A minha vida mudou completamente de cabeça para baixo do dia para noite, ou pior, de uma hora para outra. Num momento eu estava no meu quarto lendo incontáveis romances água com açucar e em outro eu estava noiva de alguém.
Essa noticia me abalou de uma maneira tão grande que eu não sabia explicar. Eu nunca nem mesmo tinha conversado com algum rapaz antes, além de meu pai e meus irmãos, nunca nem mesmo fiquei na frente de um e agora eu estava noiva de um homem que nunca vi.
Eu não sabia nada sobre ele...
Ele era velho ou novo? Alto ou baixo? Magro ou gordo? Era gentil ou arrogante? As perguntas não paravam de acumular em minha cabeça enquanto eu olhava meu reflexo pálido no espelho, eu nem mesmo conseguia chorar, aquilo ero chocante, apavorante, parecia mais um pesadelo. Será que eu tinha morrido, ou estava em coma? Era improvável que meu pai que me criou com tanto amor e carinho, que nunca me deixou sair com finalidade de me proteger, com medo de alguém tocar em mim, de me machucar, simplesmente me dizer que eu iria casar com um homem desconhecido.
A ficha ainda não tinha caído. Mesmo após alguns dias, eu estava presa nos pensamentos, incapaz de conseguir derramar uma lágrima por tamanho choque.
Mas isso foi a única ocasião capaz de unir meus três irmãos de novo depois de tantos anos, depois de eu me perguntar por tanto tempo por que eles não se importavam comigo. Era até cômico, nem o enterro da mamãe foi capaz de juntá-los mas meu casamento conseguiu.
E isso era o que mais me preocupava.
Eles o conheciam. Eles sabiam quem era Dante Cavalliere, e para ter tamanha preocupação com certeza esse homem não era bom. A voz de Antonio em minha mente falando que papai devia para ele, que era dívida de aposta, mas aposta de quê? Cassino? Mas papai não podia frequentar Cassinos, ele é senador, o que as pessoas iriam pensar dele? Então logo descartei essa possibilidade, deixando-a na mesa por que eu poderia estar errada.
Afinal, nunca achei que meu pai tiraria sua proteção exagerada de cima de mim e cá estava eu, pronta para conhecer meu noivo. Suspirei mais uma vez, tinha perdido as contas de quantas vezes fiz isso olhando a minha imagem no espelho.
Papai pediu que eu não vestisse nada revelador demais, como se alguma peça do meu guarda-roupas fosse reveladora. Eu não comprava nenhuma delas, não escolhia tamanho e nem cor, uma alfaite vinha até aqui e media meu corpo, fazendo peças exclusivas para mim com os gostos de meu pai. Eu não entendia o por quê ele era tão protetor comigo, as vezes eu sentia raiva dele por me prender tanto assim por vinte anos mas outras eu conseguia entender e a raiva sumia.
Quando eu o via sentado na frente da lareira, encarando a foto da minha mãe com um copo de uísque na mão, depois de um dia cheio de trabalho, eu o compreendia. E era por isso que eu nem pestanejei quando ele anunciou seus planos. Nunca poderia trazer sua amada esposa de volta mas faria de tudo para mantê-lo vivo, por que ele me criou com todo amor do mundo apesar de tudo.
Ouvi duas leves batidas na porta e em seguida a mesma se abriu, revelando a imagem do meu irmão Adriano. Eles ainda estavam aqui, por algum motivo eles ficaram, todos eles, para me acompanhar no encontro com Dante. Eu achava aquilo desnecessário e até desconfortável mas não podia impedi-los de ficar aqui.
— Você está linda. - Ele murmurou assim que fechou a porta atrás de si e se encostou na parede. Eu apenas sorri, olhando sua imagem através do reflexo do espelho. Ele usava uma camisa branca e um colete cinza por cima, uma calça da mesma cor. Todos eles se vestiam bem, meu pai os obrigou durante o tempo que viviam aqui e desde então não perderam o costume.
— Acha que está exagerado? Será que ele vai gostar? - Mordi os lábios pensando sobre isso e Adriano fechou o pequeno sorriso que tinha no rosto.
