Capítulo 4

873 Words
Capítulo 4 Marcos (Terror) narrando O rádio chiou três vezes seguidas. Aquilo nunca era um bom sinal. Peguei o aparelho sobre a mesa e respondi na mesma hora. — Fala. A voz de PH veio firme do outro lado. — Tô na casa do Jorge que comentamos mais cedo. Endireitei a postura na cadeira. — E aí? — Ele tá completamente apagado de tanto beber. A Maju disse que não fazia ideia das dívidas. Passei a mão no rosto. — E o Sorriso? Logo ouvi a voz dele entrando na frequência. — Conferimos tudo. As contas existem mesmo. Aluguel atrasado, dinheiro emprestado e compras fiadas. Mas quem assinou foi o pai. Fechei os olhos por um instante. Então PH estava certo. A garota realmente não sabia de nada. — Ela tá tentando defender o pai? — Não. Aquilo chamou minha atenção. — Como assim? — Ela ficou em choque quando mostramos o caderno. Disse que achava que ele pagava as contas com a pensão. Levantei da cadeira. — Continua aí. — Tá vindo? — Tô. Desliguei o rádio, peguei a chave da moto e saí da boca. Poucos minutos depois, parei em frente à casa. Era exatamente como eu lembrava. Pequena. Simples. Mal-acabada. Desci da moto e subi os poucos degraus da varanda. Assim que entrei, encontrei PH e Sorriso na sala. A garota permanecia parada perto da cozinha. Assim que me viu, ficou completamente imóvel. Reconheci o mesmo olhar da noite em que tentou comprar leite para a irmã. Mistura de medo. Cansaço. E orgulho. Ela parecia fazer um esforço enorme para não demonstrar que estava assustada. Cruzei os braços. — Você é a filha dele? Ela confirmou com um leve movimento de cabeça. — Sou. — Você sabia da dívida? — Não. A resposta saiu rápida. Sem hesitação. Olhei para PH. Ele apenas confirmou discretamente. Voltei minha atenção para ela. — Seu pai tá onde? Ela apontou para o andar de cima. — No quarto. — Bêbado? Ela abaixou a cabeça. — Sim. Passei por ela e subi a escada. O cheiro de bebida aumentava a cada degrau. Quando entrei no quarto, encontrei o homem completamente desacordado sobre a cama. Garrafas espalhadas. Restos de comida. Roupas jogadas pelo chão. Aquilo dizia mais do que qualquer explicação. Voltei para a sala. Maju continuava parada no mesmo lugar. Os braços cruzados escondiam o nervosismo. Mas as mãos tremiam. Sorriso abriu o caderno novamente. — A dívida já passou de um valor alto. Olhei para a garota. — Você trabalha? Ela respirou fundo. — Trabalhava. Franzi a testa. — Fui mandada embora hoje. Por um instante ninguém disse nada. Era como se cada resposta complicasse ainda mais a situação. — E quem sustenta essa casa? Ela sorriu sem humor. — Eu. Olhei ao redor. A casa era humilde. Não existia televisão. Não existia luxo. Nem qualquer sinal de que aquela família estivesse gastando dinheiro com conforto. Só abandono. — Sua irmã? O semblante dela mudou completamente. — Tá na creche. A forma como respondeu deixou claro que aquele assunto era sensível. — Quantos anos ela tem? — Cinco. Assenti lentamente. Então era por ela que a Maju lutava. PH quebrou o silêncio. — O que vamos fazer? Continuei encarando a garota. Ela mantinha a cabeça erguida. Não implorava. Não gritava. Não tentava inventar desculpas. Só parecia desesperada para proteger a irmã. — Eu posso pagar. A voz dela chamou minha atenção. — Como? — Me dá um prazo. Sorriso soltou um suspiro. — Você sabe o tamanho dessa dívida? Ela olhou diretamente para ele. — Não. — Então por que tá prometendo pagar? Ela respirou fundo. — Porque foi meu pai quem fez essa bagunça. Fez uma pequena pausa. — A Luiza não pode pagar pelos erros dele. Aquelas palavras ficaram ecoando dentro da sala. Olhei para PH. Depois para Sorriso. Por fim, voltei minha atenção para Maju. — Você tá assumindo uma dívida que não foi você quem fez. Ela respondeu sem pensar duas vezes. — Se eu não assumir... sobra pra minha irmã. A firmeza daquela resposta me fez perceber que ela era completamente diferente da imagem que eu tinha criado. Não era uma garota tentando fugir da responsabilidade. Era alguém tentando salvar o que ainda restava da própria família. Caminhei até a porta. — Sorriso. — Fala. — Faz um levantamento completo. Quero cada centavo separado. O que é aluguel. O que é empréstimo. O que está devendo na boca. Tudo. Ele assentiu. — Pode deixar. Olhei novamente para Maju. — Até eu saber exatamente o tamanho dessa dívida... Fiz uma breve pausa. — Você vai ser uma das minhas amantes. Vi seus olhos se encherem de lágrimas. Ela abriu a boca para falar, mas levantei a mão. — Não agradece. Minha voz voltou a ficar fria. — Isso não significa que a dívida desapareceu. Ela abaixou a cabeça. — Não posso fazer isso — Pode e vai, começar hoje à noite Deixei a frase no ar. — Lá a conversa será outra. Saí da casa sem olhar para trás. Enquanto uma única certeza ocupava meus pensamentos. A dívida existia. Mas alguma coisa naquela história ainda não fechava. E eu não tomava nenhuma decisão importante antes de conhecer toda a verdade.
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