Capítulo 5

941 Words
Capítulo 5 Maria Júlia (Maju) narrando Meu coração parecia que ia sair pela boca. Assim que aqueles homens deixaram a minha casa, minhas pernas simplesmente perderam a força. Eu caí sentada no sofá, encarando a porta aberta, tentando entender em que momento a minha vida tinha virado de cabeça para baixo. Meu pai continuava desacordado no quarto. Como se nada tivesse acontecido. Como se dois homens armados não tivessem acabado de entrar na nossa casa para cobrar uma dívida que eu nem sabia que existia. Respirei fundo diversas vezes. Precisava pensar. Precisava encontrar uma saída. Foi então que ouvi uma moto parando em frente à casa. Meu corpo inteiro gelou. Os passos pesados se aproximaram da porta. PH apareceu primeiro. — Maju. Levantei imediatamente. — O que foi agora? Ele evitou me olhar diretamente. — O Terror quer falar com você. Meu estômago revirou. — Eu não vou. Sorriso apareceu logo atrás. — Isso não é um convite. Engoli seco. Olhei para a escada. Meu pai continuava apagado. Se eu recusasse... Nem queria imaginar o que poderia acontecer. Peguei minha bolsa sem dizer mais nada. Saí de casa acompanhada pelos dois. O caminho até a boca parecia interminável. Eu já tinha passado diversas vezes por ali. Sempre olhando de longe. Nunca imaginei que pisaria naquele lugar. Os vapores paravam tudo o que estavam fazendo para me observar. Alguns cochichavam. Outros apenas acompanhavam minha caminhada em silêncio. Aquilo me deixava ainda mais nervosa. PH abriu a porta da sala. — Entra. Respirei fundo antes de obedecer. O Terror estava sentado atrás de uma mesa de madeira. Tinha um caderno aberto à sua frente. Uma arma descansava ao lado. Ele levantou os olhos lentamente quando entrei. — Fecha a porta. Obedeci. A sala mergulhou em um silêncio sufocante. Ele continuou me observando por alguns segundos. Parecia que tentava me ler. Como se estivesse procurando alguma mentira no meu rosto. — Senta. Continuei em pé. — Prefiro ficar assim. Ele arqueou uma sobrancelha. — Você não tem medo de mim? Olhei diretamente para ele. — Tenho. — Então por que continua me enfrentando? Respirei fundo. — Porque eu não fiz essa dívida. Ele fechou o caderno. — Eu sei. Aquela resposta me pegou de surpresa. — Então por que estou aqui? Ele levantou da cadeira. Era ainda maior de perto. Parou na minha frente. — Porque seu pai fez. Cruzei os braços. — Então cobre dele. O maxilar dele travou. — Seu pai não tem dinheiro. — Eu também não. — Mas trabalha. As palavras dele fizeram meu peito apertar. — Trabalhava. — Arruma outro. Balancei a cabeça. — O senhor acha que emprego aparece de um dia para o outro? Ele permaneceu em silêncio. Continuei. — Passei anos cuidando daquela casa sozinha. Cuidando da minha irmã. Pagando contas. Enquanto meu pai gastava tudo em bebida. Agora eu descubro que ainda devo para o morro. Como o senhor acha que eu estou? Ele continuava me olhando. Sem dizer uma palavra. Aquilo me irritava. — Eu não sou igual a ele. Minha voz falhou. — Nunca fui. O Terror respirou profundamente. Depois caminhou até a janela. Ficou alguns segundos observando a comunidade. — PH. A porta abriu imediatamente. — Fala. — Confere mais uma vez todas as contas. Quero cada valor separado. Cada assinatura. Cada empréstimo. Não quero erro. — Pode deixar. PH saiu novamente. Voltei a olhar para o Terror. — Então eu posso ir embora? Ele virou para mim. — Ainda não. Meu coração acelerou outra vez. Ele caminhou lentamente até parar bem à minha frente. — Você vai quitar essa dívida. — Como? — Trabalhando. Franzi a testa. — Trabalhando onde? — Para mim. Meu corpo inteiro travou. — O quê? — Enquanto essa dívida existir... Sua voz saiu calma. Fria. Controlada. — Você vai responder diretamente a mim. Balancei a cabeça. — Eu não vou entrar para o crime. Um pequeno sorriso apareceu no canto da boca dele. — Ninguém falou isso. — Então o que o senhor quer? — Preciso de uma nova amante. Já estou enjoado das que estão comigo. Preciso de carne fresca e você. Se eu tiver com alguém você sabe quem vai sofrer. Continuei desacreditada no que ele estava falando. — E se eu recusar? Ele sustentou meu olhar. — A dívida continua existindo. Meu peito apertou. — Eu não vou virar só amante. Ele deu mais um passo. Ficamos tão próximos que consegui sentir seu perfume misturado ao cheiro de cigarro. — Vai até porque pelo que vi você gosta muito da sua irmã. Fez uma pequena pausa. — Isso é uma consequência. As lágrimas começaram a encher meus olhos. — Minha irmã não tem culpa. — Eu sei. — Então deixa ela fora disso. Ele permaneceu em silêncio por alguns segundos. Depois respondeu: — Enquanto você cumprir a sua palavra... Ninguém encosta nela. Respirei aliviada pela primeira vez desde que tudo começou. Mas o alívio durou pouco. Porque ele completou: — Só que, a partir de hoje... Você não vive mais apenas a sua vida. Você vive sob as minhas regras. Engoli em seco. — E se eu fugir? Ele abriu um sorriso quase imperceptível. — Você não vai. — Como tem tanta certeza? — Porque você jamais abandonaria sua irmã. Meu mundo desabou naquele instante. Ele tinha razão. Eu nunca faria isso. Nunca. O Terror caminhou até a porta e a abriu. — Pode ir. Parei antes de sair. — Isso tem um nome. Ele cruzou os braços. — Tem. — Qual? Ele me encarou com a mesma frieza de sempre. — A partir de hoje... Você é uma Refém do Terror.
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