Desde a visita de Dante, á algumas semanas, eu não conseguia me concentrar em mais nada. Fiquei pensando apenas em seus olhos intensos e em seu cheiro bom, mesmo que meu subconsciente me alertasse que isso era errado, que eu não devia ficar assim tão impressioada com ele.
Mas eu não conseguia evitar.
Toda vez que eu olhava para o colar de diamantes que ele me deu, simples e delicado, eu sentia meu coração acelerar. Lembrava de sua voz aveludada e rouca, e a sua beleza surreal. Tudo bem que isso podia se dar ao fato de que eu nunca tivesse reparado em outros rapazes antes, não é como se eu tivesse algo para compará-lo mas eu não era cega.
Ainda sim eu me reprimi pois ele deixou claro que seu interesse em mim não passava de uma forma dele alcançar outro patamar em sua vida. Papai é senador mas é candidato á governador e ao que tudo indica ele irá ganhar por que é humilde com seus apoiadores, ele era bom, no fundo ele era.
Eu me apeguei á essa crença por que acreditar que papai era tudo o oposto do que eu imagiava, me derrubaria. O que me mantém forte é a mentira que conto á mim mesma sobre ele, para continuar o amando independente de suas ações.
Durante esse tempo ele passou a me evitar, fica até tarde no trabalho, ou as vezes nem vem para casa. Eu já estava acostumada com isso, não é como se depois que fiz dezoito anos ele me tratasse como uma criança. Após a maior idade ele passou a não ter a mesma atenção de antes, continuava a me proibir de seguir meus sonhos mas ainda sim, não era mais o mesmo.
É claro que não me importei, na época. Mas naquele momento, naquela situação em específica, eu o queria por perto. Em poucos dias eu estaria me casando com Dante e não moraria mais em sua cobertura, partiria para outro lugar e eu não queria que nossa relação ficasse assim no limbo.
Mas a única companhia que eu tinha no fim das contas era dos meus romances.
Meus irmãos foram embora depois que notaram que nada me faria mudar de ideia, a única forma disso acontecer é se Dante garantisse que nada aconteceria com meu pai mas isso estava longe de acontecer. Eu sabia seus planos. Eu fiquei triste ao vê-los partir, queria que eles ficassem, me apoiassem, não era uma decisão fácil e eu precisava da companhia deles.
A minha cabeça estava confusa, cheia de sentimentos novos que eu não estava acostumada a sentir. Por um segundo eu desejei tanto que minha mãe estivesse aqui, talvez as coisas teriam sido diferentes, talvez ela tivesse conversado comigo sobre como é um casamento, o que acontece entre um homem e uma mulher, sobre o que eu deveria fazer e me acalmar nessa situação. Mas por decisões do destino, ela não estava.
E tudo que eu sabia era o que tinha em livros. E eu sabia que isso não chegava nem perto da realidade.
Dante não parecia um príncipe encantado. Se eu fosse compará-lo á um personagem de livro, diria que sem sombras de dúvidas ele seria o vilão.
O vilão com passado triste, sombrio, e beleza de tirar o fôlego.
— Você está linda. - Nora disse entrando em meu quarto me tirando dos pensamentos, e eu sorri docemente. Vestia um longo vestido vermelho escuro, as mangas caídas pelo ombro, 3/4. O decote em coração caia perfeitamente com o colar de Dante. O vestido com uma f***a na perna, revelando-a até acima do joelho. Meu cabelo estava arrumado num coque largo, alguns fios de cabelo em meu rosto para fazer charme. Um batom vermelho e um rímel. - Ainda não acredito que vai se casar.
Eu respirei fundo.
— Nem eu.
Ela me olhou com compaixão, ou pena. Nora era o mais próximo de amiga que eu tinha, era mais velha, tinha idade para ser minha mãe. Compartilhava com elas algumas poucas coisas que aconteciam em minha vida. Os empregados eram as únicas pessoas que eu costumava conversar.
Eu estava pronta pra sair com Dante. Uma festa de noivado com sua família e amigos. Eu me surpreendi quando ele disse para mim sobre isso na semana passada, não esperava que fossemos ter uma, e desde seu aviso eu estava tensa, não havia um dia que eu não pensasse nisso. A falta de comunicação com as pessoas de fora me deixava nervosa, eu tinha a mania de falar demais, falar coisas desnecessárias quando estava sob pressão. Estava com medo de acabar estragando tudo.
