A reunião foi um desastre, para dizer o mínimo. Os accionistas ficaram inquietos, e o clima pesava sobre todos os presentes. O foco era a filial no México, e o relatório que Jack, meu braço direito, entregou confirmou nossos piores temores: alguém está desviando dinheiro. Não foi apenas uma crise financeira que incomodava, mas também o impacto que isso teria na imagem da empresa. O alvoroço dos accionistas foi revelado, e meu humor afundou em cada nova cobrança.
E, no entanto, enquanto ouvia as vozes elevadas no salão, minha mente vagava para outro lugar. Ou melhor, para outra pessoa. Líria. Aquela ruiva de língua afiada que me conseguiu me tirar do sério e, ao mesmo tempo, mexer com algo dentro de me que eu preferia ignorar. Não entendi como ela conseguiu invadir meus pensamentos dessa forma. Amanhã, antes de sair para o escritório, decidirei isso de uma vez por todas. Pedirei à senhora Borges que a dispense. Inventaremos uma desculpa plausível e garantiremos uma boa indemnização. Não posso ter ela por perto. Ela desperta algo em me que prefiro manter enterrado. Algo perigoso.
Há anos vivo seguindo regras claras. Mulheres maduras, encontros rápidos, nada que dure mais de uma noite. Era assim que funcionava. Eu sabia o que elas queriam — meu dinheiro, meu nome, meu status. Algumas até fingiam desinteresse, mas sempre havia a mesma intenção oculta: agarrar uma oportunidade que as levasse ao altar comigo. Era um jogo que eu já dominava, e as regras me mantinham no controle.
Mas agora, uma garota de pouco mais de 1,50 metro, com olhos que enxergam direto através de mim, ameaçava bagunçar tudo. Não, isso não vai acontecer. Regras são para serem cumpridas, e uma delas é clara: nunca me envolvo com funcionárias.
Fui arrancado desses pensamentos pelo toque do meu celular. Olhai o visor e vi o nome da minha mãe brilhando.
— Mãe, como sempre, você sabe a hora exata para ligar.
— Filho, é claro que sim! Eu sei de tudo. Como está meu menino querido?
— Bem cansado, mas sobrevivendo. E você?
— Ótima. Preparei um jantar especial. Quero que você venha jantar connosco.
Visitar meus pais e meu irmão sempre foi bom, mas hoje não era o dia. A reunião me esgotara e, para piorar, a sombra de Líria ainda pairava sobre minha mente.
— Mãe, hoje vou ter que recusa. Preciso descansar.
— Tudo bem, mas na próxima não tem desculpa. Cuide-se, querido.
Quando cheguei em casa, o cansaço parecia menos avassalador ao estacionar minha Ferrari. Carros são uma das minhas paixões, e participar de leilões para expandir minha colecção era algo que eu gostava. Enquanto caminhava em direção à entrada, meus olhos a captaram: Líria. Ela estava voltando de algum lugar, carregando algumas sacolas. Não a chamei, apenas fiquei parado, observando-a enquanto desaparecia no chalé onde ela morava.
Dentro de casa, fui recebido pela senhora Borges, como de costume.
— Senhor Logan, aconteceu alguma coisa? — Disse ela, notando meu olhar distante.
— Sim... e não. preciso falar com você no meu escritório.
Ela concordou e subiu para guardar minhas coisas, enquanto eu caminhava para o escritório. O plano era claro: liberar Líria antes que isso escapasse do meu controle. Não era meu costume interferir diretamente nas contratações, mas ela acordou em me um desejo que fosse além do físico. Era como se minha própria essência fosse desafiada, e isso era algo que eu não podia permitir.
Não demorou para a senhora Borges entrar no escritório.
— Senhor Logan, o que houve?
— Por que você contratou uma menina tão jovem?
Ela parecia surpresa com minha pergunta, mas manteve a compostura.
— Bem, senhor, a maioria das candidatas eram casadas e tinham filhos, o que se tornou inviável que morassem aqui. Líria, apesar de jovem, é extremamente competente. Além disso, ela tem uma situação difícil. Trabalha desde cedo para sustentar a avó, que está com câncer nos pulmões. O salário aqui é essencial para pagar o tratamento dela.
As palavras dela me atingiram. Lá estava eu, tentando destruir a estabilidade dessa garota por puro capricho. O que eu estava pensando afinal?
— Entendo — disse, mais para me mesmo do que para ela. — Mas jovens são imprevisíveis. Eles têm vícios, amigos, festas... isso pode se tornar um problema.
— Não se preocupe, senhor. Líria não é assim. É reservada, focada e está estudando moda à noite. Será de grande ajuda para me..
Assenti, incapaz de sustentar mais desculpas.
— Muito bem, senhora Borges. Pode ir para casa.
Quando ela saiu, respirei fundo. Sabia que eu precisava esquecer Líria. O mundo estava cheio de tentativas, e eu nunca cedi. Não seria diferente agora.
Depois de um banho e roupas confortáveis, desci para o jantar. A mesa já estava posta, mas decidi ir à cozinha avisar Vera que poderia servir. Ao chegar, parei na porta.
Lá estava ela, dançando e cantando enquanto mexia uma panela. Os cabelos ruivos balançavam, e havia algo surpreendentemente espontâneo naquele momento. Quando ela girou, nossos olhos se encontraram.
Por um instante, o mundo parou.
E foi ali que percebi: manter distância de Líria seria muito mais difícil do que eu imaginava.