Capítulo 25
Maria Júlia (Maju) narrando
A primeira coisa que senti quando abri os olhos foi uma dor de cabeça absurda.
Parecia que alguém tinha passado a noite inteira batendo dentro do meu crânio com um martelo, e bastou tentar me mexer para perceber que meu corpo inteiro estava pesado.
Fiquei alguns segundos olhando para o teto, tentando entender onde estava.
Então reconheci o quarto.
Era o mesmo onde eu tinha me arrumado antes de ir para o baile.
Fechei os olhos novamente.
As lembranças começaram a voltar em pequenos pedaços, todas embaralhadas.
O baile.
Cecília.
Gabriela.
A bebida.
Um homem se aproximando.
O Terror com a arma.
Eu correndo.
Depois...
Nada.
Passei a mão pelo rosto e me sentei devagar.
Foi quando percebi a camiseta larga que estava vestindo.
Olhei para baixo.
Era dele.
Meu coração acelerou.
Eu não lembrava de absolutamente nada depois de ter fugido do baile.
Olhei para o meu corpo, tentando entender o que tinha acontecido, mas não sentia nenhuma dor diferente, nenhum sinal de que ele tivesse feito alguma coisa comigo.
Mesmo assim, aquela dúvida me deixou completamente desconfortável.
— Meu Deus...
Levei as mãos à cabeça.
Que noite infernal.
Olhei ao redor procurando meu celular, mas não encontrei em cima da mesa.
Levantei.
Assim que tentei abrir a porta, meu coração disparou.
Trancada.
— Terror?
Bati algumas vezes.
— Terror!
Nada.
Bati novamente, dessa vez com mais força.
— Abre essa porta!
Silêncio.
Olhei para o relógio.
Quatorze horas.
Eu tinha dormido praticamente o dia inteiro.
Minha primeira preocupação foi a Luiza.
Será que ela estava bem?
Comecei a procurar meu celular desesperadamente até encontrá-lo embaixo da cama.
Peguei o aparelho.
Sem bateria.
— Merda.
Sentei na cama novamente, sentindo o desespero crescer.
Não demorou muito para ouvir a chave girando.
A porta abriu.
Terror entrou e, antes mesmo que eu pudesse sair, fechou novamente.
O olhar dele veio direto para mim.
— Finalmente acordou.
— Você me deixou trancada aqui?
— Deixei.
— Eu quero ver minha irmã.
Ele ignorou completamente minha pergunta.
— Quem era aquele homem?
Franzi a testa.
— Que homem?
— O cara do baile.
Meu coração apertou.
— Eu não sei.
— Não sabe?
— Não.
Ele caminhou na minha direção.
— Então me explica por que um cara que ninguém conhece aparece no baile e vai direto falar com você.
— Eu não sei, Terror.
Minha voz saiu mais nervosa.
— Eu realmente não sei.
Ele passou a mão pelo rosto, irritado.
— Quem mandou você sair do camarote?
— Cecília e Gabriela foram dançar e me chamaram.
— E você foi.
— Fui.
— Mesmo sabendo que eu tinha mandado você ficar perto de mim.
Engoli seco.
— Eu só queria ficar um pouco com minhas amigas.
Ele me encarou durante alguns segundos.
— E o cara?
— Eu não fiz nada.
— Eu vi você com ele.
— Ele veio falar comigo.
— E você estava sorrindo.
Baixei os olhos.
— Eu estava bêbada.
— Você estava drogada.
Meu estômago embrulhou.
— O quê?
— A bebida que você tomou estava batizada.
Levei a mão à boca.
— Eu fui drogada?
— Foi.
Meu coração começou a bater ainda mais rápido.
— Eu não sabia.
— Eu sei.
A resposta dele veio seca.
— E justamente por isso você não vai colocar uma bebida na boca sem saber de onde veio.
Assenti imediatamente.
— Eu não vou mais.
— Espero que não.
Ele respirou fundo e se afastou.
— Você quase me fez perder a cabeça ontem.
Fiquei em silêncio.
A lembrança do disparo voltou à minha cabeça.
— Você atirou por minha causa?
Ele me encarou.
— Eu atirei porque você estava fazendo merda.
— Ele tentou me beijar.
— Eu sei.
