Capítulo 2

2347 Words
Peguei meu casaco no salão, no andar principal, onde todos empilharam seus casacos, e corri para fora, amarrando-o na cintura enquanto descia os degraus da frente do The Luxe. Tirei meu telefone do bolso e olhei as horas. Era tarde demais para arriscar voltar para casa sozinha. Não era longe, mas este era o território do campus, e eu era o tipo de garota que acredita que é melhor prevenir do que remediar. Usei meu aplicativo para providenciar uma escolta, guardei meu telefone e esfreguei as mãos para mantê-las aquecidas. Era uma noite fria. O outono chegou bem na hora em Massachusetts. Mas que diabos, como eu voltaria para dentro? Eu preferia congelar. O que foi i****a. Eu só estava me punindo quando, na verdade, queria punir Travis. Que p***a foi essa, afinal? Repassei toda a nossa conversa enquanto andava de um lado para o outro na calçada da frente, tentando entender o que, exatamente, tinha acontecido entre nós. Tudo parecia estranho, ligeiramente inapropriado... mas havia algo mais. Algo que escapava à lógica. Algo que eu não conseguia nomear. Eu nunca deveria me envolver com alguém como Travis Smith. Assim como não deveria ter me envolvido em tantas outras situações erradas. Mas havia algo nele — algo magnético, perigoso. Ele me atraía como um vício. Era isso que se dizia sobre Travis: que ele era um mestre das cordas. Um manipulador habilidoso. Um encantador de serpentes que fazia você se aproximar por vontade própria — mesmo quando sabia que seria mordida. E, de algum modo, ele tinha me puxado direto para seu jogo. Mas por que ele ficou tão frio no final? Claro. Esse devia ter sido o plano o tempo todo. Me flagrar onde eu não deveria estar. Me fazer tremer com cada palavra, cada olhar. Me mostrar que ele tinha o controle. Ele ainda estaria lá dentro agora? Me observando pela janela? Quase pude ver o brilho âmbar do seu charuto no escuro. Quase senti seus olhos percorrendo minha pele como um toque real. O pensamento me fez estremecer de calor e frio ao mesmo tempo. Me senti menos sozinha… e mais sozinha do que nunca. Virei a esquina e entrei em um beco, tentando evitar ser vista. No final dele, avistei um colega da faculdade — completamente bêbado. Me encolhi por reflexo, esperando que ele não me reconhecesse. — p***a, tá frio pra caramba aqui fora — resmungou ele. Minha colega de trabalho, Sarah, vinha logo atrás, pendurada no braço de um cara que parecia ser seu acompanhante da noite. — Suas bolas estão geladas? — ela riu, tropeçando levemente nos próprios passos. — Minhas bolas estão ótimas — disse o sujeito, rindo com ela. — Você tem um problema com sua anatomia — retrucou Sarah. — Minha anatomia é perfeita. — Você vive tentando me mostrar isso. Tem certeza de que não quer me dizer outra coisa? Charlie bufou com desdém. Eu abaixei a cabeça, tentando me encolher nas sombras perto da escada lateral. Interações sociais já não eram meu forte em condições normais — muito menos com gente bêbada. E hoje, definitivamente, eu não queria falar com ninguém. Mas meu movimento chamou a atenção dele. — Olha só quem está aqui? — murmurou, entre olhos semicerrados. Peguei o celular e fingi digitar algo, rezando para que ele perdesse o interesse. — Emma Clark — ele disse alto demais. — A mais santinha da sala. Arregalei os olhos, o estômago se revirando. — Ei, Emma. Você tá bem? — Sarah se virou para mim, preocupada. — Sim — respondi rapidamente, guardando o celular no bolso. Sarah piscou, desconcertada, mas assentiu. Nunca fomos muito próximas — nossas agendas não batiam e, honestamente, o namorado dela ocupava todo o seu tempo. Charlie deu um sorriso torto, como se dissesse "ufa, não vou ter que fingir gentileza com essa menina agora". — Vá com cuidado. Me liga se precisar de ajuda, tá? — Ok — Sarah respondeu, ainda desconfiada. Ela se afastou com o namorado, que abriu a porta do carro como um cavalheiro. Charlie passou as mãos pelos cabelos, como se espantasse o torpor da bebida. Mas, em vez de seguir pela avenida movimentada, ele entrou numa rua escura e quase deserta. — Você não deveria ir por esse caminho a essa hora. — Realmente, não deveria. Nem deveria estar ali sozinha com Charlie. — Emma — disse ele, se aproximando. Mais do que eu gostaria. — Você é muito mais bonita do que deixa transparecer. Aposto que dizem isso o tempo todo, não dizem? — Ninguém fala isso pra mim — respondi, puxando o elástico do meu