O Despertar do Invisível

1383 Words
Olivia estava confusa. Uma escuridão envolvia tudo ao seu redor, mas havia algo diferente sobre essa escuridão. Uma sensação de leveza a envolvia, como se estivesse flutuando, presa entre dois mundos. Ela não sentia dor, mas sua mente girava em busca de respostas. O que aconteceu? Por que tudo parecia tão nebuloso? Enquanto tentava entender, imagens começaram a surgir em sua mente. Lembrou-se do olhar frio de Edmundo, a traição estalando como um estilhaço em seu coração. Depois, as risadas de Érica, o desprezo e a arrogância que ela sempre demonstrara. O calor da raiva e da dor inundava suas memórias, mas não havia mais um corpo físico para sentir. Então, um desespero tomou conta dela. Ela não estava mais viva. A realização foi como um choque elétrico, e Olivia tentou gritar, mas nenhum som saiu. Uma onda de pânico a envolveu enquanto ela tentava compreender sua nova realidade. Estava morta. E a última lembrança que teve foi a de Edmundo, a fúria em seus olhos quando a empurrou da escada. "Eu vou me vingar," pensou ela, embora soubesse que a vingança agora parecia uma ideia distante. Ela queria fazer justiça, mas não tinha corpo para agir, não tinha voz para contar a verdade. Enquanto se perdia em seus pensamentos, um novo cenário se desenrolou à sua frente. Olivia percebeu que estava em sua casa, mas não como antes. O ambiente parecia mais nebuloso, quase etéreo. Edmundo estava ali, sentado no sofá, sua expressão atormentada. Os paramédicos ainda estavam na casa, tentando resgata-la da escuridão, fazendo processos de reanimação sem sucesso. Para Olivia, tudo parecia um pesadelo. Edmundo parecia estar contando sua história, dramatizando a cena do acidente com detalhes que apenas ele poderia inventar. — "Ela caiu da escada, — dizia, a voz embargada, enquanto os paramédicos o escutavam com expressões de pesar. — Eu não consegui chegar a tempo. Olivia queria gritar, queria sacudir Edmundo, mas tudo que fazia era vagar em um estado de perplexidade. Ele estava ali, se fazendo de vítima, e ela não podia fazer nada para interromper essa farsa. O tempo parecia passar lentamente. Cada lágrima que Edmundo derramava era como uma facada em seu espírito. Como ele poderia fazer isso? Como poderia usar sua morte para se beneficiar? O ódio crescia dentro dela, mas havia uma fraqueza que a mantinha presa a essa realidade insuportável. Os paramédicos finalmente desistiram, e a casa ficou silenciosa. Edmundo estava sozinho, e Olivia o observava, sentindo-se cada vez mais invisível. Em sua mente, ele era um homem sem escrúpulos, um traidor que nunca mereceu seu amor. Depois de algum tempo, a casa se esvaziou, e a última lembrança dela na casa foi a de Edmundo saindo, batendo a porta atrás de si. Olivia ficou ali, confusa, tentando processar o que acontecera. Então, as imagens mudaram novamente. Ela foi transportada para o que parecia ser um cemitério. O céu estava cinzento, e um grupo de pessoas se reunia ao redor de uma sepultura. As palavras de conforto eram murmuradas, mas Olivia não conseguia identificar os rostos. As vozes soavam distantes, como se estivessem falando de uma realidade que não a incluía mais. "Isso não pode estar acontecendo, pensou Olivia, enquanto observava seu próprio funeral. A cena se desenrolava lentamente, e uma sensação de desamparo a envolvia. As pessoas que deveriam se preocupar com ela agora estavam apenas lamentando sua morte, sem saber a verdade sobre o que realmente aconteceu. Ela viu Érica entre os presentes, junto a sua mãe, Claúdia. A expressão de falsa tristeza em seu rosto deixava Olivia com raiva. Cada lágrima que escorria parecia um veneno em vez de um sinal de amor. "Como puderam me trair assim?", Olivia se perguntava. "Como puderam fingir que se importavam?" A imagem de Edmundo também estava lá, e ela percebeu que ele se comportava como o marido devastado, cercado de amigos que o apoiavam. Ele se deleitava em sua nova liberdade, sem perceber que havia algo muito mais sombrio em suas ações. Seu pai também lá estava, parecia ter envelhecido tanto de um dia para o outro, devido à tristeza causada pela sua morte. Era Ana que o amaparava, ambos choravam por Olivia. Ana, a sua querida amiga e confidente de sempre. No meio da cena, alguém chamou sua atenção. Era Fausto. Ele estava ali, em pé, afastado do grupo, mas a dor em seus olhos era palpável. Olivia sempre o desprezara, o via como um rival e um intruso. No entanto, ao observá-lo naquele momento, ela começou a notar algo que nunca havia percebido antes. As vozes ao redor começaram a desaparecer, enquanto o foco dela se concentrava em Fausto. Ele esperou tudo terminar e todos irem embora antes de se aproximar da sepultura. Fausto olhava com uma expressão que mesclava tristeza e desespero. O olhar dele a penetrava, e Olivia sentiu uma conexão inexplicável, como se ele pudesse ver sua verdadeira essência. O que era isso? Como ela nunca percebeu a intensidade de seus sentimentos? — Olivia, — ele murmurou, a voz carregada de emoção. — Eu sempre estive aqui, mesmo que você não tenha notado. As palavras dele a tocaram de uma forma profunda. O que Fausto queria dizer? Por que estava se importando agora que ela estava morta? Olivia se lembrou das vezes em que o desprezara por causa de Edmundo, mas agora, tudo parecia confuso. O desprezo se transformava em uma reflexão sobre como ela realmente o via. Fausto continuou, sua voz tremendo. — Sinto muito por tudo isso. Você não merecia o que aconteceu. Sempre admirei sua força, mesmo quando não percebia. Olivia ficou paralisada. O que ele estava dizendo? Por que essas palavras soavam tão sinceras? Era como se, de repente, tudo que ela pensou sobre ele estivesse se desmoronando. Ele não era apenas um rival, mas alguém que realmente se importava. — Se eu tivesse tido coragem para me aproximar de você antes... talvez as coisas fossem diferentes. Essas palavras ecoaram na mente de Olivia. "Diferentes." O que isso significava? Ele estava se declarando, lamentando a perda dela, e, de repente, todas as suas memórias passadas com Edmundo pareciam tão distantes. Ela sentiu uma onda de confusão e dor. Ele era um homem que a compreendia de uma forma que Edmundo nunca fez. Por que nunca percebeu isso antes? Por que desprezou alguém que poderia ter sido uma fonte de apoio genuíno? — Fausto, — ela tentou chamar, mas nenhuma palavra saiu. Ele não poderia ouvi-la, e essa verdade a esmagou. O que ela queria dizer? Quais sentimentos não expressos ela carregava? O que teria mudado se tivesse dado uma chance a Fausto? Fausto deu mais alguns passos para longe, e Olivia desejou poder tocá-lo, fazer com que ele soubesse que ainda estava ali, que ainda o ouvia, mesmo que invisível. A conexão que sentia era forte, quase como um laço emocional, e cada movimento dele a fazia querer se aproximar, mas estava presa em sua própria dor. — Você não está sozinha, — ele disse em um sussurro, como se pudesse sentir sua presença. — Sempre estarei aqui, de alguma forma. Então, ele se virou e caminhou para longe, desaparecendo entre as árvores do cemitério. Olivia ficou lá, paralisada, com o coração pesado, confusa sobre seus sentimentos. O que significava isso tudo? Como ela poderia ter sido tão cega? Olivia sentiu uma solidão esmagadora, mas, ao mesmo tempo, uma nova perspetiva a envolveu. Algo dentro dela estava mudando, e mesmo que estivesse morta, não estava perdida A realidade de sua morte ainda a paralisava, mas as palavras de Fausto ecoavam em sua mente. Ela não poderia mudar o que aconteceu, mas poderia, talvez, encontrar uma forma de se manifestar. A vingança poderia não ser o único caminho. Talvez a redenção fosse uma opção, e talvez, no futuro, ela pudesse fazer algo a respeito. Olivia permaneceu lá, na sua sepultura, em um limbo entre a vida e a morte, sentindo a transformação em seu espírito. A raiva ainda existia, mas agora havia também uma centelha de esperança, uma vontade de descobrir o que isso significava, de explorar o que estava além da traição e da dor que a cercava. Seria tarde demais? Estava tão arrependida por ter confiado cegamente no homem que pensava ser o amor da sua vida.
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