— Você está perfeita, Angela. Se ele não gostar, ele é cego. - Me senti um pouco mais aliviada com seu elogio, embora eu soubesse que por ele ser meu irmão não devia levar á sério. Ele falaria qualquer coisa para me ver bem. - Está mesmo bem com isso?
— Com o encontro?
— Com o casamento.
O silêncio se instalou entre nós por um momento e eu suspirei, de novo, me sentindo cansada.
— Eu não tenho outra escolha. - Murmurei aceitando esse fardo.
— Claro que tem. Você não tem nada haver com a dívida dele, dinheiro nenhum no mundo pode pagar por sua vida, Angela. - Eu senti meu coração aquecer por um momento por sua frase e um sorriso nasceu em meu rosto. Me levantei da penteadeira e o encarei de frente. Seus olhos tristes.
— Não há nada no mundo que eu não faça por papai, Adriano.
Ele engoliu em seco, o olhar perdido em meu rosto. Seus olhos brilharam fortemente com angustia transbordando.
— Isso é injusto. - Ele sussurrou. Sabia que olhando para mim ele se lembrava de mamãe. Todo mundo aqui me dizia o quanto eu me parecia com ela mas eu não conseguia ver as semelhanças, talvez por que eu não tivesse á conhecido.
Eu me aproximei dele, e comecei a arrumar sua gravata torta. Ele nunca soubera dar um nó e isso era o seu charme.
— Eu não sou mais uma criança, Dri. - Murmurei baixinho. Ele estava tenso enquanto eu arrumava sua gravata e sorria docemente.- Apesar de não conhecer o mundo lá fora eu não sou mais uma garota inocente que não sabe tomar suas próprias decisões.
— Você não tomou essa decisão baseada no que quer.
— E desde quando isso importa, eu vivi vinte anos presa dentro dessa cobertura. O que pode ser pior que isso? - O olhei nos olhos terminando meu trabalho em sua gravata, deixando minha mão reposar em seu peito.
— Ah Angela, como você é inocente. - Ele sorriu amargurado, passando a mão por meu rosto. E eu tentei entender o por que ele estava agindo assim. Adriano sempre foi o irmão mais próximo de mim, apesar de que proximidade fosse diferente nos nossos termos. É claro que eu imaginava que todos eles se importavam comigo mas se eles tivesse se importado um pouco mais, eu não estaria aqui.
Outra batida na porta me tirou dos pensamentos, e eu olhei uma última vez para Adriano tentando confortá-lo, abri a porta e dei de cara com Afonso. Que olhou para o irmão mais novo e para mim.
— Está pronta? - Perguntou sério e eu apenas assenti. Na verdade eu não sabia se isso era verdade, quem está pronto para conhecer seu noivo? Normalmente as pessoas conheciam uma pessoa e se apaixonavam por ela, depois conheciam-se num relacionamento e após isso elas casavam-se. Como as coisas nunca foram normais para mim, eu estava entrando num casamento escuro e cheio de mistérios.
Ouvi Adriano suspirar assim que saimos do meu quarto mas foi a única coisa que preencheu meu ouvido naquele instante. Depois disso apenas os nossos passos sincronizados no chão de mármore branca. Chegamos ao lobby rapidamente e eu sentia meu peito explodindo de emoção, de excitação, mas não de uma boa maneira, eu estava ansiosa, estava curiosa.
Meus olhos caíram sobre Antonio que estava em pé no canto, segurando um copo de uisque, seu terno todo amarrotado, o cabelo bagunçado e o semblante sério, qualquer um podia ver o quanto ele não estava contente com aquilo, que á qualquer segundo ele podia surtar. Quando seus olhos se encontraram com os meus seus olhos escureceram ainda mais, ele era o único que não tinha aceitado minha decisão, que estava indignado com isso, e que jurava nosso pai de mor.te á cada segundo que conseguia.
Papai estava me esperando no final da escada, com um sorriso pequeno no rosto, ainda angustiado, podia ver o quanto ele estava afetado com essa situação, e que se tivesse escolha poderia mudar aquilo.
— Está linda, filha. - Papai me elogiou assim que me aproximei e eu tentei sorrir para ele. Antonio bufou no canto da sala e revirou os olhos.- Dante está subindo.