r**o de cavalo, desviando o olhar. Ele estendeu a mão e puxou o cinto do meu casaco, abrindo-o. — Por que você esconde essa beleza toda? — Com licença? — virei o rosto, assustada, e puxei o casaco de volta. Mas ele não me soltou. — Aposto que tem um corpo incrível por baixo disso aí. — Charlie, obrigado, mas estou desconfortável com isso. Com o que você está dizendo... e fazendo. Ele estava bêbado, mas ainda assim... não era brincadeira. Ele sabia o que estava fazendo. — Eu realmente não me importo se você está desconfortável, Emma. Seu hálito fedia a cerveja, mas suas palavras saíam perfeitamente nítidas. — Charlie. Por favor... — minha voz saiu engasgada. Ele fungou — de frio ou de prazer doentio, não consegui distinguir. — Por favor, o quê? — disse, como se não soubesse por que eu estava implorando. — Deixe-me ir. Ele fingiu pensar. Então balançou a cabeça, com pesar teatral. — Olha... — disse, passando o polegar pelo meu lábio inferior, que tremia. — Eu não quero complicar isso. Então vai ser assim: eu vou te f***r. Você pode tornar isso fácil... ou difícil. De qualquer forma, nós dois sabemos quem tem o poder aqui. Não pensei. Gritei. — Socor... A mão dele tapou minha boca antes que o som escapasse. Ele sorriu. — Eu estava torcendo pra você escolher o caminho difícil. Eu gosto quando elas lutam. Me faz gozar mais rápido. — f**a-se — murmurei contra a palma dele. Eu sabia que não tinha chances. Ele era grande. Forte. Eu era só uma garota. Mas mesmo assim, lutei. Empurrei seus ombros. Acertei um joelho entre suas pernas. Me debati. Gritei. Charlie apenas riu. — Isso, baby... Ele pressionou o corpo contra o meu, me imobilizando com as pernas. Com a mão livre, desabotoou as calças. Tirou o p*u pra fora. Comecei a chorar mais alto. Eu já tinha visto um antes. Tinha tido um namorado. Já tinha feito sexo oral. Mas nunca tinha ido além disso. O corpo de Charlie, seu cheiro, tudo nele era repulsivo. Eu não o queria nem perto. Muito menos dentro de mim. Eu precisava sair dali. Levei minhas mãos ao rosto dele e arranhei com toda a força. Ele gritou, largando o p*u pra se defender. Prendeu meus pulsos sob meus s***s e, com a outra mão, cobriu meu nariz e boca. Estava me sufocando. — Vai ficar quieta? Meus pulmões queimavam. Minha visão escurecia. O pânico tomou conta. — Respira fundo. Assenti com a cabeça, mesmo sentindo que já não conseguia mais. Ele não moveu a mão. Eu assenti com mais força. Eu chorei mais forte. Desesperada. Finalmente, ele moveu a mão para baixo, bem de leve, para que minhas narinas ficassem descobertas. Eu inalei ar frio em longas e crepitantes tragadas, pegando o máximo que conseguia pelo nariz. Meu peito subia e descia com cada respiração ofegante. Lentamente, Charlie soltou minhas mãos, me olhando outra vez em advertência enquanto continuava a acariciar seu pênis. Eu entendi. Ele tinha o poder. Eu não. Lição aprendida. Lição aprendida, p***a. Eu ainda lutava. Não conseguia evitar. Era como um reflexo. Como naquela vez em que fui à pedicure e não consegui evitar chutar a moça porque eu estava com muita cócega. Eu me forcei a cooperar com Charlie, e ainda assim meu corpo lutou contra ele. — Tire sua calça jeans — ele ordenou depois de se masturbar por um minuto, com a voz tensa. Não. Por favor, não, não faça isso. Eu não me movi. Eu não consegui. Ele colocou a mão sobre minha boca, levemente em direção ao meu nariz — ameaçando — mas eu já estava desfazendo o fecho. Abrindo o zíper. Lágrimas escorriam pelo meu rosto enquanto Charlie afastava minhas mãos. Ele lambeu dois dedos e murmurou: — Não quero enfiar seco. Então enfiou os dedos dentro da minha calcinha, procurando o que queria encontrar. Um soluço borbulhou do fundo do meu peito. Fechei os olhos, querendo estar em qualquer outro lugar, me rendendo a uma enxurrada de pensamentos desordenados e desesperados. Um fluxo de consciência em pânico. Eu não estou aqui. Estou em outro lugar. Estou na praia. Estou na Riviera Maya. Não posso contar pro meu pai. Ele vai ficar furioso. Você pode ter queimaduras de frio em outubro? Aquela ruiva tinha s***s bonitos. Qual era o nome dela mesmo? É só minha virgindade. É só sexo. Conto pra minha irmã? Isso é tão humilhante. Eu devia ter esperado dentro da casa. Tá tão frio. Quem era a loira naquela foto no quarto do Travis? A última viagem com o papai pro Riviera Maya foi em outubro. Vai fazer cinco anos em dezembro. E se ele me