Capítulo 1

2210 Words
— Angela, seu pai está lhe chamando no escritório.- A doce voz de Nora ecoou por meu quarto tirando minha atenção do romance que eu estava lendo. — Já vou, Nora. - Respondi sorridente, fechando o livro e me sentando á beira da cama para calçar meus sapatos.- Ele está bravo? Será que fiz algo? Ela não me respondeu, para minha surpresa, então eu a olhei e encontrei seu olhar preocupado e logo meu sorriso se fechou. — Ele está pertubado, Angela, não sei dizer o que aconteceu mas não acho que seja uma boa noticia o que ele tem a dizer. Eu respirei fundo, tentando manter controle do meu nervosismo, passei a ficar boa nisso depois que observava meu pai em suas reuniões com senadores. Apesar disso não pude deixar de me sentir tensa, Nora nunca mencionou pertubação em meu pai desde que me lembro. Nora me deu um sorriso simpático e eu lhe devolvi, agradecendo-lhe pelo aviso. Segui meu caminho pelo corredor até chegar no andar de baixo, seguindo até o escritório de papai. A porta estava entre aberta mas mesmo assim dei duas leves batidas para chamar sua atenção. Tentei recebê-lo com um sorriso mas assim que ele levantou o rosto para me cumprimentar eu percebi seus olhos vermelhos e pouco inchados de chorar. Aquilo me preocupou. — Pai, aconteceu algo grave? - Perguntei me aproximando de sua mesa sem nem esperar por sua autorização. Ele abriu os braços me chamando para um abraço e eu não hesitei nem por um momento, logo terminei a distancia até sua cadeira e me enterrei em seus braços.- Pai? Chamei impacientemente, preocupada, nervosa. Nunca tinha visto papai nesse estado. Nunca. Mas ele não me olhou, apenas continuou me abraçando fortemente, molhando minhas roupas com suas lágrimas. Ele tinha bebido, podia sentir o cheiro de álcool á três metros dele mas isso era rotina para mim, não via papai sóbrio muito tempo então isso não me acalmou muito. — Pai, você está me assustando. - Acariciei seus cabelos ralos e ele então afrouxou seu aperto ao meu redor, fungou uma, duas, três vezes de cabeça baixa enquanto eu estava em pé ao seu lado, esperando pacientemente ele se recuperar para poder me dizer o que lhe pertubava.- O que houve? — Me perdoa, Angel. - Ele então olhou em meus olhos, tão vermelhos de chorar por horas. Eu juntei as sobrancelhas confusa com sua desculpas repentinas. — Por que está se desculpando? - Perguntei sentindo meu peito pulsar um pouco mais rápido. Nada me vinha á mente, o que tinha acontecido? Ele perdeu alguma coisa? Alguém morreu? Meus irmãos? - Algum de meus irmãos falec... — Deus, Angel, não. - Ele me interrompeu, tornando a minha cabeça numa nuvem de confusão. Pulei de susto quando a porta do escritório bateu com brutalidade contra a parede, atraindo meus olhos assustados. A figura de Antonio logo preencheu meu campo de visão, tranquilizando, por pouco tempo, meu coração. O que ele fazia ali? Antonio é meu irmão mais velho, e o primeiro que foi embora após se casar, quase nunca o via — a verdade é que eu o via apenas uma vez no ano ou quando uma tragédia acontecia, e bem, hoje não era uma data comemorativa — então logo meu coração se encheu de preocupação. Os olhos de papai se arregalaram assim que viu meu irmão ali na porta, papai também não o esperava e isso me deixou um pouco mais preocupada. Ele não estava ali por que pai o chamou aqui. — Antonio. - Eu falei sem muito ânimo, os olhos de meu irmão estavam vermelhos mas não como os de meu pai por chorar muito, Antonio estava com ira transbordando de seu corpo, aquilo me fez estremer inteiramente. Tomei outro susto quando meu irmão se aproximou em passos rápidos e duros de meu pai, me ignorando completamente. Segurou em seu colarinho e o pressionou contra a parede. Meu coração logo começou a bater ainda mais forte e eu me afastei em passos rápidos de onde estava para não ser atingida por aquilo. — Por que fez isso com ela, pai. - Antonio falava baixo ainda sim com tanto ódio que eu ma.l reconhecia meu irmão. Normalmente eu diria que essa era uma cena incomum, por que meu pai sempre teve autoridade dentro de casa. Embora meus irmãos fossem rebeldes e não o ouvissem, ainda sim o respeitavam mas naquele momento não, papai era culpado de alguma coisa e não estava disposto á discutir. Antonio tinha razão. Mas sobre o quê? — Não é como está pensando, Antonio. - Meu pai respondeu, os olhos se enchendo de água novamente e eu comecei a tremer diante aquilo. Nunca presenciei uma briga entre eles, na verdade nunca presenciei briga nenhuma de verdade.