Fui submetida a uma bateria de exames. Os médicos ainda não descobriram exatamente o que houve comigo. Porém, o meu diagnostico é de amnésia temporária. Pelo menos, eles desejam que seja temporária. Hoje completam quatro dias dês de que acordei. Ainda estou sob observação. O médico quer algum sinal que minha memória está retornando antes de me liberar. Parte de mim agradece o fato. Afinal para onde irei quando sair daqui? Contudo, o ambiente hospitalar não é para mim. Tudo é tão monótono e deprimente. Embora esteja em um quarto particular, com uma vista privilegiada do jardim, e as enfermeiras sejam prestativas e venham assim que toco o botão do controle ao lado da cama, o que não faço a menos que seja de veemente necessário. Este lugar é tão moderno que as vezes me pega questionando o quão caro ser tão bem atendida deve custar.
Estou fazendo um jogo de memória para crianças. O Dr. Sampaio insisti que isso pode me ajudar de alguma forma. Então os faço diariamente. No entanto, resolvi pedir por um diferente das três variações que tenho. Decido ir pegar outro pessoalmente. Ficar olhando estas mesmas quatro paredes já está me atormentando. Saio do quarto como se fosse uma criminosa, já que todos me tratam como se fosse de porcelana, quando noto a aproximação das enfermeiras, me escondo no primeiro quarto vago e pelo pequeno vidro na porta que me permite ver o corredor espero que elas passem. Consigo ouvir um pequeno fragmento da conversa delas antes de saírem completamente do meu campo de visão.
— Está levando isso para a desmemoriada? — uma delas pergunta, ela nunca me atendeu, mas não é difícil imaginar que esteja falando sobre mim.
—Sim, o maridão mandou — A segunda, que reconheço como Anastasia responde. Noto que tem um buque de flores em mãos.
— Se eu tivesse um marido daqueles pode apostar que não me esqueceria — a mulher diz risonha. Suas palavras são acidas e me atingem como veneno.
Que espécie de pessoa eu sou para me esquecer de algo assim.
— Não fale assim, sabe que ela sofreu um grave acidente — Anastasia responde gentil.
— Hm, sei... Então já lá ser a empregada da madame — a outra diz e assim ambas saem do meu campo de visão.
Quando o caminho está livre sigo até a recepção aonde pego mais jogos da memória. Não tinha grande diferença entre os que eu já tinha, mas com mais peças talvez me sinta mais desafiada. De volta ao meu quarto localizo as flores na mesa de apoio e Anastasia arrumando os lençóis.
— Senhorita, aonde foi? Já estava a ponto de alertar o doutor — Ela diz.
— Só queria sair um pouco. Então peguei mais jogos — disse mostrando as caixas em minhas mãos — Gostaria que fosse honesta comigo. Por que todos me tratam como se fosse de porcelana? — questiono enquanto casualmente volto para a mesa e disperso as peças do jogo sobre ela.
— Hm...Bem... — Anastasia parece insegura sobre o assunto.
—Relaxa, não é como se eu fosse dizer ao seu chefe se você me contar, se quer me lembro quem é— digo em tom zombeiro.
— Sabe...É que o senhor Lemann é um homem muito poderoso. A diretoria do hospital não quer falhar com ele — ela diz e me dou conta que nunca tinha prestado atenção nela antes. Anastácia é pequena e tem um ar de fragilidade. Apesar de provavelmente ter o dobro da minha idade. Está que descobri recentemente. Tenho vinte e cinco anos, ou pelo menos, é o que está na ficha médica.
— Ele parece exigente — digo me lembrando do quanto o meu “marido” brigou com os médicos quando o informaram que não sabiam o que tinha de errado comigo. Obviamente, nenhum deles estava ciente que eu podia ouvi-los. Afinal estava muito dopada na ocasião. Ainda assim, eu ouvi cada palavra de desespero e raiva do Lemann.
O meu marido, é tão estranho pensar assim. Ele me pediu para chama-lo de Thiago. Então vou chama-lo assim. Thiago tem sido bem atencioso. Acompanhando-me durante os dias e noites. Praticamente têm acampado no hospital e suas costas devem sofrer com as noites m*l dormidas no sofá do meu quarto. Neste momento ele foi para casa, tomar um banho e trocar de roupas. Em breve deve retornar. Seu empenho e preocupação comigo, causa-me certa culpa. Talvez a enfermeira esteja certa. Como posso não me lembrar de me casar com alguém. Ainda mais alguém como Thiago.
Pior do que não saber nada sobre ele,
É não saber nada sobre mim.
Finalmente recebi liberação para andar pelos jardins. Thiago ainda não retornou. É o tempo mais longo em que ele esteve longe. Por mais que sua ausência me deixe estranhamente preocupada, não posso ignorar o fato que estive tão preocupada em me lembrar de minha vida atual que se quer tentei me lembrar de minha vida antes dele.
Quer dizer, quem eu era antes de ser a Senhora Lemann? Como passava meus dias? Quais minhas habilidades? Sou formada em algo? E os meus pais? Soube que o médico proibiu visitas. Acredita que encarar desconhecidos pode gerar mais ataques de pânico, como o que tive no primeiro dia. Então o Dr. Sampaio espera que minhas memórias retornem sozinhas, aos poucos, e a medida em que me lembrar das pessoas, elas poderão vir me visitar. Ele me explicou que o cérebro é delicado, e existe a possibilidade de que eu crie memorias falsas a partir do que os outros me contarem. Compreendo o seu ponto de vista, mas acredito que ver as pessoas poderia me ajudar.
