Capítulo 27
Terror narrando
Eu estava na boca, sentado atrás da mesa, conferindo algumas anotações enquanto o movimento lá fora seguia normalmente. O rádio permanecia ao meu lado e, entre uma conta e outra, eu acendia um baseado, tentando organizar a cabeça.
— Você sumiu — Carla reclamou, surgindo atrás de mim. — Achei que tinha perdido o interesse.
Nem levantei os olhos.
— Para de besteira. Você sabe que não gosto de cobrança.
Ela se aproximou, tentando chamar minha atenção, mas eu continuei concentrado no que estava fazendo.
— Eu não quero só dinheiro, Terror.
Soltei uma risada curta.
— Então você está querendo o quê?
Antes que ela respondesse, ouvi passos no corredor.
Levantei os olhos.
Maju apareceu na entrada.
Assim que percebeu que Carla estava ali, parou imediatamente.
— Desculpa... eu volto outra hora.
— Fica.
Minha voz saiu firme.
Maju congelou.
Carla virou o rosto na mesma hora, claramente incomodada.
— Como assim fica? Eu estava conversando com você.
— Eu ouvi — respondi sem paciência. — E agora você vai embora.
— Você está me mandando embora por causa dela?
— Estou mandando você embora porque eu quero. Não preciso ficar dando explicação.
Carla me encarou por alguns segundos, revoltada, mas acabou pegando a bolsa.
Antes de sair, ainda lançou um olhar atravessado para Maju.
— Isso não vai ficar assim.
Maju permaneceu quieta.
Quando Carla finalmente desapareceu pelo corredor, voltei minha atenção para a garota parada na porta.
— O que você quer?
Ela respirou fundo.
— Eu vim perguntar sobre meu pai.
Franzi a testa.
— Seu pai?
— Ele está fora do morro há uma semana.
Encostei-me na cadeira e fiquei observando o rosto dela.
— Ele saiu daqui carregando uma mochila. Você não percebeu?
— Eu percebi, mas achei que ele voltaria.
— Então você esperou uma semana para perguntar?
— Eu não sabia o que fazer.
A voz dela estava diferente.
Mais fraca.
Menos desafiadora.
— A Luiza ficou doente esses dias e continua perguntando por ele. Eu sei que meu pai nunca foi um bom pai, mas ele ainda é nosso pai. Eu precisava saber se você tinha alguma informação.
Soltei a fumaça devagar.
— Não tenho.
Ela abaixou os olhos.
— Tem certeza?
— Se eu tivesse alguma notícia, você acha que estaria escondendo?
Ela ficou em silêncio.
— Eu só estou preocupada.
— Preocupada com um homem que deixou você sozinha para cuidar de uma criança?
Maju respirou fundo.
— Eu sei como ele é. Sei de tudo que ele fez comigo e com a Luiza. Mas isso não faz com que eu simplesmente deixe de me importar.
Fiquei alguns segundos encarando aquela garota.
Ela tinha uma mania irritante de tentar enxergar alguma humanidade nas pessoas que só tinham feito m*l a ela.
— Seu pai foi embora porque quis.
— E se alguma coisa aconteceu com ele?
— Então você vai descobrir quando for a hora.
Os olhos dela ficaram marejados.
— Eu só queria uma resposta.
— E eu já te dei.
Ela assentiu devagar, mas antes de sair parou novamente.
— Obrigada mesmo assim.
— Espera.
Ela se virou.
— Como está sua irmã?
A surpresa apareceu imediatamente no rosto dela.
— Melhor. A febre passou.
— E você levou ao médico?
— Sim.
— Então continua cuidando dela.
Ela assentiu.
— Vou cuidar.
— E não fica colocando essa mulher na cabeça da menina. Se ela decidiu abandonar vocês, não é você que vai conseguir obrigá-la a voltar.
Maju apertou os lábios, segurando o choro.
— Ela sente falta.
— Eu sei.
Foi tudo que consegui dizer.
Ela saiu em silêncio.
Fiquei olhando para a porta fechada por alguns segundos antes de voltar para os papéis.
A mãe daquela garota tinha desaparecido do morro levando uma mochila e, sinceramente, eu não acreditava que aquilo fosse apenas uma fuga qualquer.
Principalmente porque tudo estava acontecendo ao mesmo tempo.
Andrade tinha voltado a mexer os pauzinhos.
O passado do pai da Maju começava a aparecer novamente.
E agora aquela mulher simplesmente sumia.
Alguma coisa não estava batendo.
Peguei o rádio.
— Sorriso.
— Fala, chefe.
— Quero saber por onde o pai da Maju saiu e quem viu ele deixando o morro.
— Pode deixar.
Desliguei o rádio e me recostei na cadeira.
Talvez eu estivesse procurando problema onde não existia.
Mas, naquele lugar, quando muita coisa começava a acontecer ao mesmo tempo, normalmente significava que alguém estava escondendo alguma coisa.
E eu odiava ser pego de surpresa.