Capítulo 5

2179 Words
O carro de Dante era luxuoso, não esperei menos. Ele parece o tipo de homem que gostava de exibir a quantidade de dinheiro que ganhava mas ele também parecia um rapaz de bem, coisa que eu sabia que ele não era, então eu parei de me preocupar com o que as pessoas parecem ser por que isso não estava adiantando. Eu arriscava olhá-lo algumas vezes durante nosso longo caminho mas ele estava olhando seu celular atentamente, digitando alguma coisa, sério, inexpressivo. Isso estava me deixando ainda mais nervosa, a forma que ele não se comunicava comigo. Ele parecia não se importar com minha presença e nem parecia fazer questão de me deixar a vontade. Seria assim o casamento? Ele me deixaria de canto e eu serviria apenas como um plano para ele ter meu pai? Eu não conseguia parar de pensar nisso. — Há algo que precisa dizer, Angela? - Me assustei com sua voz me chamando a atenção depois de novamente ter dado uma espiadinha em seu rosto. Olhei em sua direção, dessa vez com permissão, mas ele não tinha movido um músculo do rosto, apenas tinha falado. Ou era imaginação minha? — Não. - Murmurei baixo, tentando controlar minha respiração. — Então por que está me olhando toda hora? - Ele foi descarado o suficiente para jogar isso na cara de uma dama. Eu abri a boca algumas vezes, incrédula, sem saber o que dizer, mas apenas suspirei e virei meu rosto para a janela e ignorei seu comentário. - Se tem algo te incomodando basta dizer. — Por que acha que tem algo me incomodando? - Perguntei com desdém. Tinha, era claro que tinha. Eu estava trancada num carro com um possível futuro líder da máfia, e logo menos eu estaria me casando com ele, isso me torna cumplice de todas as coisas ruins que ele fez e vai fazer. Meu coração se apertou com esse pensamento. — Seu pai disse o que eu faço, não é? - Eu gelei na mesma hora, e o tremilique que eu estava sentindo parou. Mordi os lábios fortes para repreender meus sentimentos e logo virei o rosto para olhá-lo, só que dessa vez ele estava me olhando de volta. Intensamente. Eu perdi o fôlego por alguns instantes enquanto encarava seus olhos frios, eu nunca tive o desprazer de lidar com uma pessoa que não gosta de expressar o que sente. Na verdade as pessoas que eu conheciam sempre deixavam claro suas intenções e sentimentos relacionadas á mim. Até mesmo aquelas que me odiavam - Seja lá por qual motivo. — Disse. - Eu sussurrei? Não sabia mais dizer. O olhar que ele me dava me deixava desconfortável por que não saber o que ele estava pensando era torturante. Sempre fui muito insegura em relação á tudo sobre mim, Dante deixava isso ainda mais pertubador. — E é isso que te incomoda? - A voz aveludada dele me arrepiou mas eu me controlei. — Não. - Menti. Ou não. Por que o fato dele ser uma pessoa r**m, sim, me deixava incomodada. Pensar nas famílias que ele destruiu e nas pessoas que ele mandou para a cova, partia meu coração frágil. Mas o que me deixava ainda mais inquieta era o fato dele agir como age. Ele me analisou por mais um tempo olhando cada pedacinho do meu rosto, fazendo meu coração querer sair pela boca de tão nervoso. E então ele começou a se aproximar e naquele momento eu senti que iria ter um infarto. O que ele estava fazendo? Permaneci com os olhos abertos por que eu imaginava o que ele queria. Só não imaginava que ele faria isso comigo ali, daquela forma. Os segundos pareceram horas á cada vez que ele aproximava seu rosto do meu e minha respiração passou a ficar descontrolada, eu estava nervosa. Deveria recuar? E se eu recuar e ele achar isso uma ofensa? O que eu deveria fazer? Quando senti seu rosto á centímetros do meu e o seu perfume me invadir inteiramente, eu peguei fogo. Por que naquela proximidade tudo que eu pensava a respeito dele desapareceu e eu só conseguia pensar se seria bom terminar a nossa distância. Seu braço passou do meu lado e eu não consegui mais recuar mas diferente do que eu esperei, ele disse: — Chegamos. - Murmurou com o mesmo tom e os mesmos olhos frios. Logo ouvi a porta se