Capítulo 23
Maria Júlia (Maju) narrando
Eu já tinha perdido completamente a conta de quantos copos tinha tomado.
A bebida descia fácil demais, doce demais, e talvez por isso eu não tivesse percebido o quanto estava ficando alterada. Cecília estava do meu lado, rindo de qualquer coisa, enquanto Gabriela parecia tão animada quanto nós.
Depois de algum tempo no camarote, resolvemos descer para a pista.
— Essa bebida é boa demais! — Cecília falou, dançando no caminho.
Balancei a cabeça, rindo.
— Você já está ficando bêbada.
— E daí? Hoje eu vim para aproveitar.
Gabriela riu.
— Relaxa, Maju. O Terror nem vai perceber que você saiu de perto dele.
Olhei rapidamente para o camarote.
Ele estava lá.
Conversando com os homens.
Mesmo de longe, tive a impressão de que estava me observando.
Desviei o olhar.
— É melhor eu não dar motivo.
— Para de pensar nele por cinco minutos — Cecília falou, me puxando pela mão. — Você está aqui com a gente.
Acabei cedendo.
Entramos no meio da pista.
As músicas se misturavam ao som das pessoas conversando, das garrafas batendo e dos gritos de quem estava aproveitando o baile.
Por alguns minutos, consegui esquecer tudo.
Meu pai
Minha mãe.
A dívida.
O medo.
As ordens do Terror.
Até que um homem se aproximou.
Ele parecia não ser do morro.
Tinha um sorriso bonito e uma confiança que me fez sorrir de volta sem pensar.
— Você está solteira?
Franzi a testa.
— Depende.
Ele riu.
— Leandro.
— Maju.
— Você é linda.
Agradeci com um sorriso tímido.
— Obrigada.
Ele apontou para um canto mais afastado.
— Vamos dar uma volta?
Olhei para Cecília e Gabriela.
As duas estavam dançando e pareciam nem perceber que eu tinha parado para conversar.
— Não posso. Estou com minhas amigas.
— É rapidinho.
Balancei a cabeça.
— Vou ficar por aqui.
Comecei a me afastar.
Foi quando percebi novamente o camarote.
O Terror estava olhando na minha direção.
Meu coração acelerou.
Olhei para o homem.
— A gente se fala depois.
Tentei sair, mas ele segurou minha cintura.
— Você é linda demais para ir embora assim.
Meu sorriso desapareceu.
— Me solta.
Tentei afastar a mão dele.
— Só um beijo.
Ele se aproximou.
Virei o rosto.
— Eu falei para me soltar.
Antes que ele conseguisse fazer qualquer coisa, um estampido cortou o baile.
PÁ!
A música parou imediatamente.
As pessoas congelaram.
Empurrei o homem e levantei os olhos.
Lá em cima, o Terror estava com a arma na mão.
O olhar dele estava cravado em mim.
Meu corpo inteiro gelou.
— Meu Deus... — Cecília murmurou.
Não esperei para ouvir mais nada.
Saí correndo.
Atravessei a pista empurrando quem aparecia na minha frente, tropeçando nos próprios pés e ouvindo gritos atrás de mim.
Eu só queria fugir.
Quando finalmente saí do baile, continuei correndo sem saber exatamente para onde.
Peguei o celular e liguei a lanterna.
Subi por uma parte mais escura do morro, tentando encontrar algum lugar onde pudesse me esconder.
Meu coração estava disparado.
Minha cabeça parecia girar.
As pernas começaram a ficar pesadas.
Foi quando encontrei uma laje mais afastada.
Havia uma caixa-d'água ali.
Olhei para trás.
Uma sombra apareceu mais abaixo.
Ele estava vindo.
Meu corpo reagiu antes da minha cabeça.
Abri a tampa da caixa e entrei.
A água estava fria.
Fiquei agachada, tentando não fazer barulho.
Fechei a tampa.
Prendi a respiração.
Alguns segundos depois, ouvi passos.
— Eu sei que você está aqui, Maju!
Minha respiração travou.
— Você acha que vai fugir de mim?
Um disparo ecoou no alto do morro.
Gritei de susto.
Os passos se aproximaram.
A tampa foi aberta com violência.
O rosto do Terror apareceu.
— Por favor...
Minha voz saiu fraca.
— Não faz isso comigo.
Ele me encarou completamente furioso.
— Você lembra do que eu falei?
Balancei a cabeça.
— Eu não fiz nada.
— Não fez?
Ele se inclinou.
— Eu vi você lá embaixo.
— Ele tentou me beijar!
— E você deixou ele chegar perto.
Minha cabeça estava cada vez mais pesada.
Aquela bebida estava fazendo tudo parecer estranho.
As luzes ao redor começaram a ficar mais fortes.
As cores pareciam diferentes.
O rosto do Terror parecia mudar de forma diante dos meus olhos.
Ele segurou meu braço e me puxou para fora da caixa.
— Vamos embora.
Comecei a rir.
Ele me encarou sem entender.
— Do que você está rindo?
Apontei para a cabeça dele.
— Tem flores aí.
Ele franziu a testa.
— O quê?
Comecei a rir ainda mais.
— Flores!
Tentei tocar a cabeça dele.
Ele afastou minha mão.
— Você está completamente fora de si.
— Não aperta meu braço...
Continuei rindo.
Tudo parecia engraçado.
As paredes pareciam coloridas.
As luzes tinham deixado rastros no ar.
Eu conseguia ouvir passarinhos cantando.
— Escuta!
Levantei o dedo.
— Eles estão cantando.
O Terror fechou os olhos por alguns segundos, claramente perdendo a paciência.
— Chega.
Ele me pegou no colo e me colocou sobre o ombro.
— Me solta!
Comecei a bater nas costas dele.
— Você é maluco!
Ele continuou andando.
— Cala a boca.
— Olha!
Apontei para frente.
— Um pintinho amarelo!
Comecei a rir novamente.
— Ele está seguindo a gente!
Bati nas costas dele.
— Corre, corre pintinho!
Ele soltou um suspiro irritado.
— Eu devia ter deixado você lá embaixo.
— Corre, pintinho!
Minha voz foi ficando cada vez mais fraca.
As luzes começaram a desaparecer.
O som ficou distante.
Meu corpo perdeu completamente a força.
A última coisa que senti foi o movimento dos passos dele.
Depois...
Tudo ficou escuro.