Capítulo 16

1254 Words
Capítulo 16 Maria Júlia (Maju) narrando Fazia dois dias que meu pai tinha desaparecido. Na primeira noite, eu estava tão nervosa com a presença do Terror dentro de casa que nem percebi direito a ausência dele. Achei que tivesse saído para algum lugar e voltaria quando quisesse, como sempre fazia. Só que ele não voltou. Na manhã seguinte, quando acordei e encontrei o sofá vazio, pensei que talvez tivesse dormido na rua. Não seria a primeira vez. Agora já eram quase quarenta e oito horas. E nenhuma notícia. A Luiza tinha começado a perguntar por ele. Eu não sabia o que responder. — Ele vai voltar, meu amor. Era a única coisa que conseguia dizer. Levei minha irmã para a creche naquela manhã e percebi novamente os olhares espalhados pelas vielas. Parecia que, a cada dia, mais pessoas sabiam da história. Alguns cochichavam. Outros simplesmente me encaravam. Eu fingia não perceber. O pior era saber que ninguém conhecia a verdade. Para o morro, eu era apenas a mulher do Terror. Ninguém sabia que, por trás daquela história, existia uma dívida que eu nunca fiz e uma ameaça que me obrigava a obedecer. Naquele dia, porém, uma coisa me deixou respirar um pouco melhor. O Terror não tinha me chamado. Também não tinha aparecido na minha casa. E eu agradeci por algumas horas de paz. Quando cheguei em casa, encontrei Cecília esperando perto do portão. Assim que me viu, ela abriu um sorriso. — Oi. Tentei retribuir. — Entra. Ela entrou e fechou o portão atrás de si. Assim que ficamos sozinhas, seu sorriso desapareceu. — Você está bem? — Estou. Ela me olhou daquele jeito que só ela sabia olhar. — Maju... Suspirei. — É o meu pai. Ele saiu e não voltou há dois dias. — Sério? Assenti. — A Luiza está perguntando por ele. Cecília ficou alguns segundos em silêncio. — Talvez seja melhor assim. Olhei para ela imediatamente. — Ele é meu pai. — Eu sei. Ela suspirou. — Mas você sabe o quanto ele te prejudicou. Não respondi. — Se ele não tivesse feito todas aquelas dívidas, você não estaria passando por isso. Meu peito apertou. — Eu sei. — E se não fosse por ele, você nunca teria acabado presa nessa situação com o Terror. Baixei os olhos. Ela tinha razão. Mas ouvir aquilo em voz alta doía. — Eu só quero que a Luiza fique bem. Cecília se aproximou e segurou minha mão. — Eu sei. Ela ficou em silêncio por alguns segundos antes de sorrir. — E o PH? Olhei para ela surpresa. — O que tem ele? — Nada. Ela riu. — Só queria saber. — Cecília... — Ele apareceu lá em casa ontem à noite. Minha expressão mudou. — Sua mãe estava lá? — Na igreja. Ela sorriu. — Ele sempre aparece quando ela sai. Balancei a cabeça. — Você ainda vai acabar arrumando problema. — Eu já estou apaixonada. Não consegui segurar a risada. — Você é maluca. — Talvez. Ela deu de ombros. — Mas não vou abrir mão dele. — Sua mãe vai acabar descobrindo. — E quando descobrir, provavelmente vai querer me matar. Nós duas rimos. Por alguns segundos, parecia que nada tinha acontecido. Era disso que eu precisava. Daquela amizade. Da sensação de que ainda existia alguma coisa normal na minha vida. — O morro inteiro está comentando sobre mim. Falei depois de alguns segundos. Cecília assentiu. — Eu sei. — Todo mundo me olha diferente. — Você sabe como esse povo é. Ela me abraçou. — Mas eu não vou abandonar você. Fechei os olhos. Aquilo doeu mais do que ela poderia imaginar. Porque eu queria contar tudo. Queria dizer que eu estava com medo. Que o Terror controlava cada passo meu. Que eu não tinha escolhido nada daquilo. Mas não podia. — Obrigada. Ela beijou minha testa. — Eu te amo, Maju. Sorri. — Eu também