Capítulo 4
Marcos (Terror) narrando
O rádio chiou três vezes seguidas.
Aquilo nunca era um bom sinal.
Peguei o aparelho sobre a mesa e respondi na mesma hora.
— Fala.
A voz de PH veio firme do outro lado.
— Tô na casa do Jorge que comentamos mais cedo.
Endireitei a postura na cadeira.
— E aí?
— Ele tá completamente apagado de tanto beber. A Maju disse que não fazia ideia das dívidas.
Passei a mão no rosto.
— E o Sorriso?
Logo ouvi a voz dele entrando na frequência.
— Conferimos tudo. As contas existem mesmo. Aluguel atrasado, dinheiro emprestado e compras fiadas. Mas quem assinou foi o pai.
Fechei os olhos por um instante.
Então PH estava certo.
A garota realmente não sabia de nada.
— Ela tá tentando defender o pai?
— Não.
Aquilo chamou minha atenção.
— Como assim?
— Ela ficou em choque quando mostramos o caderno. Disse que achava que ele pagava as contas com a pensão.
Levantei da cadeira.
— Continua aí.
— Tá vindo?
— Tô.
Desliguei o rádio, peguei a chave da moto e saí da boca.
Poucos minutos depois, parei em frente à casa.
Era exatamente como eu lembrava.
Pequena.
Simples.
Mal-acabada.
Desci da moto e subi os poucos degraus da varanda.
Assim que entrei, encontrei PH e Sorriso na sala.
A garota permanecia parada perto da cozinha.
Assim que me viu, ficou completamente imóvel.
Reconheci o mesmo olhar da noite em que tentou comprar leite para a irmã.
Mistura de medo.
Cansaço.
E orgulho.
Ela parecia fazer um esforço enorme para não demonstrar que estava assustada.
Cruzei os braços.
— Você é a filha dele?
Ela confirmou com um leve movimento de cabeça.
— Sou.
— Você sabia da dívida?
— Não.
A resposta saiu rápida.
Sem hesitação.
Olhei para PH.
Ele apenas confirmou discretamente.
Voltei minha atenção para ela.
— Seu pai tá onde?
Ela apontou para o andar de cima.
— No quarto.
— Bêbado?
Ela abaixou a cabeça.
— Sim.
Passei por ela e subi a escada.
O cheiro de bebida aumentava a cada degrau.
Quando entrei no quarto, encontrei o homem completamente desacordado sobre a cama.
Garrafas espalhadas.
Restos de comida.
Roupas jogadas pelo chão.
Aquilo dizia mais do que qualquer explicação.
Voltei para a sala.
Maju continuava parada no mesmo lugar.
Os braços cruzados escondiam o nervosismo.
Mas as mãos tremiam.
Sorriso abriu o caderno novamente.
— A dívida já passou de um valor alto.
Olhei para a garota.
— Você trabalha?
Ela respirou fundo.
— Trabalhava.
Franzi a testa.
— Fui mandada embora hoje.
Por um instante ninguém disse nada.
Era como se cada resposta complicasse ainda mais a situação.
— E quem sustenta essa casa?
Ela sorriu sem humor.
— Eu.
Olhei ao redor.
A casa era humilde.
Não existia televisão.
Não existia luxo.
Nem qualquer sinal de que aquela família estivesse gastando dinheiro com conforto.
Só abandono.
— Sua irmã?
O semblante dela mudou completamente.
— Tá na creche.
A forma como respondeu deixou claro que aquele assunto era sensível.
— Quantos anos ela tem?
— Cinco.
Assenti lentamente.
Então era por ela que a Maju lutava.
PH quebrou o silêncio.
— O que vamos fazer?
Continuei encarando a garota.
Ela mantinha a cabeça erguida.
Não implorava.
Não gritava.
Não tentava inventar desculpas.
Só parecia desesperada para proteger a irmã.
— Eu posso pagar.
A voz dela chamou minha atenção.
— Como?
— Me dá um prazo.
Sorriso soltou um suspiro.
— Você sabe o tamanho dessa dívida?
Ela olhou diretamente para ele.
— Não.
— Então por que tá prometendo pagar?
Ela respirou fundo.
— Porque foi meu pai quem fez essa bagunça.
Fez uma pequena pausa.
— A Luiza não pode pagar pelos erros dele.
Aquelas palavras ficaram ecoando dentro da sala.
Olhei para PH.
Depois para Sorriso.
Por fim, voltei minha atenção para Maju.
— Você tá assumindo uma dívida que não foi você quem fez.
Ela respondeu sem pensar duas vezes.
— Se eu não assumir... sobra pra minha irmã.
A firmeza daquela resposta me fez perceber que ela era completamente diferente da imagem que eu tinha criado.
Não era uma garota tentando fugir da responsabilidade.
Era alguém tentando salvar o que ainda restava da própria família.
Caminhei até a porta.
— Sorriso.
— Fala.
— Faz um levantamento completo.
Quero cada centavo separado.
O que é aluguel.
O que é empréstimo.
O que está devendo na boca.
Tudo.
Ele assentiu.
— Pode deixar.
Olhei novamente para Maju.
— Até eu saber exatamente o tamanho dessa dívida...
Fiz uma breve pausa.
— Você vai ser uma das minhas amantes.
Vi seus olhos se encherem de lágrimas.
Ela abriu a boca para falar, mas levantei a mão.
— Não agradece.
Minha voz voltou a ficar fria.
— Isso não significa que a dívida desapareceu.
Ela abaixou a cabeça.
— Não posso fazer isso
— Pode e vai, começar hoje à noite
Deixei a frase no ar.
— Lá a conversa será outra.
Saí da casa sem olhar para trás.
Enquanto uma única certeza ocupava meus pensamentos.
A dívida existia.
Mas alguma coisa naquela história ainda não fechava.
E eu não tomava nenhuma decisão importante antes de conhecer toda a verdade.