— Não se preocupe com nada, Angela. Você não vai estragar nada. - Nora me conhecia bem, sabia que eu estava egoniando com meus medos enquanto me encarava no espelho.
— Ele parece tão sério, tão reservado, e se a família dele for assim também?
— Ele escolheu casar com você, obrigou você.. - Ela pausou um momento, talvez se perguntando se devia continuar falando aquilo. Ela não estava errada, não era como se eu tivesse escolhas. - Você é a menina mais gentil que eu conheci em toda minha vida, Angela, se eles não gostarem de você, quem perderá são eles.
Eu lhe enviei um sorriso gentil, grata por suas palavras. Ela sabia mesmo me confortar. Abracei ela apertado, sentindo meu peito congelar. Eu nunca estive tão nervosa.
— Vou sentir saudades. - Murmurei em seu abraço e ela apenas assentiu. Duas leves batidas na minha porta chamaram minha atenção, e papai entrou, o semblante distante. - Pai.
Nora olhou em sua direção e depois para mim, me desejou boa sorte e saiu. Ela não gostava de expressar seus sentimentos por mim perto de papai, tinha medo que isso fosse deixá-lo bravo e demiti-la, mesmo que eu tivesse falado várias vezes que ele não era capaz disso.
Mas recentemente eu duvidei disso. Será que ele não era?
— Você está maravilhosa, Angela. - Seu tom distante, seus olhos marejados, me cortavam o coração. Ele estava perdido em pensamentos enquanto me olhava.- Não vou poder acompanhar você, não consigo.
— Tudo bem. - Falei tentando tranquilizá-lo. O importante era que ele estava ali, estava comigo por um momento desde que as coisas mudaram.- Eu vou ficar bem. Ele não parece tão r**m.
É óbvio que eu não sabia disso. Eu não conseguia saber nada sobre ele, se me dissessem que ele não tem um coração, que não consegue expressar seus sentimentos, eu nunca duvidaria por que era exatamente essa impressão que ele passava.
A expressão de papai mudou, ele ficou ainda mais tenso.
— Ele não é o que você pensa. - Murmurou, hesitante. Ele queria me falar alguma coisa mas estava sem coragem.
— Então me diga, você o conhece. - Incentivei. Eu precisava saber um pouco mais sobre ele. Me aproximei de papai e segurei em suas mãos fortemente, ele estava olhando para o chão.- Diga, pai.
— Ele é um criminoso, filha. - Meu coração gelou, e um frio percorreu meu corpo assim que aquelas palavras saíram de sua boca.- Dante Cavalliere é filho do chefe da máfia de Nova Iorque. Ele será o sucessor, não tenho dúvidas.
Eu já tinha pensado em muitas teorias sobre Dante, pensei que ele podia ser filho de um amigo de meu pai, ou inimigo já que ele o odiava tanto, mas em nenhum momento passou por minha cabeça que ele era envolvido com uma organização criminosa.
— E como se envolveu com ele? - Eu tentei parecer calma mas eu estava á beira de um colapso. Eu queria entender como ele, meu pai, passou de um homem controlado e controlador, para aquilo.
— Cassino. - Confirmou minhas teorias. Eu tinha descartado essa possíbilidade mas sabia que podia estar errada. Meu pai parecia envergonhado, e naquele momento eu estava incrédula. Acabei soltando sua mão por puro impulso. Saber que ele me entregou para um homem perigoso era ainda mais revoltante que apenas o casamento. Papai procurou meus olhos mas eu me afastei dele.- Angela...
— Me deixa sozinha. - Pedi, encarando o chão. Não queria lhe olhar nos olhos. Ele não insistiu, sabia que tinha me magoado ainda mais naquele momento. Um milhão de sentimentos passou dentro do meu peito e meus olhos começaram a arder, as lágrimas brotando. Eu não permiti que elas caíssem, eu as segurei.
Eram lágrimas de raiva.
Eu não podia estragar minha maquiagem, não podia aparecer na festa com os olhos vermelhos e inchados de chorar. Por mais que essa fosse minha vontade, naquele momento eu sentia meu estômago revirando inteiro, queria colocar tudo que comi para fora por que me sentia ainda mais traída.