te amo. Pouco depois, Cecília foi embora. Fiquei parada no portão observando-a desaparecer pela viela. Ela era minha melhor amiga desde criança. Meu Porto segura. E justamente por isso eu precisava mantê-la longe daquela confusão. Entrei novamente em casa e fui até a cozinha. A comida estava acabando. Novamente. Olhei para os poucos mantimentos dentro do armário e respirei fundo. Eu precisava fazer compras. Lembrei do dinheiro que o Terror tinha deixado. Parte estava no sofá. Outra parte ele tinha me dado para comprar comida. Eu ainda não gostava de usar aquele dinheiro. Mas olhei para a cozinha vazia e pensei na Luiza. Se eu estava passando por tudo aquilo, pelo menos ela não precisava continuar sem as coisas que gostava. Peguei uma sacola e subi para o quarto. Escolhi um short de cintura alta e um cropped simples. Prendi o cabelo em um r**o de cavalo alto e saí de casa. Eu sabia que não precisava ir muito longe. O mercado da comunidade ficava a poucos minutos dali. Assim que entrei, senti alguns olhares sobre mim. Seu Valdemir estava atrás do balcão. Dois vapores estavam perto da entrada, conversando. Assim que me viram, diminuíram a voz. Fingi não perceber. Peguei uma cesta e comecei a andar pelos corredores. Primeiro, procurei as coisas que a Luiza mais gostava. Peguei alguns iogurtes. Bolachas recheadas. Batatas para fazer a sopa que ela adorava. Também coloquei uma massa de letrinhas no carrinho. Ela sempre ficava feliz quando via aquelas letras no prato. Passei para as frutas. Peguei maçãs, mamão, bananas, melão, uvas e morangos. Era muita coisa para quem estava acostumada a comprar apenas o necessário. Mas minha irmã adorava frutas. E fazia meses que eu não conseguia colocar tanta variedade dentro de casa. Depois peguei leite. Parei diante do achocolatado por alguns segundos. Eu sabia que era caro. Quase nunca conseguia comprar. Mas lembrei da Luiza tomando leite puro e perguntando se um dia eu compraria aquele que via na televisão. Coloquei o pacote na cesta. — Pelo menos hoje. Murmurei para mim mesma. Peguei alguns pedaços de carne. Salsichas para fazer cachorro-quente. Arroz. Feijão. Açúcar. Pão. Depois passei pelos produtos de higiene. Peguei sabonete. Shampoo. Absorventes. E um shampoo infantil cheiroso para a Luiza. Quando terminei, a cesta estava pesada. Caminhei até o caixa. Seu Valdemir levantou os olhos Seu olhar percorreu meu rosto antes de descer para as compras. Depois voltou para mim. — Bastante coisa hoje. — É para minha irmã. Ele deu um sorriso de canto. — Parece que as coisas melhoraram. Meu corpo ficou tenso. — Não. Só estou tentando colocar comida dentro de casa. Ele passou os produtos pelo caixa sem pressa. — O povo anda comentando. Meu estômago apertou. — Eu não quero saber do povo. — Mas devia. Ele colocou as últimas compras sobre o balcão. — Quando uma mulher começa a andar protegida pelo Terror, todo mundo quer saber o motivo. Respirei fundo. — Quanto deu? Ele falou o valor. Abri a bolsa e tirei o dinheiro que o Terror havia deixado. Enquanto entregava as notas, percebi dois vapores parados perto da porta. Eles não estavam ali por acaso. Estavam me observando. Novamente. Baixei os olhos. Eu só queria pegar minhas compras e ir embora. Queria voltar para casa. Queria colocar a Luiza sentada na mesa e ver o sorriso dela quando encontrasse todas aquelas coisas. Era só isso que eu queria. Uma vida simples. Uma vida normal. Mas eu já tinha começado a entender que, depois que o Terror entrou na minha vida... Até uma ida ao mercado tinha deixado de ser algo simples.
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