Hoje é dia de finalizar mais um caso. Sou muito meticuloso com aquilo que faço e não costumo deixar pontas soltas – por isso esse ramo é tão rentável para mim e sou tão requisitado que não posso atender a todos que me procuram.
Por incrível que pareça, multas pessoas tem um problema que querem uma ajuda para resolver. É o meio fácil – mesmo que não seja tão barato – de ter sua vida pacífica. Uma pessoa que está atrapalhando os negócios, alguém que sabe demais, alguém da época do colégio, até um marido adúltera, tudo isso são alguns exemplos do que pode desaparecer por uma quantia em dinheiro.
Além do problema ser resolvido, dou a garantia que não haverá contratempos com polícia, investigação, nenhuma ponta solta. Por isso eu valho a pena, porque não me pagam apenas para matar, me pagam para ter duas vidas em paz novamente.
Analisei por alguns dias a rotina de um arquiteto de trinta e três anos. Esse homem é funcionário de uma empresa que foi responsável por um prédio famoso, alto e conhecido aqui em New York e o alvo em questão participou do projeto. A questão é que agora a empresa está prestes a ser processada por negligência, afinal, houve um desmoronamento de um muro que matou uma família que era constituída em um casal e sua filha de apenas quatro anos.
Não estou aqui para julgar quem está certo ou não, se a família morreu não é minha culpa e eu não posso trazê-los de volta. Meu papel aqui é cumprir o que o dinheiro em minha conta irá pagar, e só, f**a-se o resto.
Meu contratante tentou arrazoar com seu funcionário, que diferente dos outros envolvidos, se negou a mentir sobre o ocorrido. A empresa pode perder bem mais que o dinheiro de indenização e ainda arcar com a valor de toda a reforma e verificação do prédio. É claro que minha função é remover essa ponta solta de uma maneira que todos vão acreditar que foi um acidente.
Há várias formas de matar alguém e hoje eu irei fazer isso de uma forma que é uma das minhas preferidas para casos públicos assim que exigem um sigilo a mais.
Termino o café que pedi em um restaurante onde o alvo costuma passar suas manhãs antes do trabalho. Uso um jornal para fingir estar concentrado mas apesar disso, é claro que a missão que não passará de hoje é o meu foco. Observo atentamente com a minha visão periférica cada movimento, em especial quando o morto vivo deixa alguns trocados na mesa e fica de pé.
Faço o mesmo, começando a segui-lo disfarçadamente, devagar e observando tudo ao redor ao mesmo tempo. Nada passa despercebido por mim, nenhuma cabeça, onde cada olhar está, o barulho dos passos, eu estou totalmente concentrado. É por isso que sei exatamente que é seguro entrar no elevador, porque sei que ninguém me nota entrando atrás do alvo – eu sei como passar despercebido quando quero.
Como faço essa mesma rota há semanas, é fácil todos estarem acostumados comigo também. Tive tempo de analisar tudo muito bem a ponto de hackear a câmera do elevador para acharem que está filmando quando na verdade não está. Agora, o pobre homem não sabe que está numa caixa de metal com o anjo da morte.
— Pode me dizer as horas? Meu relógio quebrou essa manhã. — Minto, fazendo o primeiro contato com a minha presa.
— Claro. — Olha para baixo, encarando o pulso atentamente. — São 7.45h.
— Obrigado. — Sorrio falso, esperando o momento certo. — Gosta desse lugar? Vim por indicação de um amigo mas não gostei muito do café aqui.
— Não gostou? É o melhor de New York. Você experimentou o Macchiato deles antes de falar? — Parece que eu acabei de xingar a mãe dele.
— Na verdade, não, esse não.
— É sério, precisa experimentar antes de tirar uma conclusão. — Gesticula empolgado. Enquanto isso, começo já a preparar o jornal em minha mão. Peguei uma folha, dobrei em duas para dar sustância a ponta. Agora eu vou deixando a ponta bem rígida e afiada com meus dedos, esperando apenas o alvo ficar na posição certa. — Todos os dias pela manhã eu venho para cá, não começo meu dia de trabalho sem...
Não o deixo terminar, pois ele ergue o queixo o suficiente para deixar o pomo de Adão exposto – e é aí que com a velocidade certa e a força necessária para transformar o papel em arma, que eu ataco. Um único golpe com a ponta afiada do jornal que ele começa a sufocar na minha frente, levando as duas mãos por instinto acima do seu pescoço e com os olhos arregalados.
— Sem o que? Não estou entendendo muito bem. — Me divirto, colocando um sorriso satisfeito nos lábios por estar conseguindo mais um nome para minha lista.
Sim, eu tenho uma lista onde eu coloco o nome da pessoa morta e sua profissão – é apenas por controle e ego. De início o nome não é o importante para eu aceitar o trabalho, pelo menos não é a primeira coisa que pergunto. A profissão me interessa mais para saber o nível de fama da pessoa, se for uma figura pública o serviço se torna mais caro ou eu nem aceito. Depois de aceitar, eu peço o nome – e a pessoa tem sua sentença assinada pois ninguém escapa do anjo da morte.
Eu nunca deixei de completar um serviço sequer.