Meu coração logo acelerou e meu sorriso vacilou no rosto mas consegui me recuperar antes que desistisse da ideia e fugisse correndo para meu quarto.
— O que ele veio fazer aqui, afinal. - Adriano perguntou chamando a atenção de papai, que me guiava até o sofá.
— Veio conhecer Angela. - Respondeu seco.- E espero que não estraguem tudo.
— Se não o quê? Não vai conseguir pagar sua dívida? - Antonio não estava nem um pouco feliz, e eu estava ficando triste por sua atitude.
— Não estou preocupada com dívida nenhuma, Antonio, estou tentando fazer o que é melhor para Angela. Você não conhece Dante. - Meu irmão bufou de novo, virando o resto de sua bebida de uma vez só.
— Continue mentindo para si mesmo, talvez consiga dormir á noite sabendo que entregou sua filha nas mãos de um lobo. - Observei a figura dele se afastando, acho que ele não queria ficar para ver, e eu estava feliz que ele tinha tomado essa decisão.
— Tomem conta dele, por favor. - Olhei para meus irmãos parados no meio da escada ao fazer esse pedido, eu também não os queria ali. Eles tinham muito mais controle que Antonio mas eu não podia arriscar, qualquer deslize e tudo podia ir água abaixo.
Os dois apenas suspiraram e sairam, relutantes mas sairam. Olhei para o rosto de papai, que estava preocupado e apenas lhe lancei um sorriso acolhedor. Por mais que eu estivesse tremendo de medo, e nervosa, não queria que ele se sentisse ainda mais culpado, isso me machucava profundamente.
A campainha tocou e ambos olhamos para a porta escura de madeira que separava nós, dele.
Respirei fundo mais uma vez e me pus de pé, para cumprimentá-lo com educação. Sentia minhas pernas tremendo, e ma.l conseguia me manter de pé. Papai andou até a porta e a abriu, sem hesitação.
— Dante. - Ele cumprimentou e eu senti o quanto meu peito subia e descia rapido demais. A respiração estava desregulada.
— Dario. - A voz aveludada dele arrepiou meu corpo inteiro, eu não sabia se isso era o medo que meus irmãos tinham instalado em mim, ou se era apenas uma reação normal para uma presa pronta para o abate.
Papai logo deu espaço para seu convidado entrar e meu coração quase saiu pela boca quando vi a figura entrar.
Dante era alto, muito alto. Ele era forte, tinha ombros largos e os músculos eram evidentes em seu paletó preto de três peças. O cabelo preto penteado para trás, o rosto perfeitamente desenhado, a mandíbula dura, travada, os olhos azuis claros como um céu sem núvens.
Mas o que me fez cambalear para trás um passo foi o olhar intenso que ele tinha, ele exalava poder, exalava liderança, ameaça. Seus olhos caíram em mim tão firmemente que eu senti que naquele momento eu estava condenada.
Eu sabia que a beleza estonteante que ele tinha por fora apenas mascarava a escuridão que morava dentro dele.
O olhar frio que ele me lançava fazia um calafrio percorrer todo o meu corpo, eu não sabia o que ele estava pensando enquanto me olhava, seus olhos corriam por toda minha extensão e ainda sim nenhuma emoção era esboçada em seu rosto, nada, apenas um rosto duro, sem emoção, ilegível.
Eu sabia lídar com as personalidades ruins de meus irmãos, cada um deles tinha uma maneira dificil de passar por uma situação e eu sempre sabia o que eles sentiam.
Mas naquele momento, enquanto eu olhava os olhos de Dante, não percebia nada. Era com se ele não sentisse qualquer emoção, como se não existisse emoção dentro dele e isso era pertubador.
Minha mente gritava para que eu fugisse dali, que eu fosse para o mais longe possível, que eu corresse sem olhar para trás mas eu não conseguia me mexer, estava vidrada em seus olhos.
Eu não podia dar para trás, não agora, era tarde. Os olhos preocupados de meu pai ao notar a troca de olhares entre meu noivo e eu me pôs de volta no chão, e eu coloquei um sorriso no rosto, um sorriso doce e gentil.
Se era preciso uma oferenda para salvar meu pai, eu me entregaria á fera.