saí do carro para ajudá-la.
—Bonnie, você vai levar a casa inteira? — perguntei, rindo, enquanto tentávamos acomodar o excesso de bagagem.
—Megan, você não entende. Lá faz frio, e o frio atrai coisas... e eu preciso estar preparada para correr ou para congelar — ela resmungou, empurrando uma mala média para o banco de trás, já que o porta-malas estava em sua capacidade máxima.
Entrei no banco da frente para dar espaço a ela atrás. O motorista deu partida, iniciando o trecho final em direção ao aeroporto.
Pelo retrovisor, observei Bonnie. Ela batucava os dedos nervosamente no joelho, olhando pela janela as paisagens familiares da nossa cidade ficando para trás.
—Você está bem? — perguntei, baixando o volume do rádio que tocava uma melodia suave de jazz.
—Estou tentando decidir se sou uma ótima amiga ou uma completa i****a — ela respondeu, com um meio sorriso que não escondia a ansiedade e continua. —Transilvânia, Megan. O lugar dos contos de terror. O que nós vamos encontrar lá de verdade?
—Vamos encontrar a verdade, Bonnie. Seja ela qual for — respondi com uma confiança que, na verdade, eu tentava cultivar dentro de mim mesma.
—Pense nos camponeses, nas histórias. Há algo naquele vilarejo que as pessoas têm medo de nomear, e nós seremos as primeiras a dar um nome a isso.
—Ou as últimas — ela murmurou, mas logo se recompôs —Mas admito, o seu olhar de "caçadora" me convence. Só prometa que, se virmos um castelo com morcegos circulando, nós daremos meia-volta imediatamente.
Eu ri, balançando a cabeça.
—Prometo que manteremos a segurança em primeiro lugar, mas Bonnie... imagine o furo. Imagine a fotografia que você pode tirar se aquilo que viram for real.
Ela pareceu ponderar, e por um momento a fotógrafa brilhante que habitava nela superou a mulher supersticiosa. Ela assentiu, respirando fundo enquanto o aeroporto surgia no horizonte, com as suas torres de controle e aviões rasgando o céu como flechas metálicas.