Acidente

1536 Words
Olho para o retrovisor, percebendo o carro vermelho se aproximando em alta velocidade. Em pânico, piso com força no acelerador, tão fundo que chego ao limite de velocidade fisicamente possível. Percebo o ponteiro do velocímetro batendo no máximo do velocímetro. O meu coração está batendo freneticamente no peito. Volto a atenção para o retrovisor, está chegando mais perto. Caço ao redor uma saída. A estrada está vazia. O que eu faço?...o que eu faço? Cadê a polícia quando se precisa. É quando vejo uma estrada adiante, por onde passa a linha do trem. Vi coisas do tipo muitas vezes na tv. O que posso fazer? É loucura! Percebo o carro mais perto. Consigo ver a silhueta do motorista. Eu sabia! Está tentando me m***r. Então é quando tomo a atitude impensável, mas movida pelo meu desespero. É minha única alternativa. Nunca dei o devido valor as minhas memórias. Julgo que talvez por causa disso que isso aconteceu comigo. O meu pesadelo começou tão agradável como um sonho... Não qualquer sonho. Aqueles sonhos que você deseja antes de ir dormir. Daqueles em que tudo é perfeito. Daqueles dos quais você não quer acordar. Os raios de sol incomodam os meus olhos me forçando a abri-los. A claridade é tão intensa que os fecho imediatamente em seguida. Quando tento novamente, demoro alguns segundos para me acostumar com a luz. Posso ouvir alguém ao fundo. —Ela está acordando? — uma voz desconhecida é audível. Dou-me conta que o local ao meu redor é completamente branco. d***a! Um hospital. O que houve? Por que estou aqui? Tento mover-me, porém, sinto um incómodo no corpo e percebo que os meus membros parecem não responder aos meus esforços. Vasculho ao meu redor em desespero. — Espere, preciso avaliá-la — um homem de meia-idade diz se aproximando de mim. Ele tem uma espécie de caneta com luz na ponta. Consigo identificar o nome Sampaio no seu jaleco branco. Enquanto ele toca o meu rosto e parece avaliar as minhas pálpebras. Quero questioná-lo, mas é como se a minha boca estivesse tão seca quanto o deserto e nenhum som sai. — Está me ouvindo Senhora Lemann? — o doutor pergunta, no entanto, sou incapaz de pronunciar qualquer coisa. Parecendo perceber a minha situação ele prossegue. — Não se preocupe. Agora foque-se em seguir a luz. Você consegue? Só com os olhos — pede. A sua voz é gentil e faço o que ele pediu. Espera! Ele me chamou de senhora? Ninguém nunca me chamou assim. Lemann? Le..mann? Não reconheço esse nome. Então dou-me conta que não consigo lembrar-me do meu nome. O desespero aumenta com esta constatação. — Ela parece bem...os sinais vitais estão bons, os reflexos também e os exames não apresentam nenhuma alteração grave — o médico parece estar falando com outra pessoa. Bem?! Como posso estar bem? Não consigo mover-me. Não consigo falar. Não consigo se quer me lembrar quem sou. A minha visão se torna turva. A minha frequência cardíaca cada vez mais rápida e o bipe da máquina ao meu lado comprova isto. Não, não, não... n******e ser real. Isto deve ser algum pesadelo. — Doutor acho que ela não está bem— a voz desconhecida denuncia pânico. Busco a sua origem e é quando sinto o médico voltar para o meu lado, na cama. — Acalme-se senhorita Lemann — o homem pede suavemente ainda que com certa firmeza e preocupação que não havia antes, mas a menção do sobrenome desconhecido é como um gatilho. É quando as lágrimas explodem no meu rosto. Caindo sem controle. Sinto o ardor na garganta, ainda assim, consigo emitir um gemido sôfrego de profundo e completo desespero. Forço as minhas pernas a se moverem, as vejo em baixo dos lençóis brancos, não há nada de errado, mas não se movem. Faço força suficiente para empurrar um carro, ainda assim, nem sinal de movimento. Encarro o médico. Ele tem que me ajudar. Deve saber o que se fazer em um momento destes. — Acalme-se senhorita. Você está a salvo— o homem diz—Senhor Lemann, pode me ajudar a acalmar a sua esposa. Acredito que ela precisa de um rosto familiar— o médico pede. Esposa? Salvo? ESPOSA? É quando entra no meu campo de visão um homem. Deve ter por volta dos trinta anos. Os cabelos são escuros, os olhos verdes brilhantes, a aparência uma mistura do Superman com o Caio Castro. Apesar de não ter nenhuma familiaridade com a figura. Sinto certo conforto com a sua presença. — Está tudo bem, amor. Vamos ficar bem— ele assegura-me