Capítulo 3

1872 Words
Não fui às aulas na segunda-feira. Eu disse que estava com gripe e fiquei na cama, de frente para a parede. E a minha irmã me trouxe sopa de micro-ondas e biscoitos de caixa, e eu disse a ela que estava chorando apenas porque minha cabeça doía. Terça-feira, consegui me recompor. Nada aconteceu, na verdade. Charlie não tinha me estuprado de verdade. Eu era a mesma garota que era antes. Não era como se eu tivesse que vê-lo novamente também. Eu não tinha aulas com ele. Ele era um veterano, e nós não andávamos nos mesmos círculos. E ninguém mais sabia o que tinha acontecido. Eu tinha decidido não contar a ninguém, então tudo o que eu tinha que fazer era sorrir e fingir que nada tinha acontecido. Fácil. Moleza. Se não foi exatamente fácil, ao menos foi possível. Tão possível quanto havia sido quando minha mãe morreu, cinco anos atrás, e os colegas da universidade sussurraram pelas minhas costas, apontando como se o luto fosse uma deformidade. Eu coloquei um sorriso no rosto e agi como se não significasse nada. Como se não doesse. Aquela experiência com a tragédia me ensinou uma lição valiosa sobre como sobreviver ao insuportável — você sorri, você acena e continua em frente. Porque não há alternativa. Naquela noite, eu estava mais uma vez fazendo um extra no The Luxe. Cheguei cedo, como de costume. O som dos copos tilintando e das conversas abafadas preenchia o ar com aquela familiar euforia contida de uma noite começando. Eu estava atrás do balcão, organizando as garrafas pela ordem que Christopher gostava — gin, vodka, bourbon, tequila — quando senti uma mudança na energia do ambiente. Como se o ar tivesse ficado mais pesado. Ou mais afiado. Levantei os olhos e o vi. Travis Smith. Alto, postura rígida, gravata frouxa e olhos escuros como lâminas afiadas. Havia algo nele que não se encaixava com a atmosfera calorosa do The Luxe — ele parecia deslocado ali, como se tudo ao redor fosse inferior ao seu próprio senso de ordem. Mas, mesmo assim, ele preenchia o espaço. Como se sempre tivesse pertencido. — Então você é a tal Emma Clark — ele disse, andando até o bar com passos calculados. Não era uma pergunta. Era uma constatação. Um veredito. Os outros bartenders se calaram. Edward parou de limpar o copo e ficou observando, e até Carly, que nunca perdia a chance de flertar com qualquer novidade masculina, recuou um passo. Engoli seco. — Sim. Posso ajudar? — Isso ainda vamos ver — ele respondeu, encostando-se ao balcão. Seus olhos me analisaram com precisão cirúrgica. — Ouvi dizer que você é eficiente. Mas também... problemática. Gosta de chegar cedo, mas não gosta de seguir as regras. É isso? Minha garganta secou. — Eu sigo as regras. — Ah, é? — Um sorriso lento curvou sua boca, sem nenhuma gentileza. — Foi o que disse quando resolveu subir pela entrada VIP naquela noite? Ou quando trocou de turno com Emília sem passar por mim? Todos estavam ouvindo agora. Meus olhos encontraram os de Emília por um segundo, mas ela desviou o olhar, envergonhada. — Eu não pensei que… — Exato. Você não pensou — Travis interrompeu, a voz baixa e controlada, mas cortante como uma navalha. — Aqui, Clark, pensar é a primeira exigência. Se você pretende continuar nesse bar, vai precisar fazer mais do que parecer competente. Vai precisar obedecer. Cada detalhe importa. A humilhação me esquentou o rosto. Eu queria responder, dizer que ele estava sendo injusto, que estava exagerando. Mas, no fundo, eu sabia que ele estava certo. E pior: ele sabia que eu sabia. — Entendido, senhor Smith — murmurei, firme apesar do nó no estômago. Ele sorriu novamente, mas dessa vez havia algo quase