- Eu não tive escolhas. — Sempre temos escolhas, pai! - Antonio socou a parede ao lado do rosto de papai me fazendo arregar os olhos, surpresa com tal ato. Meu irmão falava mais alto do que ele geralmente falava.- Você condenou Angela. Eu estava completamente confusa, só queria entender o que estava acontecendo. — Solta ele Antonio. - Meus olhos voaram para a figura de Afonso, meu irmão do meio, entrando pela porta. Agora as coisas estavam ficando cada vez mais tensas. Á quantos anos eu não via nenhum deles juntos? Antonio olhou por cima de ombro o irmão mais novo que ele e bufou, soltando papai que nem tinha mais seus pés no chão. — Você ainda vai defendê-lo, Afonso?- Antonio parecia incrédulo. Os olhos do meu irmão do meio logo voaram até mim e logo meus olhos começaram a arder. As lágrimas confusas querendo escapar de meus olhos e eu nem sabia bem o por quê, só sabia que tinha haver comigo. — Angela não precisa assistir isso. - E para minha total surpresa Adriano apareceu também, o irmão mais novo dentre os homens. Seu olhar cético me encarando friamente, encostado no batente da porta com os braços cruzados. Afonso e Adriano também não me visitavam com frequência, apenas em meus aniversários e as vezes nem assim. Ainda sim, todos sempre foram protetores comigo, mesmo que eu nunca tenha saído muito de casa. Os olhos de Antonio voaram para mim também e eu o olhei, ainda sentindo meu peito explodir. — Alguém pode me explicar o que está acontecendo aqui? - Falei baixo mas o silêncio na sala colocava minha voz num pedestal cem vezes maior que eu. Havía anos desde que eu vi os quatros juntos num único lugar, desde que eles alcançaram a maior idade, me deixaram aqui sozinha com papai e nunca mais voltaram. — Angela, precisamos falar com papai, poderia subir? - Afonso pediu, a voz doce e calma, tentando amaciar a situação como se eu fosse um bebê. — Não, Afonso. - Neguei sentindo meus olhos arderem. - O assunto é sobre mim e eu tenho todo direito de saber. — Angela.. - Antonio tentou mais uma vez e eu olhei para ele, beirando o ódio. — Eu não sou mais uma criança, Antonio. Então pare de me tratar como uma. Os três olharam para mim e eu não sabia bem o que se passava na mente deles. Cada um era tão diferente um do outro. Antonio sempre foi o mais bravo e ciumento dentre os três, qualquer coisa o tirava do sério, Afonso sempre foi o mais calmo e responsável já Adriano sempre foi o mais rebelde, sempre me apoiando em qualquer coisa que eu decidisse fazer, embora soubesse que nunca conseguiria. Logo todos nós olhamos para nosso pai que ainda estava encostado na parede, congelado, os pensamentos tão longe que me cortava o coração vê-lo assim. — Pai. - Chamei sua atenção tentando lhe passar conforto através do olhar mas ele não me encarou por muito tempo, passou a olhar o chão e chorar de novo.- O que aconteceu? — Não vai ter coragem nem de dizer você mesmo para ela, velho? - Adriano perguntou friamente sem mover um músculo sequer da porta. — Deus! Vocês estão me dando nos nervos, me contem logo, por favor! - Pedi impacientemente. — Você vai se casar, Angela. Assim que aquelas palavras saíram da boca de meu pai eu congelei. O quê? Pisquei algumas vezes tentando ver se eu não estava delirando, se eu não estava sonhando em meu quarto depois de ler alguma coisa de terror mas não, eu estava realmente ali, em pé, no escritório do meu pai. — Eu vou.. o quê? — Se casar, Angela. - Antonio fez questão de repetir, céticamente, friamente. Eu estava imóvel, não conseguia reagir, não conseguia falar, nem mesmo conseguia deixar a lágrima que meus olhos criara cair. Uma confusão de sentimentos se misturaram dentro de mim, formando um caos. — Com quem. - Foi a única coisa que eu consegui