No próximo andar eu aperto para o elevador parar depois de conferir se o arquiteto ainda está respirando ou não. Jason Smith acaba de dar sua última respiração nesse elevador e se serve de consolo, pelo menos morreu feliz falando do que gostava e logo depois de fazer sua última refeição na cafeteria favorita – alguns não tem esse luxo.
Quando saio, entro no outro elevador sendo visto normalmente pela câmera não hackeada. Do outro lado, ninguém está vendo o corpo então será impossível saber o horário da morte. Também foi uma morte que nunca saberão qual foi a arma do crime e o que aconteceu, só será inconclusiva a causa da morte. Qualquer ponta solta, resolvo em casa quando estiver refazendo meus passos antes de passar o nome oficialmente para a minha lista.
Sigo para o estacionamento onde deixei meu carro, protejo meus olhos com óculos escuros e saio da garagem. Moro no topo de um prédio alto, em uma cobertura espaçosa e luxuosa que eu gosto muito de passar meu tempo. É para lá que vou agora dirigindo o mais rápido que posso usando a potência de uma Lamborghini que escolhi preta para não chamar muito a atenção.
Apesar da minha altura e porte físico eu consigo perfeitamente não chamar a atenção quando quero, entrar e sair sem ser visto. Meus um e noventa de altura, corpo avantajado e com músculos bem marcados de uma pesada rotina de treino compõe um corpo que é considerado chamativo. Os cabelos loiros escuros junto com olhos castanhos claros formam uma boa junção com a pele bronzeada. Fui presenteado com um sorriso que causa efeitos nas pessoas – em especial o público feminino.
Apesar de todos os meus atributos físicos e financeiros eu recebi o dom de me camuflar e isso não atrapalha minha vida profissional.
Quando chego em casa, estaciono o carro e subo direto para a cobertura que é inteiramente minha. Com isso, coloco minha digital na fechadura eletrônica e entro ansioso pelo meu merecido descanso e comemoração ao sucesso. Arranco minha camisa preta manga longa e deixo pelo sofá, caminhando direto ao bar que tenho na cozinha e escolhendo uma boa garrafa de vinho já aberta e com conteúdo pelo meio.
Caminho pela casa até o meu escritório e sento em minha poltrona, ligando o notebook. Para poder comemorar em paz verifico qualquer possível ponta solta e contratempos na câmera ou se fui visto, antes de enviar o e-mail “feito” para o contratante e colocar Jason Smith e sua profissão na minha lista. O pagamento é feito antes do assassinato ser concluído, pois é uma certeza que eu farei.
Meu celular não para de vibrar e eu sigo fingindo que não percebo. Sei que é Marcel na tentativa de me colocar em mais uma missão – essas pessoas não passam um dia sem querer matar alguém.
Sem vontade de trabalhar mais por enquanto, eu desligo o notebook e sigo para o meu quarto depois de terminar a garrafa de vinho e deixá-la sobre a minha mesa.
Gosto de tudo minimalista, então só tenho a cama, uma mesinha de cabeceira e as portas do closet e banheiro. No closet fica o meu cofre onde guardo passaportes, dinheiro e qualquer informação que eu precise. Armas e materiais ficam no meu escritório, bem escondidas também. A cortina que impede a luz de entrar mantém o quarto escurinho, e termino de tirar a minha roupa antes de cair na cama apenas de cueca.
•••
O telefone que coloquei na mesa de cabeceira não para de vibrar e já está me dando nos nervos. Marcel é um parceiro, ele faz contato com quem quer fazer negócio comigo e me passa apenas os casos que acha que vou aceitar e será vantajoso, fazendo esse controle – se não passar por ele com certeza não passa por mim. Ele sabe que quando não estou atendendo é porque não estou disponível para isso.
Porém, de tanto que ele insiste dessa vez a ponto de me acordar, eu decido atender.
Ligação on ~
— Acho que centenas de ligações não atendidas deveria ser um sinal de que não é hora, p***a. — Atendo, pensando seriamente em colocar Marcel como o próximo alvo.
— Mas minha insistência é sinal de que viria coisa boa, e sim, é uma excelente oportunidade. O que acha de um cheque em branco para você dizer o seu valor, seja ele qual for? — Alguém quer muito a morte de outra pessoa.
— Acho que essa pessoa é i****a. Ela sabe o meu valor?
— Sabe, e não se importa.
— Qual a profissão?
— Oficialmente, aposentado. — Essa história só fica mais confusa para mim. Franzo o cenho, sentando na cama para me atentar mais e acompanhar o raciocínio. — Ele era um milionário dono de hospital, mas depois de um processo o hospital faliu. Depois de um tempo, ele começou a trabalhar com coisas ilegais usando os contatos que tinha. Eu pesquisei e vi que seu novo ganha pão é tráfico de órgãos e também de mulheres.
Não me importa o que ele faz se vai me pagar bem. Um dono de hospital falido não me parece uma boa opção para fazer negócios e apesar do novo ramo, não tenho certeza se recebe o suficiente para me dar um cheque em branco como me prometeu. Penso alguns instantes, sabendo que é uma ideia a se pensar mas primeiro preciso confirmar isso.
— A profissão do alvo?
— Juíza. Ela foi a responsável pelo caso que o condenou a pagar multas exorbitantes que o levou a falência perdendo o hospital. A mulher também colocou o filho do homem na cadeia por anos. — Sim, me parece motivo o suficiente para querer alguém morto.
— Irei averiguar.