Eu sabia que não podia esperar muito de Dante, não pensava nele como um principe encantado me resgatando da torre mas também não esperava que ele fosse ser o vilão da história. Agora tudo fazia sentido para mim, o motivo pelo qual ele se casava comigo, o seu plano de ter meu pai nas mãos. É claro que ele estava protegendo a si mesmo.
Sequei as lágrimas com as mãos e me encarei no espelho. Eu sou forte, eu vou passar por isso. Mesmo que ele não mereça, eu vou passar por isso.
Peguei o resto de dignidade que eu ainda tenho e desci as escadas, estava na hora de ir. Ma.l tinha chegado na beira da escada e a campainha tocou. Meu pai que já estava ali foi atender, ele sabia quem era. Logo que a porta abriu eu prendi o fôlego.
A imagem de Dante me fazia esquecer por um momento toda aquela bagunça, Deus, ele é lindo.
Seus olhos frios logo se encontraram com os meus e meu estômago voltou a revirar. Como podia um homem tão bonito como Dante ser de uma organização criminosa? Isso explicava a aura que ele tem, ameaçadora, intensa.
Me peguei pensando por um momento em quantos crimes ele cometeu, em quantas vidas ele já tinha tirado, e a angustia voltou novamente. Será que era por isso que meu pai tinha tanto medo? Por que ele achava que iria morrer por isso? Ou ainda pior, que todos nós iríamos morrer por isso?
Engoli minha tristeza, forçadamente, e terminei de descer o restante dos degrais, me aproximando da porta. Eu nunca deixaria nada acontecer com papai e meus irmãos, se essa era a única maneira de evitar isso, eu faria.
— Você não vai acompanhá-la, Dario? - Foi a primeira pergunta que ele fez, notando que meu pai não estava arrumado para a ocasião.
Diferente dele que vestia um paletó de três peças cinza escuro perfeitamente passado. Era incrível como era justo, destacando cada músculo de seu corpo. O charme que o colete lhe trazia, era algo de outro mundo, eu não sabia explicar. Papai nunca tinha usado um, e nem meus irmãos, não sabia que deixava um homem tão atraente.
— Não, Dante. - Papai respondeu, e se afastou poucos centimetros da porta para que eu pudesse me aproximar.
Engoli em seco quando Dante olhou para mim de novo, dessa vez seus olhos percorreram todo o meu corpo, demorando um pouco mais em minha perna exposta. Um calafrio percorreu minha espinha, sentia vontade de me cobrir, mas era tarde demais.
— Você está espetácular, Angela. - Dante elogiou e eu senti minhas bochechas corarem. Por que ele tinha esse efeito sobre mim? Por que eu estava com medo e ainda me sentia terrívelmente atraída por ele?
— Você também. - Murmurei baixinho, tentando ser educada. Não era mentira, no fim das contas. Ele estava muito bonito. Olhei para meu pai e por mais que eu ainda estivesse magoada lhe lancei um sorriso.
Segurei a porta e esperei que ele se afastasse para poder fechá-la atrás de mim e Dante e eu ficarmos sozinhos no corredor.
Ele fez um gesto com a cabeça incentivando que eu fosse na frente e eu respirei fundo antes de ir.
— Está nervosa? - perguntou ele atrás de mim.
—Sim. - Admiti, ele devia estar percebendo que eu estava tremendo, com medo. Não é como se ele não causasse isso em seus inimigos.
— Não sou uma ameaça. - Eu duvidava muito disso.
— Ainda sim, me obriga a casar com você. - Lancei, arisca. Sabia que não devia falar uma coisa dessas. Por sorte ele não conseguia ver meu rosto, eu estava aterrorizada, não devia testá-lo, o que ele poderia fazer comigo?
Entramos no elevador, eu fiquei na frente e ele atrás, novamente. A sensação era que ele estava me engolindo com os olhos, meu corpo inteiro queimava.
— Sinto muito. - Disse de repente. Eu não sabia o por quê exatamente ele pedia desculpas. Por me forçar á casar com ele? Ou por que ele era uma pessoa horrível? Eu não me atrevi a falar nada, apenas fiquei escutando minha respiração pesada, sentindo meu peito explodindo.
Seu cheiro era ainda mais enlouquecedor ali dentro do elevador, e eu não sabia qual sentimento era mais forte em mim. O medo ou a atração.