— Então por que está bravo comigo?
Seu olhar endureceu.
— Porque você não deveria ter saído de perto das meninas.
Não respondi.
Ele tirou a chave do bolso e destrancou a porta.
— Pode ir ver sua irmã.
Meu alívio foi imediato.
— Obrigada.
Passei por ele e parei no corredor.
— Terror...
Ele me olhou.
— Eu estou sem roupa.
Ele apontou para o armário.
— Tem roupas limpas ali.
Abri o armário e encontrei algumas peças que não eram minhas, mas serviam.
Troquei rapidamente e desci.
Ele já não estava na sala.
Saí da casa praticamente correndo.
A casa onde Luiza estava ficava perto de um pequeno restaurante no morro, e não demorou muito para eu chegar.
Assim que entrei no espaço aberto em frente ao estabelecimento, ouvi uma voz conhecida.
— Irmã.
Luiza veio correndo na minha direção.
Me abaixei e a abracei com força.
— Meu amor!
Ela apertou meu pescoço.
— Eu estava com saudade.
— Eu também.
Acariciei seus cabelos.
— Você está bem?
— Estou.
Ela abriu um sorriso.
— Dormi numa cama enorme!
Ri.
— É mesmo?
— E comi bolo no café da manhã.
— Então você aproveitou.
— Aproveitei muito!
Gabriela apareceu logo atrás dela.
— Ela ficou ótima.
Sorri.
— Obrigada por cuidar dela.
— Não precisa agradecer. Foi tranquilo.
Luiza segurou minha mão.
— A gente fez desenho, assistiu televisão e a tia me deu doce.
— Você gostou?
— Muito!
Ela ficou em silêncio por alguns segundos.
— E o homem grande estava lá.
Meu sorriso desapareceu.
— Que homem?
— O Terror.
Gabriela soltou uma risada.
— Ela ficou fascinada por ele.
— Ele é legal — Luiza falou.
Olhei para minha irmã sem acreditar.
— Você está falando do Terror?
— Sim.
Ela abriu um sorriso.
— Ele é grande, tem barba, cabelo e um monte de tatuagem.
Balancei a cabeça.
— Vamos para casa.
— Já?
— Já.
Despedi-me de Gabriela e peguei a mochila de Luiza.
No caminho, ela não parava de contar tudo o que tinha feito.
Eu sorria ouvindo.
Era bom ter minha irmã novamente perto de mim.
Quando chegamos em casa, abri a porta esperando encontrar meu pai em algum lugar.
Nada.
Sala vazia.
Cozinha vazia.
Quarto vazio.
Olhei para o sofá.
Tudo estava exatamente como eu tinha deixado.
— Maju...
Olhei para Luiza.
— O quê?
— O Papai ainda não voltou?
Meu coração apertou.
— Ainda não.
— Ele foi embora?
— Não sei meu amor.
— Mas ele está sempre fora de casa.
Me agachei na frente dela.
— Ele deve estar resolvendo alguma coisa.
Luiza fez uma carinha triste.
— Estou com saudade dele.
Passei a mão em seus cabelos.
— Eu sei.
Eu também estava preocupada.
Meu pai já tinha desaparecido por quase dois dias antes, mas nunca demorava tanto para voltar sem pelo menos aparecer em algum momento.
E agora, depois de tudo que tinha acontecido...
Aquela ausência começava a me incomodar.
Não sabia onde ele estava.
Não sabia com quem estava.
E, principalmente, não sabia se pretendia voltar.
Olhei para a porta fechada.
Uma sensação estranha percorreu meu corpo.
Pela primeira vez, comecei a pensar que talvez aquilo não fosse apenas mais uma das fugas do meu pai.
Talvez tivesse acontecido alguma coisa.
Ou talvez...
Ele simplesmente tivesse decidido ir embora.
— Irmã?
Voltei a olhar para Luiza.
— Vamos assistir televisão?
Ela sorriu.
— Vamos!
Peguei sua mão e fomos para a sala.
Por enquanto, eu não contaria nada para ela.
Ela ainda era pequena demais para carregar os problemas que os adultos tinham colocado sobre seus ombros.
Mas enquanto Luiza assistia ao desenho, minha cabeça continuava presa em uma única pergunta:
Onde estava meu pai?