Capítulo 26

1183 Words
Capítulo 26 Maria Júlia (Maju) narrando Uma semana. Era esse o tempo que meu pai estava fora de casa. Sete dias sem aparecer, sem mandar notícia, sem deixar qualquer explicação. No começo, tentei me convencer de que ele tinha simplesmente sumido para beber, como fazia tantas vezes, e que em algum momento voltaria pela porta como se nada tivesse acontecido. Só que os dias foram passando e aquela esperança começou a desaparecer. Minha mãe tinha ido embora anos atrás. Quando a Luiza tinha apenas três anos. Desde então, fui eu quem ficou. Eu ainda era uma criança quando precisei aprender a cuidar de outra criança, mas ninguém parecia se importar com isso. Enquanto outras meninas da minha idade estavam preocupadas com escola, festas e namoros, eu estava preocupada com comida dentro do armário, contas atrasadas e com o estado da minha irmã. E agora meu pai também tinha desaparecido. Luiza sentiu mais do que eu queria admitir. Nos primeiros dias, perguntava por ele várias vezes. Depois parou. E isso me preocupava ainda mais. Ela também tinha ficado doente. Passou dois dias com febre, sem querer comer direito e acordando durante a madrugada assustada. Eu sabia que não podia afirmar que era por causa do meu pai, mas não conseguia ignorar a possibilidade de que aquela mudança toda estivesse mexendo com ela. Naquela tarde, finalmente a febre tinha baixado. Luiza dormia enrolada no cobertor, respirando tranquila. Eu estava sentada ao lado dela quando ouvi a porta abrir. — Maju? Levantei os olhos e encontrei Cecília entrando com duas sacolas nas mãos. — Oi. Ela colocou tudo sobre a mesa. — Trouxe comida. — Você não precisava. — Eu sei que não precisava, por isso mesmo trouxe. Ela sorriu. — Como ela está? Olhei para o quarto. — A febre baixou. Hoje ela conseguiu comer um pouco também. Cecília respirou aliviada. — Ainda bem. Ela começou a tirar as coisas das sacolas. Tinha salgadinho, refrigerante, chocolate, biscoito e um monte de besteira. — O que é isso tudo? — Uma noite de filme. — Cecília... — Nem começa. Ela apontou para mim. — Você está há uma semana com essa cara de quem vai desabar a qualquer momento. Hoje você vai sentar comigo, comer porcaria e assistir alguma coisa. Soltei uma risada fraca. — Você é impossível. — E você está precisando de alguém impossível na sua vida. Fiquei olhando para ela por alguns segundos. Cecília era uma das poucas pessoas que ainda conseguia arrancar alguma coisa de mim além de preocupação. — Minha mãe viajou — ela comentou enquanto guardava algumas coisas. — Achei que você fosse ficar com o PH. Ela deu um sorriso malicioso. — Eu também achei. Depois me encarou. — Mas preferi ficar com você. Meu sorriso desapareceu um pouco. — Por quê? — Porque você está distante. Desviei o olhar. — Estou só preocupada. — Com seu pai? Assenti. — Ele nunca ficou tanto tempo fora. Cecília sentou ao meu lado. — Você acha que aconteceu alguma coisa? — Eu não sei. Passei as mãos pelo rosto. — É isso que está me deixando maluca. Ela ficou em silêncio por alguns segundos. — Maju, você precisa pensar em você também. Soltei uma risada amarga. — Eu não tenho mais esse luxo. — Tem, sim. — Eu tenho uma irmã pequena para cuidar. — E você acha que precisa resolver tudo sozinha? Olhei para ela. — Quem mais vai fazer? Cecília segurou minha mão. — Eu. Aquelas três letras quase fizeram meus olhos encherem de lágrimas. — Você já faz demais por mim. — E vou continuar fazendo. Ela apertou minha mão. — Você não precisa carregar o mundo inteiro nas costas. Baixei a cabeça. — Às vezes eu penso que seria melhor mandar a Luiza para minha tia. — A irmã do seu pai? Assenti. — Ela poderia cuidar dela. — E você? — Eu me viro. Cecília franziu a testa. — Você está falando sério? — Talvez. — Maju, a Luiza não precisa apenas de alguém para dar comida e colocar ela para dormir. Ela olhou na direção do quarto. — Ela precisa de você. Meu peito apertou. — Eu tenho medo de estar sendo egoísta. — Egoísta seria abandonar sua irmã. Ela sorriu. — E você nunca faria isso. Fiquei quieta. Cecília tinha razão. Por mais cansada que eu estivesse, por mais que aquela vida estivesse me destruindo aos poucos, eu não conseguia imaginar a Luiza longe de mim. Ela era minha responsabilidade. Mas, acima de tudo... Era minha família. — Você é a única coisa boa que eu tenho, sabia? — murmurei. Cecília me abraçou. — E você é a minha. Naquela noite, colocamos um colchão na sala. Cecília escolheu o filme, Luiza acordou pouco depois e acabou se enfiando no meio de nós duas. Pedimos pizza. Comemos besteira. Rimos de coisas idiotas. Por algumas horas, consegui esquecer o morro, as dívidas, o Terror e o desaparecimento do meu pai. Foi quase normal. Quase. Na manhã seguinte, Luiza acordou muito melhor. Já estava pedindo para ir à creche. — Tem certeza que está se sentindo bem? — Estou! Ela abriu um sorriso enorme. Cecília riu. — Essa menina tem energia de sobra. Como ela ainda estudava e eu tinha abandonado os estudos para trabalhar e conseguir colocar comida dentro de casa, pedi que Cecília levasse Luiza até a creche. Depois que as duas saíram, a casa voltou a ficar silenciosa. Organizei algumas coisas, lavei a louça e arrumei a sala. Mas minha cabeça não parava. Meu pai continuava desaparecido. E eu precisava descobrir se alguém sabia de alguma coisa. Foi quando pensei no Terror. Fiquei alguns minutos parada no meio da sala. A última coisa que eu queria era procurar aquele homem. Principalmente depois da semana inteira sem ele aparecer. Mas talvez ele soubesse de alguma coisa. Talvez alguém da boca tivesse visto meu pai sair. Talvez ele tivesse alguma informação que pudesse me ajudar. Ou talvez... Eu estivesse apenas arrumando uma desculpa para vê-lo novamente. Balancei a cabeça, irritada comigo mesma. — Para de pensar besteira, Maju. Peguei meu celular. Olhei para a tela. Meu dedo ficou alguns segundos parado sobre o contato que eu nem sabia se deveria chamar. No fim, desisti. Se eu fosse atrás dele, seria pessoalmente. Troquei de roupa, prendi o cabelo e saí de casa. Enquanto caminhava pelas vielas, sentia alguns olhares acompanhando meus passos. Os boatos ainda estavam vivos. Para todo mundo naquele morro, eu era a garota do Terror. E talvez fosse justamente por isso que eu não deveria estar indo até ele. Mas eu precisava de respostas. Quando cheguei perto da boca, parei por alguns segundos. Respirei fundo. Uma parte de mim queria voltar para casa. Outra queria descobrir onde meu pai estava. E havia uma terceira, bem mais perigosa... Aquela que queria descobrir por que o Terror tinha passado uma semana inteira sem sequer mandar me chamar. Entrei. E, assim que atravessei a entrada, alguns olhares se voltaram para mim. Eu não sabia se estava preparada para encontrá-lo. Mas já era tarde demais para voltar atrás.
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