Capítulo 7
Marcos (Terror) narrando
Assim que entrei na boca, joguei a chave da moto sobre a mesa e acendi um baseado.
Minha cabeça não parava um segundo.
Por mais que tentasse voltar minha atenção para os problemas do morro, aquela garota insistia em aparecer nos meus pensamentos.
Maria Júlia.
A filha de um bêbado desgraçado que tinha conseguido afundar a própria família em dívidas.
Ela me encarou o tempo todo.
Mesmo tremendo.
Mesmo sabendo quem eu era.
A maioria das pessoas abaixava a cabeça quando eu entrava em qualquer lugar.
Ela não.
Aquilo me irritava.
Ou talvez despertasse outra coisa que eu ainda não sabia explicar.
Sorriso entrou na sala com um caderno nas mãos.
— Resolveu a situação?
Apoiei os cotovelos sobre a mesa.
— Resolvi.
— E aí?
Olhei diretamente para ele.
— A partir de hoje, a Maria Júlia responde diretamente para mim.
Ele franziu a testa.
— Como assim?
— A dívida continua existindo.
— Eu sei.
— Então ela vai trabalhar para pagar.
PH entrou na sala justamente naquele momento.
— Tá falando da garota?
Assenti.
— Amanhã cedo você vai buscá-la.
— Ela aceitou?
Soltei uma risada seca.
— Ela não tem opção.
Os dois permaneceram em silêncio.
Sabiam muito bem que eu nunca voltava atrás depois de tomar uma decisão.
Levantei da cadeira e caminhei até a frente da boca.
O movimento no morro continuava intenso.
Vapores entrando e saindo.
Aviãozinhos chegando para pegar mais mercadoria.
Olheiros espalhados pelos becos.
Tudo funcionando exatamente como deveria.
— Escuta uma coisa.
Minha voz fez todos olharem para mim.
— Quero um recado espalhado no morro inteiro.
Os vapores se aproximaram.
— A Maria Júlia responde para mim.
Ninguém toca.
Ninguém mexe.
Ninguém faz gracinha.
Ninguém chama para conversar.
Se eu descobrir qualquer um de vocês enchendo o saco dela...
Passei os olhos por cada rosto.
— Vai se arrepender.
Um dos vapores deu uma risada baixa.
— Tá casado, patrão?
O silêncio tomou conta da boca.
Olhei lentamente para ele.
Caminhei até ficar frente a frente.
Sem pensar duas vezes, dei um soco tão forte que ele caiu no chão.
O sangue escorreu imediatamente do nariz.
Abaixei perto dele.
— Escuta bem.
Segurei sua camisa.
— Eu nunca misturei meus negócios com sentimento.
Ela não é minha mulher.
Ela não é minha namorada.
Ela é problema meu.
E problema meu ninguém encosta.
Ele assentiu rapidamente.
— Foi m*l, patrão.
Soltei sua camisa e voltei para dentro.
Sorriso apenas balançou a cabeça.
— Às vezes eu acho que você nasceu sem paciência.
— Também.
Acendi outro baseado.
— Só não tenho paciência para gente burra.
PH segurava alguns papéis.
— Consegui levantar a movimentação daquele policial.
Peguei as folhas da mão dele.
Meu sangue ferveu no mesmo instante.
Paulo.
Depois de dois anos escondido, finalmente tinha voltado para o Rio.
Passei os olhos pelo endereços.
Locais que frequentava.
Fechei a mão sobre os papéis.
— Agora ficou fácil encontrar esse desgraçado.
Sorriso cruzou os braços.
— Vai esperar?
Olhei para ele.
— Esperei dois anos.
Posso esperar mais alguns dias.
Mas quando chegar a hora...
Ele morre.
Não existia perdão.
Não existia acordo.
Nem negociação.
A morte da Esther ainda queimava dentro de mim como se tivesse acontecido ontem.
Quem encostasse em alguém que era meu...
Pagava.
Sempre pagava.
No começo da noite resolvemos descer até o restaurante da tia do Sorriso.
Era tradição.
Toda sexta tinha pagode.
Gente da comunidade inteira aparecia.
Gostava de ficar ali porque conseguia observar tudo.
Ninguém fazia nada sem que meus olhos alcançassem.
Assim que sentei, Gabriela apareceu.
— Vai pedir comida ou só ocupar mesa?
Sorri de canto.
— Os dois.
Ela revirou os olhos.
— Você manda no morro.
Não manda aqui.
— Ainda bem.
Ela anotou meu pedido.
— Porque minha mãe não tem medo de você.
Ri baixo.
— Disso eu tenho certeza.
Ela saiu resmungando.
Enquanto esperava a comida chegar, comecei a observar o movimento da rua.
Foi quando vi Maria Júlia.
Ela vinha caminhando de mãos dadas com a irmã.
A menina falava sem parar.
Maju apenas escutava.
O sorriso dela era forçado.
Mesmo de longe dava para perceber.
Ela ainda estava tentando entender tudo o que tinha acontecido.
Os olhos dela encontraram um rapaz empurrando um carrinho de sorvete.
Os dois começaram a conversar.
Franzi a testa.
— Quem é aquele?
Gabriela olhou na direção que eu apontava.
— Diego.
Vende sorvete aqui faz anos.
Continuei observando.
Ele sorria.
Falava alguma coisa.
Maria Júlia respondia educadamente.
Nada demais.
Mesmo assim...
Aquilo me incomodou.
Sem motivo.
Sem lógica.
Apenas incomodou.
PH chegou logo em seguida.
Percebeu para onde eu olhava.
— Conhece o cara?
— Não.
— É gente boa.
Continuei encarando a cena.
Diego entregou um sorvete para a menorzinha.
Depois ofereceu outro para a Maju.
Ela recusou.
Conversaram mais alguns segundos.
Até seguirem caminho.
Baixei a cabeça e terminei minha cerveja de uma vez.
PH sorriu de lado.
— Tá incomodado por quê?
Olhei para ele.
— Porque eu mando nesse morro.
— E daí?
Apoiei o copo sobre a mesa.
— Amanhã, sete horas.
Vai buscar a Maria Júlia.
Ele arqueou a sobrancelha.
— Quer que eu diga o quê?
— Nada.
Só leva ela até a boca.
— E depois?
Olhei novamente para o alto do morro, onde ela desaparecia ao lado da irmã.
Minha expressão endureceu.
— Depois...
Ela vai começar a aprender que viver sob as minhas ordens é muito diferente de ouvir ameaças.
Ela ainda achava que a conversa que tivemos hoje tinha sido o pior momento da vida dela.
Mal sabia...
Que o verdadeiro inferno estava apenas começando.