Capítulo 8

895 Words
Capítulo 8 Cecília narrando Assim que ouvi duas batidas leves no portão, abri um sorriso sem conseguir disfarçar. Olhei pela janela da sala para ter certeza de que minha mãe já tinha virado a esquina com as mulheres da igreja. Toda quarta-feira era a mesma coisa. Elas saíam para o culto e só voltavam horas depois. Era a única oportunidade que eu tinha de ver o Paulo Henrique sem precisar esconder o rosto de todo mundo. Abri o portão rapidamente. — Entra logo. PH entrou sorrindo. — Você vive me recebendo como se eu fosse um criminoso. Cruzei os braços. — E você é o sub do morro. Ele riu. — Também. Fechei o portão e puxei sua mão. — Minha mãe saiu faz pouco tempo. Mas não podemos demorar. — Ela ainda me odeia? Parei na frente dele. — Você realmente tinha alguma dúvida? PH passou a mão na nuca. — Acho que não. Acabei rindo. Apesar de toda a fama que carregava dentro da comunidade, comigo ele era completamente diferente. Brincalhão. Paciente. Carinhoso. Subimos para o meu quarto. Assim que fechei a porta, ele me abraçou pela cintura. — Estava com saudade. Encostei a cabeça em seu peito. — Também estava. Ficamos alguns segundos em silêncio. Aquele era um dos poucos momentos em que eu conseguia esquecer que ele fazia parte do movimento. Que vivia armado. Que respondia diretamente ao Terror. — O que foi? Ele levantou meu rosto delicadamente. — Você ficou séria. Suspirei. — Tenho medo. — De quê? — Da minha mãe descobrir. Ele sorriu de canto. — Ela me mata. — Não estou brincando. — Nem eu. Acabei dando um tapa leve em seu braço. — i****a. Ele segurou minha mão. — Um dia eu vou entrar pela porta da frente. Olhei para ele sem acreditar. — Minha mãe nunca vai aceitar. — Então eu convenço. — Você conhece dona Vera. Ele soltou uma gargalhada. — Conheço. — Então sabe que isso é impossível. PH deu de ombros. — Impossível é palavra de quem desiste fácil. Balancei a cabeça rindo. Era justamente aquele jeito confiante que tinha me conquistado. Ele segurou meu rosto entre as mãos. — Como você está? A pergunta me fez lembrar da Maju. Meu sorriso desapareceu. — Estou preocupada com a Maju. Ele percebeu imediatamente. — Aconteceu alguma coisa? Sentei na cama. — Ela está estranha desde ontem. — Estranha como? — Parece assustada. Disse que estava cansada, mas eu conheço minha amiga. Tem alguma coisa acontecendo. PH permaneceu em silêncio. Baixou os olhos por alguns segundos. Aquilo chamou minha atenção. — Você sabe de alguma coisa? Ele respirou fundo. — Tem coisas que eu não posso falar. Levantei imediatamente. — PH... Ele segurou minhas mãos. — Confia em mim. Se eu pudesse contar... Eu contava. Aquilo só aumentou minha preocupação. — Ela corre perigo? Ele demorou alguns segundos para responder. — Enquanto ela fizer o que o Terror mandar... Ninguém vai encostar nela. Meu coração apertou. — O que isso quer dizer? — Quer dizer que ela precisa ter cuidado. Fechei os olhos por um instante. A Maju nunca tinha se metido em confusão. Ela trabalhava. Cuidava da Luiza. Vivia para casa. O que ela poderia ter feito para chamar a atenção do Terror? Antes que eu perguntasse mais alguma coisa, ouvimos a voz da minha mãe ecoando do lado de fora. — Cecília! Arregalei os olhos. — Meu Deus... PH também congelou. — Ela voltou. Corri até a janela. O carro da igreja já estava parado em frente ao portão. — Você disse que ela demorava. — Ela demorava! Olhei novamente para baixo. — Vai, vai embora! Ele foi até a sacada e olhou a altura. — Você quer me matar? — Se minha mãe encontrar você aqui, ela mata nós dois. Ele respirou fundo. — Você tem razão. A voz da minha mãe voltou a ecoar pela casa. — Cecília! Abre essa porta! Empurrei PH até a sacada. — Anda! Ele passou uma perna pelo muro. Olhou para mim uma última vez. — Depois você me liga. — Vai logo! Ele pulou para o quintal do vizinho e desapareceu em segundos. Corri para o banheiro. Abri o chuveiro apenas para fazer barulho. Molhei rapidamente os cabelos. Respirei fundo tentando controlar o coração. As batidas na porta ficaram mais fortes. — Cecília! Destranquei a porta. Minha mãe me olhou da cabeça aos pés. — Por que demorou tanto? Peguei uma toalha. — Estava tomando banho. Ela entrou no quarto observando tudo. A cama. A janela aberta. As roupas espalhadas. Meu coração parecia querer sair pela boca. — Você recebeu visita? Engoli seco. — Não. Ela continuou olhando ao redor. Depois voltou a me encarar. — Espero que esteja falando a verdade. Forcei um sorriso. — Estou. Ela permaneceu em silêncio por alguns segundos. — O pastor perguntou de você hoje. Disse que faz tempo que não aparece na igreja. Baixei a cabeça. — Domingo eu vou. Ela assentiu. Antes de sair, olhou mais uma vez para a janela aberta. — Fecha isso. Hoje em dia não dá para confiar em ninguém. Assim que ouvi a porta do quarto se fechar, soltei o ar preso nos pulmões. Passei a mão no rosto. Tínhamos escapado por muito pouco. Mas, pela expressão da minha mãe... Eu tinha certeza de que ela tinha desconfiado de alguma coisa.
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