abrir atrás de mim e percebi que a sua proximidade era apenas para abrir a porta do carro, que tinha parado e eu nem sequer notei. Vislumbrei humor em seus olhos por um milésimo de segundo antes que ele se afastasse. Ele estava se divertindo com a minha falta de jeito? Por que ele fazia uma coisa assim comigo? Quando ele se afastou, abriu a porta do seu lado e saiu, eu soltei a respiração que nem sabia que estava segurando, sentindo meu peito explodir com aquela sensação que corria meu corpo. O que era aquilo? Ainda desnorteada eu percebi que Dante estava parado do lado da minha porta e estendeu a mão para me ajudar a descer. Eu fiquei encarando a sua palma e seu rosto frio por poucos segundos antes de me recuperar e aceitar a sua ajuda. As minhas coxas formigavam assim que fiquei em pé ao seu lado. Forcei meus olhos á correrem o lugar do qual estávamos e esquecer o que houve á poucos segundos. Praia. Uma enorme mansão tomou conta do meu campo de visão e eu sabia que deveria ser dele, ou pelo menos da família dele. — Onde estamos? - Perguntei tentando não parecer afetada pelo momento que ele me fez ter de confusão. — As praias de Virginia. - Ele respondeu, assim que fechou a porta do carro e parou ao meu lado. Eu apenas continuei olhando ao redor, era divino. Já havia ido em uma praia uma vez, pedi á meu pai para conhecer e ele fechou uma praia inteira só para que eu pudesse ver o mar. Não foi a melhor experiência que eu tive por que eu queria fazer amigos, mas não era o que meu pai tinha para mim. — Vai ter muita gente? - Perguntei sentindo minha garganta fechando. Eu não precisava falar muita coisa por que sabia que se usasse as palavras certas ele sempre iria entender. — Poucas. - Murmurou baixo, tentando parecer cauteloso mas isso não me deixou menos nervosa. — Eles aceitam esse casamento? - Essa pergunta veio de repente em minha cabeça mas não consegui deixá-la apenas ali, acabou escapando de meus lábios. Dante não respondeu, apenas respirou fundo. Então eu me forcei á olhá-lo para saber uma resposta e como sempre ele não me olhava de volta, apenas encarava a mansão que estáva á nossa frente pensativo, perdido em meio ao caos que sua mente parecia ter. — Vamos. - Colocou a palma de sua mão no fim das minhas costas e começou a andar, me forçando á segui-lo. Assim que senti seu toque me corpo voltou a acender, e meu peito explodir. Eu tinha certeza que ele notou o quanto eu estava tremendo mas por algum motivo ele apenas ignorou e eu agradeci. Não queria dar explicações. Mas eu não tremia apenas por que ele estava me tocando, não. Eu estava tremendo por que estava entrando numa mansão desconhecida, com um homem desconhecido, cheia de pessoas desconhecidas, e perigosas. Cheia de pessoas que colaboram com a máfia, que fazem parte dela. E de acordo com a não resposta de Dante esse casamento que ele estava me forçando á ter, era algo contra o que eles queriam. Eu não entendia muito como funcionava, na verdade nunca procurei saber e como meu pai fez questão de esconder isso por tanto tempo e só me contou minutos antes de eu me encontrar com Dante, eu estava no escuro. Não pude nem mesmo pesquisar sobre. Mas eu duvidava muito que fosse encontrar isso em alguma página na internet ou algum livro. Não é como se o mundo deles fosse algo permitido por lei e aceito pela sociedade, não era uma história boa, não era romance, era a vida real. E agora ela fazia parte da minha. Dante me guiou pela entrada da mansão até chegarmos numa área com pessoas conversando alegremente, não eram muitas, diria que tinha pelo menos umas dez pessoas. Isso se meus olhos nervosos tiverem contado bem, eu estava ansiosa, nervosa, tremendo. Sabia que Dante sentia através de seu toque já que ele acariciava as minhas costas devagar e delicadamente, quase inconsciente. Assim que paramos na porta a conversa cessou e o silêncio parecia mortal. Nenhum barulho, nada, apenas olhares famintos em nossa direção. E olhando boa parte deles não diria que estavam satisfeito com o que estavam vendo. Eu baixei