imperceptível por trás daquele gesto — como se estivesse testando os limites. Observando minha reação. Se divertindo. — Ótimo. — Ele se afastou devagar. — Vamos ver se você é tão boa quanto dizem. Ou só mais uma decepção tentando parecer fogo quando não passa de faísca. E então foi embora, como se não tivesse acabado de colocar todos os olhos em mim. Fiquei ali, imóvel, tentando recuperar o fôlego. E, mesmo envergonhada, irritada e humilhada… parte de mim estava elétrica. E isso me enfurecia ainda mais. Era Travis quem estava lá. Sentado atrás do laptop, com uma expressão concentrada. Ele vestia calça cinza, camisa social e uma gravata discreta por baixo de um pulôver preto. E, como se pudesse sentir minha presença, seus olhos se levantaram exatamente no instante em que os meus o encontraram. Congelei. Fiquei paralisada, incapaz de dar mais um passo. Meus joelhos cederam levemente, e o suor escorreu pela minha testa. Ele era um gatilho. Todo o meu teatro desmoronou e, de repente, eu estava de volta naquela noite. Eu podia jurar que sentia a palma da mão de Charlie sobre a minha boca, abafando meus gritos. O som do nariz dele estalando sob o golpe ainda ecoava nos meus ouvidos. Uma onda de emoção me invadiu com força total. Mas não era apenas terror ou humilhação o que eu sentia. Havia algo pior, escondido por baixo. Algo feio. Algo inegável. E, assim que reconheci aquele sentimento, corei de pânico. Travis percebeu. Seus olhos se estreitaram e o queixo se ergueu levemente, curioso. Eu queria me virar e sair correndo daquele bar como se fosse um incêndio. Mas isso só chamaria atenção — e minhas pernas estavam moles demais para cooperar. Então deslizei para um assento atrás do bar e abaixei a cabeça, fingindo que meu comportamento não era esquisito. Fingindo que não percebia que ele ainda estava me observando. Na verdade… eu nem estava fingindo. Eu não me importava se ele estava me observando. Nem me importava em monitorar Edward, como normalmente fazia. Eu poderia perder aquele emprego naquela noite e, naquele momento, não daria a mínima. Porque eu precisava entender o que, diabos, estava acontecendo comigo. Meu coração batia como se estivesse correndo uma maratona. Minhas roupas estavam sufocantes, a pele pegando fogo. Eu me sentia inquieta, desconfortável. Mas não era por causa de Charlie que eu me sentia assim. Era por causa de Travis. Desde a maneira como ele me provocou no andar proibido até a forma como tomou controle da situação com Charlie. Desde o modo como sua mandíbula tensionava enquanto me observava, até a intensidade absurda dos seus olhos sobre mim. Deus, aqueles olhos... Arrisquei um olhar furtivo enquanto ele se levantava para começar a aula. Um arrepio atravessou minha espinha. Me remexi no assento, tentando aliviar a tensão — em vão. E então ele começou a falar. A voz dele era um golpe direto nos meus sentidos. Eu bebia cada palavra, mesmo sem absorver uma única delas. Eu estava, definitivamente, ferrada. Tinha que haver uma explicação plausível. Talvez eu estivesse tendo um colapso. Um surto psicótico. Minha mente tentando ressignificar uma experiência traumática, conectando Travis àquela noite no lugar de Charlie. Era isso, certo? Um tipo de mecanismo de defesa, deturpado. Mas não era exatamente conforto o que eu sentia. Era outra coisa. Uma coisa sombria, impura, desconcertante. Uma coisa que me deixava inquieta e culpada. Cruzei e descruzei as pernas uma centena de vezes durante a palestra, odiando o próprio corpo por reagir daquele jeito. Odiando Travis por causar isso em mim. Por saber demais. Não só sobre Charlie. Mas sobre mim. Sobre aquelas