Capítulo 24
Marcos (Terror) narrando
Joguei Maju sobre a cama e fiquei alguns segundos olhando para aquela garota completamente fora de si.
Ela m*l conseguia manter os olhos abertos.
Ajoelhei para tirar os tênis dela, porque daquele jeito ela provavelmente dormiria até com eles.
Assim que terminei, ela abriu os olhos lentamente e me encarou com uma expressão perdida.
— Os duendes falaram que esconderam um pote de ouro no final do arco-íris.
Fiquei olhando para ela.
— O quê?
Ela sorriu.
— Mas o arco-íris é rosa.
Passei a mão pelo rosto.
— Maju, cala a boca e dorme.
Ela começou a rir.
— Eles estão me oferecendo chocolate.
Olhou para um canto vazio do quarto.
— Fala para eles irem embora porque eu quero dormir.
— Quem está oferecendo chocolate?
Ela apontou para frente.
— Aquele ali.
— Aquele quem?
— Ele é rosa.
Fechei os olhos por alguns segundos.
— Meu Deus do céu...
Ela voltou a rir.
— Você está bravo.
— Estou.
— Por quê?
— Porque você não para de falar.
Ela ficou alguns segundos em silêncio.
Então colocou a mão na própria cabeça.
— Eu estou passando m*l.
Sentei na beirada da cama.
— O que você está sentindo?
Maju se ajoelhou no colchão e se aproximou de mim.
Antes que eu entendesse o que ela estava fazendo, passou a mão pelo meu rosto.
Segurei seus pulsos.
— O que você pensa que está fazendo?
Ela sorriu.
— Quero te beijar.
Aproximei o rosto apenas o suficiente para afastá-la.
— Vai dormir.
Soltei suas mãos.
Ela caiu sentada na cama e começou a olhar para a janela.
— Terror...
— O quê?
— Tem alguma coisa ali.
Olhei para a janela.
Não havia nada.
— Não tem p***a nenhuma.
Ela arregalou os olhos.
— Tem sim!
Levantou de repente.
— O pintinho amarelo voltou.
Começou a andar pelo quarto atrás de alguma coisa que só existia na cabeça dela.
— Pega ele!
Respirei fundo.
— Maju, volta para a cama.
— Ele vai fugir!
— Volta para a cama.
Ela começou a rir novamente.
— Você não está vendo?
— Não.
— Ele é bonito.
— Vai dormir.
Consegui colocá-la novamente sobre o colchão.
Peguei o rádio.
— Sorriso.
— Fala, chefe.
— Descobre quem era aquele homem que tentou agarrar a Maju.
Minha voz saiu carregada de raiva.
— E desce a porrada no lelê.
— Pode deixar.
Desliguei o rádio e o joguei sobre a mesa.
Maju continuava gargalhando.
De repente, parou.
O sorriso desapareceu.
Ela ficou sentada olhando para o nada.
— Terror...
— O quê?
— Eu estou passando m*l.
Levantei imediatamente.
— Respira.
Não deu tempo.
Ela se inclinou para frente e vomitou.
Uma parte atingiu minha roupa.
Fiquei parado por alguns segundos, completamente incrédulo.
— Sua filha da puta...
Ela caiu novamente sobre o colchão.
Os olhos se fecharam.
— Maju?
Nada.
Balancei seu ombro.
Ela apenas resmungou.
Percebi que estava apaganda.
Respirei fundo e resolvi cuidar da situação antes que aquilo piorasse.
Levei-a até o banheiro e deixei que tomasse um banho, ficando por perto para garantir que não caísse.
Ela estava tão zonza que m*l conseguia ficar de pé.
Depois de algum tempo, consegui colocá-la de volta no quarto.
Vesti nela uma camiseta larga e deixei um copo de água ao lado da cama.
Ela já estava praticamente dormindo.
Fiquei olhando para ela por alguns segundos.
Aquilo não combinava com a Maju que eu conhecia.
Ela não tinha estrutura nenhuma para aquele tipo de coisa.
E, pelo estado em que estava, provavelmente tinha sido a primeira vez.
Puxei o cobertor sobre ela.
— Dorme.
Saí do quarto e fechei a porta.
Antes de ir embora, tranquei.
Não porque achasse que ela fosse fugir.
Mas porque, daquele jeito, era capaz de levantar e se machucar.
Desci para a boca.
Quando cheguei, encontrei Sorriso sentado mexendo no celular.
— Cadê o PH?
— Deve estar atrás da Cecília.
— E a Maju?
— Dormiu.
Ele começou a rir.
— A bebida bateu bonito?
Acendi um baseado.
— Ela estava vendo coisa que nem existe.
— Sério?
— Duendes, pintinhos segundo a gente, bicho rosa...
Sorriso soltou uma gargalhada.
— Então foi forte mesmo.
— Acho que foi a primeira vez que ela passou por isso.
Meu olhar ficou sério.
— E justamente por isso quero saber onde está o lelê.
Sorriso assentiu.
— Estamos procurando.
Fiquei alguns segundos em silêncio.
Depois lembrei do homem que tinha se aproximado dela.
— E o cara?
— Que cara?
— O homem que estava com ela no baile.
Sorriso deu de ombros.
— Tentamos encontrar depois que você mandou parar tudo, mas ele sumiu no meio da confusão.
— Puxa as câmeras.
Ele me encarou.
— Acha que ele estava atrás dela?
— Não sei.
Soltei a fumaça lentamente.
— Mas ele apareceu do nada, foi direto nela e desapareceu assim que começou a confusão.
Sorriso ficou pensativo.
— Pode ter sido só um cara querendo ficar com uma mulher bonita.
— Pode.
Olhei para a entrada da boca.
— Mas ultimamente está acontecendo coisa demais ao mesmo tempo.
O pai da Maju desapareceu.
Andrade assumiu o comando da delegacia.
Agora aparece um desconhecido no baile e vai direto nela.
Não gosto de coincidências.
Sorriso ficou sério.
— Você acha que a mãe dela falou alguma coisa?
— Não sei.
Passei a mão na barba.
— Mas se alguém estiver tentando chegar até mim usando a Maju...
Deixei a frase morrer.
Não precisava terminar.
Sorriso já tinha entendido.
Acendi outro baseado e fiquei olhando para o movimento da boca.
A imagem do pai dela passou pela minha cabeça.
Aquele homem nunca foi tão simples quanto Maju acreditava.
Ele escondia coisa demais.
Segredos demais.
E eu tinha a sensação de que, cedo ou tarde, tudo aquilo voltaria para cobrar a conta.
Principalmente dela.