o olhar na mesma hora, não estava conseguindo manter a postura. Eles emanavam ameaça. — Não faça isso. - Dante murmurou baixo mas o suficiente para eu ouvir devido nossa proximidade. - Ergua a cabeça e olhe eles nos olhos. Eu fiz o que ele disse, mas ao invés de olhá-los, eu olhei para ele. Dante não me olhava de volta, o que não era surpresa para mim, ele tinha aquele rosto sério encarando seus familiares que lhe devoravam feito leões famintos na selva. Eu engoli em seco mas fiz o que ele pediu. Voltei a olhar cada um dos rostos ali presentes, eles me olhavam de volta, me analisando friamente, uma completa desconhecida em seu ninho. Tentei não transparecer meu nervosismo e respirei fundo. Dante começou a andar e me guiar pela sala - O chão de madeira escura e perfeitamente encerada, as paredes brancas e os movéis neutros, ainda sim tudo parecia tão luxuoso que tirava o fôlego. Os olhares não cessaram mas as conversas começaram, só que pareciam cochichar por todos os lados. Nos aproximos de um casal e logo que paramos em sua frente eles forçaram um sorriso. — Filho. - O homem murmurou assim que nos aproximamos e então eu passei a notar as semelhanças que eles tinham, inclusive a mulher. Eram seus pais. — Pai, mãe. - Ele respondeu, cordialmente. - Essa é Angela. Os olhos dos dois vieram para mim e eu estremeci inteira quando eles me analisaram de cima abaixo. — Angela. - O meu nome em sua boca parecia escorrer como veneno. - De que família, querida? A pergunta foi direcionada a mim e eu engoli em seco. — Tommaso.- Respondi firmemente. Eles piscaram atordoados e voltaram a olhar para Dante, uma conversa silenciosa foi travada entre olhares. — Angela e eu nos casaremos em breve.- Dante dizia isso de forma tão fria e sem emoção que já não era mais surpresa. — Podemos conversar, Dante? - O pai dele lhe disse suavemente mas eu sabia que essa calmaria toda era apenas educação. — No momento não, tenho que apresentar minha noiva, afinal, é meu jantar de noivado. - Dante parecia realmente incomodado mas observando seu rosto nada podia ser visto. Ele não perdia o controle, diferente de seus pais que demonstraram desgosto no mesmo momento que aquelas palavras sairam de sua boca. Dante não esperou por resposta, apenas me arrastou pela sala delicadamente até próximo á um garçom que segurava uma bandeija com bebidas. Retirou sua mão de minhas costas, pegou um copo de champgne e me ofereceu. — Você bebe? - Perguntou como se o que acabora de acontecer não o afetasse de jeito nenhum. Eu apenas assenti. Não tinha bebido um gole de álcool em toda a minha vida mas algo me dizia que eu precisaria começar a tomar para passar por tudo isso. Dei um gole pequeno e senti o amargo em minha boca, ao mesmo tempo ácido, tentei evitar fazer uma careta mas era uma missão impossível. Dante estava me observando. — Eles realmente não aprovam isso. - Afirmei, tentando puxar assunto. — Eles não tinham ideia de quem eu escolhi para casar. — Mas por quê eles não gostam de mim? - Eu queria saber o motivo, saber se eu podia concertar a situação. Já teria que viver com completos desconhecidos, se a convivência fosse ficar insuportável não sei se aguentaria. — Por que nós não nos casamos com mulheres de fora do nosso mundo. E essa noticia me pegou de surpresa. Dante me encarava sério, analisando minhas expressões e isso me tirava do sério. Como ele podia pensar que isso não era algo importante de se dizer antes de me trazer aqui? Fazia todo sentido o silêncio matad0r que a sala adquiriu quando eu entrei, não haveria maneiras de concertar isso, só se eu nascesse de novo e tivesse o azar de nascer dentro desse lugar, o que eu de fato não desejo. Eu fiquei olhando em seus olhos por pouco tempo esperando encontrar algo além daquela muralha que ele fazia questão de usar mas não havia nada. Suspirei sentindo meu peito pulsando rapidamente e forte. Não só meu pai me atirou no ninho das cobras, como Dante fez questão de me deixar próximo á boca delas.
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