machucar de verdade? Espero que ninguém saia e veja isso. Não posso contar pra minha irmã. Não posso contar pra ninguém. Nicole. Eu continuo esquecendo o nome dela de propósito. Sinto falta da minha mãe. Por favor, Deus. Que alguém venha. Que alguém faça isso parar. Eu ainda estava ciente de tudo ao meu redor. Ciente demais. Eu sabia que jamais esqueceria o cheiro do xampu de Charlie. Da colônia barata. Do barulho do relógio dele no silêncio, cada segundo ecoando como uma eternidade. O som das unhas dele arranhando as paredes do meu corpo. Mas eu não devia estar tão atenta quanto achava, porque não ouvi os passos na rua. Não vi quando Travis agarrou Charlie pela jaqueta e o arrancou de cima de mim. Só vi o soco. O estalo. O sangue jorrando do nariz dele. — Que p***a é essa?! — Charlie gritou, uma mão no nariz, enquanto com a outra puxava as calças para cima às pressas. — Jesus, Smith! Meus joelhos quase cederam de alívio. Eu estava livre. Livre das mãos suadas de Charlie, do seu corpo sufocante. Me afastei do canto onde tinha sido encurralada, com medo de ficar presa ali de novo, e fechei as calças com as mãos trêmulas. O choque cortou meu choro. Eu me sentia inteira por fora, mas minhas mãos não paravam de tremer. Charlie deu um passo pra trás, assustado, mas Travis o agarrou pelo braço e o puxou de volta. — Eu disse que tinha acabado? Charlie era maior, mais forte, mas Travis não parecia nem um pouco intimidado. Mordi o lábio trêmulo e cruzei os braços ao redor do corpo. Travis podia estar no controle, mas eu ainda estava com medo. Medo demais pra sair dali e pedir ajuda. Entorpecida. — Ei, não sei o que você acha que viu… — Charlie começou, mas Travis o cortou. — Você não tem direito de falar. — E puxou o braço dele de novo, com força. — Depende da Emma. Se ela quiser prestar queixa. Emma? Travis virou para mim, os olhos verdes queimando nos meus, como se tentasse me encontrar no meio da confusão. Talvez eu estivesse mesmo perdida. Pisquei. Ele tinha feito uma pergunta. — O quê? — consegui dizer. — Você quer prestar queixa contra o Charlie? A realidade me atingiu com força. Eu tinha sido agredida. Aquele desgraçado tinha enfiado os dedos dentro de mim. Se Travis não tivesse aparecido, ele teria me estuprado. Engoli em seco. Claro que eu queria denunciar. Mas… Pensei nas consequências. Visualizei a manchete mental: Garoto branco rico acusado por desconhecida. Festa, bebida. Nenhum estupro “completo”. A bolsa de estudos dele em risco. A minha palavra contra a dele. Não havia cenário onde eu sairia vitoriosa. Por mais que eu quisesse justiça. Por mais que o mundo precisasse de vozes como a minha, não era isso que eu queria para mim. Era vergonhoso admitir, mas era a verdade. — Tá tudo bem — murmurei, sentindo uma lágrima escorrer pela bochecha. Tudo o que eu queria era esquecer. Tomar um banho. Fingir que isso nunca aconteceu. — O quê? — Travis insistiu, forçando-me a repetir. — Eu não vou prestar queixa — repeti, mais firme. — Desculpa. Eu nem sabia pra quem estava pedindo desculpas. Talvez pra mim mesma. Talvez por cada vítima que nunca teve a chance de ver seu agressor algemado. — Tudo bem. Travis soltou Charlie, mas quando ele se virou, Travis deu uma joelhada certeira entre suas pernas. — Você merece muito mais, seu babaca. Infelizmente, o sistema legal dos EUA não vai te punir como deveria. Mas o meu dinheiro vai te fazer desaparecer. Você não é mais bem-vindo. Nenhum negócio com as nossas famílias. Seus investimentos estão cancelados. Agora some da minha frente. Você tá sangrando no meu sapato. Charlie limpou o nariz com as costas da mão, fez menção de reagir, mas pensou melhor e recuou. — Tudo bem. Tudo bem, Smith. Não sabia que você tava afim dessa vagabunda. — Cai fora, p***a! — Travis gritou. O tom, o olhar, a postura diziam tudo. Charlie saiu correndo. Eu ainda tremia. Ainda chorava. Enxuguei o rosto com as costas da mão e me virei para agradecer ao Travis, mas um carro parou no meio-fio. Era minha amiga. Que noite. Quando voltei a olhar pra Travis, ele já estava indo embora, sem nem um “Você está bem?”. Sem sequer um adeus. Chorei o caminho inteiro de volta pra casa. Chorei mais uma hora no chuveiro. Só bem depois, encolhida em posição fetal na cama, percebi que o carro de Travis ainda estava estacionado lá fora. Ele viu tudo pela janela. Ele desceu do carro pra me salvar.
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