Capítulo 28

1001 Words
Capítulo 28 Maju narrando De nada tinha adiantado falar com o Terror. Saí da boca ainda mais confusa do que quando entrei, carregando aquela sensação de que eu estava completamente sozinha no mundo. Desci alguns metros pela viela quando encontrei PH parado perto de uma das entradas. Assim que me viu, ele franziu a testa. — Maju. — PH, você consegue me ajudar? Ele percebeu imediatamente que havia alguma coisa errada. — Se você estiver pensando em fugir do meu primo, esquece. Ele vai atrás de você até no fim do mundo. — Não é isso. Respirei fundo. — Eu queria saber se vocês descobriram alguma coisa sobre o meu pai. PH perdeu o sorriso. — Não, Maju. A única coisa que a gente sabe é que ele saiu do morro com uma mochila. Depois disso, ninguém mais viu. — E ninguém fez nada? Minha voz saiu mais alta do que eu pretendia. — Ele simplesmente saiu daqui e vocês deixaram? — Ele não estava preso, Maju. — Mas eu estou! A frase escapou antes que eu pudesse pensar. PH ficou em silêncio. — Eu não posso nem descer para uma farmácia sem pedir autorização. Não posso trabalhar. Não posso decidir nada da minha própria vida. Mas meu pai consegue sair daqui levando uma mochila e ninguém pergunta para onde ele está indo? — Eu não tenho como te responder isso. — Claro que não. Passei a mão pelo rosto, sentindo os olhos arderem. — Desculpa. — Você não precisa pedir desculpa para mim. Ele deu um passo na minha direção. — Se eu descobrir alguma coisa, eu te aviso. Antes que eu pudesse responder, uma voz conhecida surgiu atrás de mim. — Vai fazer as cobranças, PH. Meu corpo inteiro ficou tenso. Terror estava parado alguns metros atrás. PH apenas assentiu. — Depois a gente conversa. Ele saiu, deixando nós dois sozinhos. Olhei para Terror. — Eu só queria descobrir alguma coisa sobre o meu pai. — E eu já disse que não sei de nada. — Mas você é o dono do morro. Você precisa saber por onde as pessoas entram e saem daqui. Ele soltou uma risada curta. — Você é inocente demais. — Para de falar comigo assim. Minha voz saiu baixa. Eu não queria provocar outra discussão. — Eu só estou preocupada. Ele ficou me encarando. — Seu pai foi embora. Aceita isso. — Eu não consigo. Engoli o choro. — A Luiza pergunta por ele. Ela está sentindo falta. Eu não sei nem o que dizer para ela. Ele ficou alguns segundos em silêncio. — Então para de procurar alguém que escolheu ir embora. Baixei os olhos. — Eu só queria saber se ele está bem. Terror suspirou, aparentemente irritado com a conversa. — O que você precisa? Demorei um instante para entender. — Preciso ir à farmácia. — Manda um vapor. — É para comprar uma pomada para a Luiza. A pele dela voltou a ficar irritada e só temos o suficiente para hoje. — Então anota o nome. — Eu não tenho dinheiro. Ele arqueou a sobrancelha. — Agora meu dinheiro serve? Senti a vergonha tomar conta de mim. — Eu não consigo trabalhar porque você não deixa. — Então alguém vai comprar. — Eu poderia ir sozinha. — Não. — Terror... — Maju. O tom dele encerrou a discussão. — Você não vai sair do morro. Apertei os dedos contra a palma da mão. — Você decide tudo por mim. — Sim. — Essa dívida não pode durar para sempre. Ele me encarou. — Ela termina quando eu decidir que terminou. Meu peito apertou. — Qual é o valor que eu ainda devo? Ele deu um sorriso frio. — Você continua pensando que isso é sobre dinheiro. Fiquei olhando para ele, sem entender. — Então é sobre o quê? Ele não respondeu. Apenas se aproximou. Meu corpo reagiu antes da minha cabeça, recuando alguns passos. — Você sabe muito bem que eu não quero isso. Ele me encarou em silêncio. — E mesmo assim continua agindo como se eu tivesse escolha. Minha voz começou a falhar. — Você já tirou coisas demais de mim. O rosto dele ficou sério. — Não começa. — Eu tenho medo de você. A frase saiu quase como um sussurro. Por alguns segundos, ninguém falou nada. Eu limpei rapidamente uma lágrima que escapou. — Eu odeio essa vida. Terror deu um passo para trás. — Problema seu. Aquilo doeu mais do que eu queria admitir. — Eu só queria ter uma vida normal. — Você não tem. Ele virou as costas. — Vai para casa. Não discuti. Saí dali com o coração pesado, segurando as lágrimas enquanto descia pelas vielas. Eu só queria chegar até a Luiza. Só queria abraçar minha irmã e esquecer, por alguns minutos, tudo aquilo que estava acontecendo. Mas, quando virei na última viela que dava acesso à minha casa, parei imediatamente. Uma fumaça escura subia para o céu. Meu coração disparou. — Não... Comecei a correr. Quanto mais me aproximava, mais o desespero aumentava. Alguns vapores estavam espalhados pela rua e Sorriso tentava organizar os homens enquanto eles jogavam água e tentavam controlar as chamas. Minha casa estava pegando fogo. As janelas estavam tomadas pelas labaredas. A fumaça cobria tudo. Parei no meio da rua, completamente sem reação. — LUÍZA! Tentei correr para dentro, mas dois vapores me seguraram. — Maju, não! — Minha irmã está lá dentro! Minha voz saiu em um grito desesperado. — A Luiza está lá! Sorriso veio correndo até mim. — Maju, segura! — Solta! Eu me debatia, tentando me livrar dos braços que me seguravam. — Minha irmã está lá! As lágrimas começaram a cair sem controle enquanto eu encarava minha casa sendo destruída diante dos meus olhos. E naquele instante, pela primeira vez desde que tudo aquilo começou, eu senti um medo diferente. Porque não era mais apenas a minha vida que estava sendo destruída. Era a única coisa que eu ainda tinha. Minha irmã.
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