verdades escondidas que ele enxergou com facilidade naquela noite. Aquilo parecia uma invasão. Como se ele tivesse aberto uma porta que eu não dei permissão para ser aberta. E eu também estava com raiva porque ele demorou. Porque não veio rápido o suficiente. Porque, depois de me salvar, nem parecia certo se eu estava realmente bem. Mas o que me deixava mais irritada eram os pensamentos que eu estava tendo sobre ele. Mesmo que não fossem culpa dele — ou fossem. Se Travis não tivesse lidado com aquela noite daquele jeito tão confuso, eu talvez não estivesse tão perturbada agora. Então sim, talvez eu pudesse culpá-lo também. No fim das contas, não importava. Era eu quem teria que lidar com aquilo. Não era como se ele se importasse com o que aconteceria comigo depois do pesadelo. Eu me viraria. De algum jeito. Depois da que foi, sem dúvida, a hora mais longa da minha vida, a palestra de Travis finalmente chegou ao fim. Assim que ele encerrou, saí num impulso, subindo as escadas para evitar passar por ele no corredor inferior. Eu devia encontrar com uma amiga, mas antes precisei passar no vestiário para trocar de calcinha. Sim. Tinha sido tão r**m assim. Achei que, longe da presença dele, tudo aquilo passaria. Pensei em Edward para clarear a mente. Ele era o cara que eu gostava. Era ele que me dava borboletas no estômago, só de pensar. Ainda dava. Em teoria. Mas, ao longo do dia, me peguei pensando em Travis mais vezes do que gostaria. Imaginando finais alternativos para aquela noite. E se ele tivesse me oferecido uma carona depois que Charlie foi embora? E se ele tivesse dito outra coisa? Feito outra escolha? E eu me envergonhava de mim mesma por pensar nisso. Mas foi exatamente dessas fantasias que surgiu a ideia de como lidar com os pesadelos. Naquela noite, quando acordei tremendo, com o fantasma do toque de Charlie ainda grudado na pele, deslizei minha mão por baixo da calcinha — e substituí a memória com pensamentos sobre Travis. — Ele te machucou muito? — ele perguntou, segurando minha bochecha enquanto Charlie mancava pela rua. Sua mão estava quente contra minha pele, hesitante sem ser gentil. — Não muito — sussurrei, olhando em seus olhos verdes. Meu acompanhante parou no meio-fio e nós dois nos viramos em direção a ele, mas em vez de ir embora, Travis me puxou para seus braços. — Deixe-me cuidar de você esta noite. — Com um aceno de cabeça, ele mandou o carro embora. Então ele se abaixou sobre os joelhos e puxou minhas calças para baixo, puxou minha calcinha para baixo, sem pedir permissão nem se desculpar por sua ânsia. Mas eu o queria, então foi diferente de quando Charlie me forçou. O ar estava frio em minhas pernas nuas, mas logo tudo o que senti foi o calor de sua língua entre minhas coxas. Ele lambeu meu c******s para cima e para baixo agressivamente várias vezes, então enfiou sua língua até um ponto e a inseriu dentro de mim. Dormi profundamente até de manhã. O que quer que Travis tenha feito comigo, não importava, estou aprendendo a lidar com isso. Aprendi a não olhar nos olhos dele. Parei de me importar se quase todos os dias eu tinha que vê-lo no The Luxe Lounge. Fiz o que sempre fazia — sorri, assenti e continuei. E à noite, eu continuava a acalmar meus sonhos com fantasias dele me tocando e me fodendo, geralmente em alguma versão estranha do meu ataque. Às vezes, isso acontecia depois que ele tirava Charlie de cima de mim. Às vezes, Charlie nem estava lá. Às vezes, eu pedia para ele fazer isso. Às vezes, eu implorava. E às vezes — muitas vezes — ele era tão insensível e c***l quanto Charlie tinha sido.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD