Thiago

1008 Words
Thiago Na minha mente roda em loop a memória do no momento em que sai de casa está manhã. Quando Julia e eu fizemos piada sobre ela ser obrigada a ir com a melhor amiga, Selena, comprar as decorações, para a festa de onde trabalham. Na ocasião lhe desejei boa sorte e lhe dei um beijo rápido antes de sair. Então volto ao presente, percebendo que ainda estou parado em meu escritório olhando para a cara do Caio. — Estou indo — falo para a mulher desligando o telefone — Isabel cancele todos os meus compromissos — digo pegando as chaves do carro. — Ei cara, o que houve? — Caio pergunta claramente confuso com a situação. — Conversamos depois, eu preciso ir — digo saindo correndo pela porta. Paro em frente ao elevador e toco várias vezes no botão, vendo no visor que o mesmo se encontra no térreo. Não posso esperar tanto. Corro para as escadas sem me importar em descer os dezessete andares. Quando finalmente atinjo subsolo entro no meu carro e parto cantando o pneu. Deixo o prédio me dando de cara com o semáforo fechado. Batuco os dedos no volante impaciente, irritado com o fato do objeto existir. Se quer tem movimento. Pelo menos não nessa hora. Olho para os dois lados e tomo uma decisão questionável, porém, que fazia todo sentido para mim no momento e acelero. Chego em minutos no hospital. Estou completamente ciente que posso ter sido multado no processo. No entanto, não estou ligando. É um hospital comunitário, um lugar decadente e lotado. Corro diretamente para a recepção. A mulher ali lixava as unhas e mecanicamente indica uma folha de papel sulfite colada de qualquer forma com durex no vidro que separa ela de mim, nele diz “Pegue uma senha”, isso deve ser brincadeira. Vou mandar que transfiram Julia imediatamente. Bato no vidro irritado. — Olá! — Digo chamo a sua atenção e a mulher de uns quarenta anos se vira pronta para me dizer algo. — Não sabe l... — Mas para me avaliando de cima a baixo. Instantaneamente mudando de postura— Boa tarde, em que posso ajudar — ela disse passando as mãos pelos cabelos. — A minha esposa foi trazida para cá. O nome dela é Ana Julia Lemann— digo. — Esposa? — ela repete a palavra baixinho parecendo decepcionada. —Sim — afirmo apressado. — Oh claro, vou procurar no sistema — ela diz e digita freneticamente. — Ela está no segundo andar, quarto 206, está aguardando para ser aten... — a mulher tagarela e eu a interrompo. — Gostaria de solicitar sua transferência imediatamente — digo irritado. Como assim ela está esperando atendimento? De maneira alguma vou deixar com ela passe por isso no serviço público. — Mas senhor... — ela pareceu confusa. Apenas deixei a mulher falando sozinha, os seus protestos não mudariam nada e tenho outras prioridades no momento. Preciso ver a Julia. Preciso me certificar que ela está bem. Vou mandar Matias organizar a transferência dela. Corri em direção ao quarto 206, não foi difícil encontrar, mas as enfermeiras me impediram de entrar. Porém, não podia deixar que algo tão pequeno quanto uma autorização me impedisse. Quando atravessei a porta meu coração foi dilacerado pela imagem na minha frente. É ela...nunca uma confirmação me pesou tanto. Seu estado físico era por si só suficiente para tirar o ar dos meus pulmões e formar um nó em minha garganta. As pessoas ao meu redor desapareceram. As ordens da enfermeira chefe para que me retirasse do local são apenas zumbidos em meus ouvidos. Um contraste se formando na minha mente. A memória recente de minha sorridente esposa corada e saudável em oposição a mulher enfaixada a minha frente. Há tantas ataduras, a pouca pele que consigo ver nem mesmo parece dela de tão pálida. Os lábios azulados como se tivesse se afogado. Tentei me aproximar, no entanto, o meu corpo foi puxado para longe. — O senhor tem que sair daqui... Agora! Precisamos cuidar da paciente e para isso você deve ir para a sala de espera— a enfermeira disse autoritária. Desta vez, mais consciente de que a minha presença pode causar problemas para a Julia, concordo em me retirar. [...] Após conseguir a transferência de Julia, senti-me um pouco mais tranquilo sabendo que ela seria bem atendida em um lugar em que não teria que esperar e que seria a prioridade do médico responsável. Talvez o meu conforto venha do fato de que de alguma forma me sinto fazendo algo por ela. Fiquei ao lado dela enquanto o novo doutor, o Sr. Sampaio, a analisava. Ele recebeu o diagnóstico do médico do hospital público, mas ele refez todos os exames. Incluindo uma bateria de outros. Felizmente, os seus ferimentos são superficiais. Ainda é difícil para mim, encará-la assim tão machucada. Estou tentando entender o que pode ter acontecido. Os policiais informaram que Julia estava muito acima da velocidade limite da via em que se encontrava. Além disso, ela realizou um cruzamento perigoso, e por sorte não se chocou com um trem. Insisti em pedir uma investigação mais profunda. Porém, o que recebi foi um longo monologo do chefe de polícia sobre a irresponsabilidade de jovens, e como a polícia tem mais o que fazer. Aparentemente não tem nada que indique que algo além da imprudência dela aconteceu. No entanto, eu conheço a minha esposa. Ela jamais, faria algo assim, Julia se quer passa do limite de velocidade. Direção perigosa? Definitivamente não é do feitio dela. Se eles não vão fazer o trabalho deles, eu pagarei alguém que faça. Simplesmente não posso conviver com a ideia de que qualquer coisa de r**m pode acontecer com ela novamente. Então liguei para Luiz, meu chefe de segurança, ele tem muitos contatos, e conhece um investigador de confiança. Assim que possível me encontrarei com o tal. Preciso manter a minha consciência limpa, não me perdoaria se não desse devida atenção a isso, e impedir que qualquer coisa assim aconteça novamente.
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