Capítulo 3
Maria Júlia (Maju) narrando
A vida tem um jeito c***l de derrubar a gente quando começamos a acreditar que as coisas vão melhorar.
Naquela manhã, eu saí de casa tentando ignorar o aperto que sentia no peito. Depois da noite anterior, tudo o que eu queria era trabalhar, receber meu salário e respirar um pouco mais aliviada.
Mas o destino tinha outros planos.
Eu terminava de passar o pano na sala quando dona Regina apareceu parada na porta.
Ela nunca entrava naquele cômodo durante a faxina.
Aquilo já me deixou em alerta.
— Maju... você pode vir aqui um instante?
Apoiei o cabo do rodo na parede e limpei as mãos no avental.
— Aconteceu alguma coisa?
Ela suspirou antes de responder.
— Eu preciso conversar com você.
Meu coração acelerou.
— Fiz alguma coisa errada?
Ela balançou a cabeça.
— Pelo contrário. Você sempre trabalhou muito bem.
Então por que aquele olhar de culpa?
— Meu marido não quer mais você trabalhando aqui.
Franzi a testa.
— Como assim?
Ela desviou os olhos.
— Ele disse que suas tatuagens incomodam. Que não combinam com o ambiente da casa.
Por alguns segundos, achei que estivesse ouvindo errado.
— Minhas tatuagens?
Ela apenas confirmou.
Soltei uma risada sem humor.
— Engraçado... porque nunca vi tatuagem lavar banheiro, limpar janela ou esfregar chão.
Ela abaixou a cabeça.
— Eu sinto muito.
Engoli o nó que se formou na garganta.
Discutir não mudaria nada.
Ela me entregou um envelope.
— Aqui está o pagamento deste mês... e um valor a mais. Espero que você consiga outro emprego logo.
Segurei o envelope com força.
— Obrigada pela oportunidade.
Saí dali de cabeça erguida.
Só quando dobrei a esquina permiti que as lágrimas escapassem.
Eu não estava chorando pela demissão.
Estava chorando porque, mais uma vez, a vida estava tirando de mim a única estabilidade que eu tinha.
No caminho até a creche, encontrei Cecília.
Assim que me viu, atravessou a rua correndo.
— Maju!
Forcei um sorriso.
— Oi.
Ela me analisou por alguns segundos.
— O que aconteceu?
Respirei fundo.
— Fui mandada embora.
— O quê?
Contei tudo.
Desde a conversa com dona Regina até a desculpa absurda sobre as tatuagens.
Cecília balançava a cabeça indignada.
— Isso não existe.
— Existe... e aconteceu comigo.
Ela segurou minhas mãos.
— Amanhã nós vamos entregar currículo em tudo quanto é lugar. Você vai conseguir outro emprego.
Sorri de leve.
Ter a Cecília ao meu lado fazia qualquer problema parecer um pouco menor.
— Obrigada.
— Agora vai buscar a Luiza.
Assenti.
— Depois eu passo na sua casa.
Antes de buscar minha irmã, resolvi fazer uma coisa que estava me incomodando desde a noite anterior.
Subi até a venda do seu Valdemir.
Assim que entrei, ele levantou os olhos do caixa.
— Voltou?
Abri o envelope.
— Vim acertar minha conta.
Ele pegou um caderno e começou a fazer as contas.
— Setecentos reais.
Meu estômago revirou.
— Tudo isso?
— Dois meses de atraso. Teve juros.
Olhei para o dinheiro nas minhas mãos.
Era praticamente todo o meu salário.
O dinheiro que deveria comprar comida, pagar contas e manter a Luiza por mais um mês.
Mesmo assim...
Entreguei as notas.
Não queria dever mais nada a ninguém.
Seu Valdemir guardou o dinheiro sem dizer uma palavra.
Saí da venda tentando convencer a mim mesma de que tinha feito a coisa certa.
Foi quando encontrei PH.
Ele conversava com um dos vapores.
Assim que terminou, me aproximei.
— Posso falar com você?
Ele me olhou.
— Pode.
Estendi algumas notas.
— Vim devolver o dinheiro da caixa de leite.
PH nem sequer olhou para o dinheiro.
— Guarda isso.
— Mas...
— Você vai precisar mais do que eu.
Insisti.
— Eu não gosto de ficar devendo favor.
Ele deu um pequeno sorriso.
— Então considera que foi um presente para sua irmã.
Antes que eu pudesse responder, ele fez um gesto de despedida.
— Preciso trabalhar.
Fiquei observando enquanto ele se afastava.
Ainda existiam pessoas boas naquele lugar.
Quando cheguei em casa, alguma coisa estava errada.
A porta estava aberta.
As cadeiras fora do lugar.
Garrafas espalhadas pela sala.
O cheiro forte de bebida embrulhou meu estômago.
Fechei os olhos por um instante.
Respirei fundo.
Meu pai estava desmaiado no quarto.
Nem percebeu quando entrei.
Passei quase uma hora limpando toda a bagunça.
Depois coloquei o último pedaço de carne para descongelar.
Se picasse bem pequeno, conseguiria fazer um carreteiro que rendesse o jantar e o almoço do dia seguinte.
Enquanto mexia na panela, ouvi batidas na porta.
Quando abri, encontrei PH e Sandro, conhecido por todos como Sorriso.
Os dois estavam sérios.
Meu coração disparou.
— Aconteceu alguma coisa?
Sorriso respondeu primeiro.
— Precisamos conversar com seu pai.
Olhei em direção ao quarto.
— Ele está completamente bêbado.
PH permaneceu em silêncio por alguns segundos antes de perguntar:
— Então vamos conversar com você.
Engoli em seco.
— Sobre o quê?
Sorriso abriu um pequeno caderno.
— Existem algumas dívidas registradas no nome do seu pai.
Franzi a testa.
— Dívidas?
— Aluguel atrasado, contas da casa... e dinheiro emprestado.
Balancei a cabeça imediatamente.
— Deve ter algum engano.
PH me encarou.
— É justamente isso que estamos tentando descobrir.
Olhei de um para o outro.
— Eu não sabia de nada.
Ele percebeu meu desespero.
— Seu pai vai precisar esclarecer essa situação quando estiver sóbrio.
Meu peito apertou.
Pela expressão deles, aquilo estava longe de ser um simples m*l-entendido.
E, pela primeira vez...
Eu tive medo de que os problemas do meu pai acabassem destruindo também a minha vida.