colocar para fora. Meu pai me olhou, suas sobrancelhas caídas, seus olhos tristes, seu semblante arrependido. Agora eu entendia por que ele nem sequer conseguia olhar para mim. Meus irmãos também o olharam, ansiosos pela resposta de meu pai. Só eu eu sabia que eles já estava ciente disso, já estavam ciente de quem seria meu futuro marido, se não, por que outro motivo eles estariam ali? — Você se casará com Dante Cavalliere. - Um emaranhado de confusão se apossou de mim. Aquele nome era estranho, nunca tinha ouvido falar dele. Mas meus irmãos sim, sem sombras de dúvidas. Antonio quase avançou em meu pai de novo, se não fosse os outros dois segurando seus braços dele para não deixá-lo fazer isso. — Eu vou matar você! Eu juro que vou matar você! - Antonio gritava e avançava em direção á meu pai como um leão, mas aquele quem me criou não moveu um músculo, apenas ficou parado olhando para o filho.- Me soltem! Deixa eu matar esse filho de uma pu.ta! Desgraçado! Papai estava arrepedindo mas a única coisa que me rondava era o por quê eu teria que seguir a diante com isso. — Eu não posso recusar? - Eu falei tentando chamar a atenção deles para mim, se por algum vacilo meus irmãos soltassem Antonio ele mataria papai sem dúvida alguma. A angustia estava entalada na minha garganta e eu estava paralisada, tentado digerir aquilo com calma. Papai apenas negou balançando a cabeça negativamente e eu suspirei rapidamente. — Tudo bem. - Foi a única coisa que eu disse e isso chamou a atenção de Antonio no mesmo instante. Ele estava eufórico, estava louco! — Tudo bem?! Angela papai vendeu você! Ele vendeu você pra pagar a p***a de uma dívida com apostas! Aquilo realmente me pegou se surpresa e o sentimento de tristeza que se apossou de mim no momento seguinte foi o suficiente para que eu transbordasse. As lágrimas começaram a cair uma seguida da outra ainda que eu não tirasse a máscara fria que aprendi a usar. — Antonio, você não precisa agir assim com ela. - Adriano como sempre sereno, me olhando nos olhos. — Ela não pode aceitar isso, Adriano. Ela não pode. - Meu irmão mais velho estava ainda mais inconformado que meu pai, ele estava desesperado. Era a primeira vez que ele demonstrava se importar tanto assim comigo. - Pense no quanto a mamãe estaria decepcionada agora. A tensão se instalou entre nós. Mamãe era um assunto sagrado jamais mencionado entre nós. Mesmo que eu não á tivesse conhecido sabia que meus irmão sofreram demais com sua morte e que nenhum deles gostava de falar dela, lembrar dela. Por isso eles me deixaram aqui, por que eu era sua cópia. — Não ouse falar dela. - Pela primeira vez notei Afonso tenso, nervoso.- Você não tem esse direito. Os dois se entreolharam e algo dentro dos dois explodia mas eu não sabia dizer o que era. Minhas lágrimas não paravam de cair. Eu estava decepcionada com papai, e ele nem sequer conseguia me olhar, nem intervir na briga de seus filhos. — Não vou deixar Angela casar-se, prefiro que papai morra.- Aquele comentário de Antonio trouxe um sentimento r**m á meu coração. — A decisão não é sua, Antonio.- Eu murmurei incrédula, passando as costas da mão no rosto para enxurgar as lágrimas. - Se eu tenho que me casar com ele para salvar papai de qualquer coisa que seja, eu farei. Os olhos de papai pousaram sobre mim, surpreso. — Angela. — Não! - Interrompi. - Estou cansada de vê-los tomarem decisões sobre a minha vida, vocês não se importam comigo, vocês me deixaram aqui sozinha, nunca vem me ver, saber se estou bem, se estou viva, nunca! - Eu sentia meu peito ardendo de tristeza. Ela me rasgava ao meio. - Então voltem para a vida de mer.da que vocês tem e esqueçam que eu existo, assim como fizeram a vida inteira. Eu tomo minhas próprias decisões agora. Olhei nos olhos de cada um, inclusive de meu pai, decidida. Papai podia ter feito a pior coisa que um pai faz com uma filha, ainda sim ele nunca me abandonou e nunca me culpou pela morte de nossa mãe. Eu faria o que fosse necessário para mantê-lo vivo, nem que isso significasse me casar com um homem que eu nunca vi na vida.
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