Capítulo 6
Maria Júlia (Maju) narrando
Quando saí da boca, minhas pernas pareciam feitas de algodão.
Cada passo era mais pesado que o outro.
O céu já começava a escurecer e, pela primeira vez desde que tudo aquilo havia começado, eu senti medo de verdade.
Não era medo de morrer.
Era medo de não conseguir proteger a única pessoa que ainda me fazia levantar todos os dias.
A Luiza.
Levei a mão até o rosto e respirei fundo.
As palavras do Terror continuavam ecoando dentro da minha cabeça.
"Enquanto essa dívida existir, você responde para mim."
Eu não fazia ideia de como iria pagar uma dívida daquele tamanho.
Também não sabia como seria ser amante do homem mais temido do morro.
Mas uma coisa era certa.
Eu não tinha escolha.
O toque do celular interrompeu meus pensamentos.
Olhei para a tela.
Creche.
Meu coração quase parou.
Atendi imediatamente.
— Alô?
— Maria Júlia? Aqui é da creche da Luiza.
Olhei para o relógio.
Cinco e quarenta da tarde.
Meu Deus...
Eu tinha esquecido completamente do horário.
— Me desculpa...
Minha voz saiu falhada.
— Estou indo agora.
A professora percebeu meu nervosismo.
— Aconteceu alguma coisa?
Olhei para frente, tentando controlar o choro.
— Foi um dia complicado.
Mas já estou chegando.
Desliguei sem esperar outra pergunta.
Apressei os passos pelos becos.
Minha cabeça estava tão cheia que nem percebia as pessoas passando ao meu lado.
Alguns vapores me observavam discretamente.
Outros apenas cumprimentavam.
Talvez fosse impressão minha...
Mas parecia que todo mundo sabia que eu tinha acabado de sair da sala do Terror.
E isso era suficiente para me deixar completamente desconfortável.
Assim que cheguei à creche, vi Luiza sentada no banco da entrada.
Ela balançava as pernas enquanto desenhava em uma folha de papel.
Quando me viu, abriu um sorriso enorme.
— Mana!
Ela correu e me abraçou.
Abracei minha irmã com toda a força que consegui.
Naquele instante, todo o peso do mundo desapareceu por alguns segundos.
— Desculpa pela demora.
Ela sorriu.
— Achei que você tinha esquecido.
Beijei sua testa.
— Nunca.
A professora entregou a mochila dela.
— Ela ficou preocupada, mas se comportou muito bem.
— Obrigada por cuidar dela.
Seguimos caminhando de mãos dadas.
Luiza falava sem parar sobre a escola.
Contava das brincadeiras.
Do desenho que tinha feito.
Da música nova que aprenderam.
Eu tentava prestar atenção.
Mas minha cabeça insistia em voltar para a conversa que tive na boca.
— Mana...
Olhei para ela.
— Você tá triste?
Forcei um sorriso.
— Só estou cansada.
Ela apertou minha mão.
— Quando eu crescer, vou trabalhar e comprar uma casa bem bonita pra gente.
Senti meus olhos marejarem.
— Tenho certeza que vai.
No caminho encontramos um carrinho de sorvete.
Quem empurrava era um rapaz conhecido da comunidade chamado Diego.
Assim que viu a Luiza, abriu um sorriso.
— Hoje tem sorvete para minha cliente favorita.
Ela bateu palmas.
— Chocolate!
Ele entregou o picolé para ela e depois olhou para mim.
— E o seu de morango?
Sorri sem graça.
— Hoje eu passo.
Ele franziu a testa.
— Você nunca recusa sorvete.
— Hoje não estou com vontade.
Diego me encarou por alguns segundos.
— Tá tudo certo?
Assenti rapidamente.
— Só foi um dia difícil.
Ele respeitou meu silêncio.
— Melhoras então.
Seguimos nosso caminho.
Quando chegamos em casa, coloquei a Luiza para assistir desenho enquanto fui preparar alguma coisa para comer.
A geladeira estava praticamente vazia.
Consegui fazer apenas arroz, ovo e uma salada simples.
Enquanto terminava a comida, ouvi passos pesados descendo a escada.
Meu pai apareceu coçando a barba, ainda com a roupa amassada e o cheiro forte de álcool.
Sentou-se à mesa como se nada tivesse acontecido.
— Tem janta?
Respirei fundo.
Minha vontade era mandar que ele mesmo fizesse.
Mas a Luiza estava ali.
— Tá quase pronta.
Ele bocejou.
— Dormi demais.
Luiza apareceu segurando uma folha de papel.
— Papai, olha o desenho que fiz.
Ele nem levantou a cabeça.
— Depois eu vejo.
O sorriso dela desapareceu.
Peguei o desenho das mãos dela.
Era uma casinha colorida, três pessoas de mãos dadas e um cachorro enorme ocupando metade da folha.
Sorri.
— Ficou lindo.
Ela abriu um sorriso de orelha a orelha.
Meu pai soltou uma risada debochada.
— Isso aí é um monte de rabisco.
Olhei para ele indignada.
— Custa incentivar sua própria filha?
Ele deu de ombros.
— Criança desenha qualquer coisa.
Minha paciência acabou.
— Assim como o senhor faz qualquer coisa com a nossa vida?
Ele levantou os olhos pela primeira vez.
— O que foi agora?
Cruzei os braços.
— Hoje vieram cobrar uma dívida de meses.
Aluguel.
Empréstimos.
Compras de drogas.
Tudo feito no seu nome.
O semblante dele mudou.
Mas durou apenas alguns segundos.
— Depois eu resolvo.
Soltei uma risada sem humor.
— Resolve?
Apontei para a sala.
— O Terror esteve dentro desta casa hoje.
Ele arregalou os olhos.
— O quê?
— Isso mesmo que o senhor ouviu.
Pela primeira vez, vi meu pai perder a cor do rosto.
E naquele instante...
Ele finalmente percebeu que as consequências dos próprios erros tinham batido à nossa porta.