e sinto o seu toque na minha mão. — Quem é você? — minha voz finalmente sai pelos meus lábios. Se quer a reconheço. No entanto, o estrago de minhas palavras são evidentes. O médico pega um controle ao lado da cama. O homem muda sua expressão para choque. Em segundos, enfermeiras rompem pela porta. —Doutor? — o homem pergunta perdido ao senhor. — Vamos levá-la para uma ressonância. Alguma coisa deve ter passado despercebido. Alguma contusão, talvez um pequeno aneurisma — ele conjuntura. As enfermeiras estão mexendo nos mecanismos ao meu redor e de repente a cama está em movimento. Atordoada encarro ambos em busca de respostas. —Acalme-se! Vamos descobrir o problema — O doutor diz para o homem, mas suas palavras me acalmam minimamente. Thiago Acabará de sair de uma reunião com os investidores chineses, é cansativo lidar com esses negócios internacionais, as diferenças culturais sempre são uma barreira. Além de não me sentir muito confortável com o meu mandarim. O meu pai sempre dizia que é melhor negociar na língua materna do cliente. “Assim as pessoas ficam mais confortáveis e você transmite confiança” ele dizia. Ele obviamente estava correto, caso o contrário não teria construído o império de negócios Lemann. Apesar de ter seguido um rumo tangencial ao dele com a empresa de advocacia. Após a sua morte herdei os demais negócios da família. Finalmente, sento-me na minha cadeira. O dia foi agitado e ter um tempo livre, mesmo que de apenas alguns minutos, é o suficiente para os meus músculos derreterem sobre o couro da cadeira. Escuto uma batida suave na porta e bufo. Falei cedo demais, aparentemente não tenho nem alguns minutos de descanso. — Sim — emito insatisfeito. — Licença Sr. Lemann, mas o Sr. Gomez está querendo falar com o senhor — Disse Isabela, a minha secretaria Isabela Antunes. A mulher tem a minha idade, 35 anos, e foi secretaria do meu pai. Conhece a empresa como a palma da mão. É muito eficiente, porém, sua afeição por mim é no mínimo incomoda. Noto quando ela arruma a saia social justa de forma que suba dois dedos. Obviamente, não tenho interesse algum nela e tento ao máximo ignorar suas investidas sutis. — Diga a ele para marcar um horário como qualquer um — disse impaciente. Foi quando Gomez, ou melhor, Caio rompeu pela porta. — Como se eu fosse marcar horário para falar com o meu melhor amigo. Que palhaçada — ele reclama se jogando na cadeira a minha frente. Isabela deixa a sala discretamente. — O que você quer falar afinal? — pergunto começando a analisar os papeis dispostos na mesa. — Sobre minha despedida de solteiro, o meu melhor amigo é obrigado a ir. Nem adianta me dar desculpas — Caio argumenta. — Sabe que não frequento mais este tipo de evento — afirmo. — Esse tipo de evento? É só uma despedida de solteiro. Sua digníssima sra. Lemann não vai se incomodar com isso — ele disse. — Não é que ela se incomode. Apenas não consigo mais ver nada de interessante nesses ambientes— disse ouvindo o som do telefone na sala ao lado. — O que está querendo dizer? — Caio questiona. — Que os seus planos vão sempre além...quero dizer, aposto que tem algo muito maior do que ir ao bar com os amigos no seu planejamento — argumento e quando a sua cara se contorce em uma carreta tenho certeza que acertei. Antes que ele começasse a me refutar a porta é aberta com brutalidade revelando uma Isabela alarmada. — Senhor! É o hospital no telefone — ela diz. — Hospital? — questiono confuso. Ela apenas indica o telefone na minha mesa que naquele momento começa a tocar. Ela deve ter transferido a ligação antes de vir. Atendo no segundo toque — Alo? — Boa tarde, é o Tiago Lemann? — a voz feminina do outro lado da linha é serena ao questionar. — Sim... — respondo incerto. — Aqui é do hospital geral Santa Maria, nós estamos ligando para comunicar que sua esposa sofreu um acidente de carro...— a voz da mulher vai se tornando incompreensiva para mim a partir disto. Na minha mente roda em loop a memória do no momento em que sai de casa está manhã. Quando Julia e eu fizemos piada sobre ela ser obrigada a ir com a melhor amiga Selena comprar decorações para a festa de onde trabalham. Na ocasião desejei-lhe boa sorte e lhe dei um beijo rápido antes de sair. É impossível!... Deve ser um engano ...Não podem estar falando da minha Julia.
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