Observo as flores do jardim, a forma como a luz fraca do dia nublado incide sobre elas. São margaridas e tenho certeza disto. O pensamento me causa riso. Afinal, consigo me lembrar da espécie das plantar, mas não do meu próprio nome.
—Senhorita, seu marido retornou. Ele deseja vê-la. Está disposta a voltar ao quarto? — Anastasia questiona.
A verdade é que o clima não estava favorável para aventuras no lado exterior e por mais que não haja nada de errado comigo fisicamente, pegar chuva não melhoraria em nada meu estado atual. Observo as nuvens se tornando mais densas.
— Só mais um minuto — peço e assisto a enfermeira concordar com a cabeça.
[...]
De volta ao quarto vejo que Thiago está encostado na janela. Considero que ele estivesse me observando minutos atrás. Um sorriso encantador se abre em seu rosto assim que seus olhos repousam sobre mim. É tão brilhante quanto olhar para o sol. Limito-me a um cumprimento casto enquanto retorno ao lugar habitual na cama. Sinto-me boba apenas por me sentir tão afetada por um gesto tão banal. Com toda certeza, devia ser muito apaixonada por ele.
— Olá — ele diz ainda sorridente.
— Bem-vindo de volta. Espero que tenha descansado — digo polidamente. Ainda que saiba que o tempo em que ele esteve fora pode não ser o suficiente para tirar se quer um bom cochilo. Sinto-me com inveja pois mesmo com o cansaço e as evidentes olheiras ele ainda é deslumbrante.
— Não preciso descansar — ele diz teimoso e então se aproxima da cama — Desculpe a demora. Achei que talvez isto te ajuda-se com algo— ele diz e percebo pela primeira vez uma caixa mediana adornada em suas mãos.
— O que é? — questiono verdadeiramente curiosa.
—Abra — ele diz colocando gentilmente a caixa sob o meu colo.
Faço o que ele orientou percebendo que existem alguns álbuns de foto antigos ali.
— O doutor deixou que eu visse isso? — questiono surpresa.
— Ele não precisa saber — Thiago diz arrumando uma pequena mecha rebelde do meu cabelo. O que respondo com um sorriso travesso.
Não posso mentir, estou me coçando para ter mais informações sobre mim e não ligo se para as consequências disso. Pelo menos não agora. Pego o álbum dourado, ele parece não ser tão antigo quanto os demais.
— Álbum de casamento?! — suponho e ele afirma com a cabeça.
Respiro fundo antes de virar a primeira pagina com extremo cuidado, quase como se o objeto fosse me morder, ou algo assim. A primeira imagem é nossa, estamos em um beijo delicado em uma praia.
— Nos casamos na praia? — questiono.
— Sim, era seu sonho. Foi em Cancun, no México — ele explica.
— Wow — emito.
As fotos são deslumbrantes, se quer consigo imaginar o quanto toda a festa deve ter custado. Uma tenda na praia, parece ter muitos convidados, tantas pessoas, mas não me lembro de ninguém, olha-las me dá dor de cabeça então foco nas imagens com poucas pessoas. Devem ser mais próximos. A foto das madrinhas...mais dor. Espera alguma memoria, mas só tenho uma dor aguda. Como se existisse uma agulha em algum lugar dentro do meu cérebro e ficasse espetando minha massa cinzenta. Fecho o álbum e pego outro, o mais antigo de todos. A capa tem um tecido e um pequeno laço é a única coisa que mantem a capa no lugar. Abro o mesmo com menos expectativas que o primeiro, no entanto um sorriso surge naturalmente em meu rosto ao reconhecer a mulher com uma menininha nos braços.
— Mamãe — sussurro.
— O que? — Thiago questiona parece não ter entendido o que disse.
— Quem é esta? — pergunto mostrando a imagem a ele.
— Você a reconhece? — ele pergunta.
— É a minha mãe — digo e Thiago faz um sinal afirmativo com a cabeça.
Sorrio! Eu me lembrei de algo. Passo para a foto seguinte, é um bebe, imagino que eu mesma. A seguinte tem um senhor.
— Este é o meu avó — afirmo confiante.
— Correto — ele diz sorrindo.
— Aqui é meu pai e meu tio — aponto algumas fotos depois e recebo outra confirmação — Esta é minha tia — indico duas fotos mais tarde, estou folheando com mais gosto agora. Novamente correta.
— Você se lembra de praticamente todo mundo deste álbum — ele diz assim que fecho o álbum de tecido.
— Você viu — concordo animada.
Pego um álbum roxo de veludo que tem os dizeres em prata “Meus 15 anos”. O reconheço imediatamente, sei exatamente qual é a primeira foto e quando o abro tenho a confirmação. Ali estou eu em frente a uma parede florida. Lembro do dia que tirei essa foto como se fosse ontem. A verdade é que este é um lugar em um parque perto de casa, ou perto da casa da minha mãe, está parte florida é a única parede bonita que tem ali. A muitas fotos da festa, as minhas melhores amigas todas apareceram e eu simplesmente amo este vestido lilás. Sinto-me uma princesa com ele. Maria Clara saiu com um olho aberto e outro fechado na foto em g***o das meninas e me lembro que ela pediu para ninguém marca-la no Orkut. Claro que eu marquei e ela n******e reclamar.
Foi quando me dei conta que me lembro muito bem de tudo que aconteceu até o dia daquela festa. O meu nome é Ana Julia Rodrigues, os meus pais são Antônio e Rogéria. Cresci em São Paulo. A minha cor favorita é amarelo.
A questão é se tenho 25 anos como a ficha medica diz, não me lembro dos últimos dez anos da minha vida.