O QUARTO AO LADO

1277 Words
A volta do baile de gala foi um mergulho no silêncio sepulcral que apenas o interior de um carro blindado de meio milhão de dólares pode proporcionar. Nova York passava pelas janelas como um borrão de luzes neon e sombras líquidas, mas Maya não via nada. Ela ainda sentia a pressão dos lábios de Zion contra os seus, um toque que parecia ter gravado uma marca invisível em sua alma. Ela olhou para o lado; Zion estava mergulhado na penumbra do banco traseiro, o perfil rígido voltado para a janela. Ele parecia ter voltado a ser a estátua de gelo que a humilhara no escritório, mas Maya sabia que a estátua tinha rachaduras. Ela vira o fogo nos olhos dele na varanda. Quando o elevador da cobertura se abriu, Zion saiu sem dizer uma palavra. Ele caminhou em direção ao seu escritório privado, o som de seus passos ecoando no chão de resina como uma contagem regressiva. Maya ficou parada no hall, o vestido de seda n***a pesando como uma armadura de chumbo. O cansaço físico era imenso, mas a agitação mental a impedia de sequer pensar em dormir. Ela caminhou lentamente pelo corredor que levava aos quartos. A cobertura era vasta, uma sucessão de espaços minimalistas que pareciam projetados para não guardar memórias. No entanto, ao passar por uma porta de carvalho maciço que permanecera fechada desde que chegara, Maya sentiu uma lufada de ar frio. A porta estava entreaberta apenas alguns milímetros. A curiosidade, alimentada pela adrenalina da noite, falou mais alto que a prudência. Maya empurrou a porta suavemente. Diferente do resto da residência, aquele quarto não era moderno. Não havia concreto exposto ou móveis de design italiano. O cheiro de papel velho, poeira e madeira de cedro a atingiu. Era uma biblioteca improvisada, ou talvez um santuário. As paredes estavam cobertas de prateleiras que chegavam ao teto, repletas de livros cujas lombadas estavam gastas pelo tempo. No centro, uma mesa de carvalho simples, quase rústica, sustentava uma luminária de latão. Maya aproximou-se da mesa. Sobre ela, jazia um caderno de desenho de capa dura, gasto nos cantos. Com o coração martelando contra as costelas, ela abriu a primeira página. O ar fugiu de seus pulmões. Eram desenhos. Centenas deles. Mas não eram esboços de arquitetura ou projetos de engenharia. Eram rostos. Rostos de uma menina com olhos amendoados e um sorriso que parecia iluminar o papel. Eram desenhos dela. Maya na infância, Maya na adolescência, Maya rindo sob uma árvore de magnólias no pátio do orfanato. Embaixo de um dos desenhos, uma data de dez anos atrás e uma única frase escrita com uma caligrafia apressada e furiosa: "Eu voltarei por você quando o mundo for meu." — Você não deveria estar aqui. A voz de Zion chicoteou o silêncio. Maya deu um pulo, o caderno escapando de suas mãos e caindo aberto no chão. Zion estava parado no umbral da porta. Ele havia tirado o paletó do smoking e desabotoado os punhos da camisa, que estavam dobrados até os cotovelos. Ele parecia exausto e, pela primeira vez, vulnerável. — Zion... — Maya começou, a voz falhando. — Esses desenhos... você nunca esqueceu. Zion entrou no quarto, e a atmosfera pareceu diminuir de tamanho. Ele se abaixou, pegou o caderno e o fechou com uma violência contida. Os olhos dele, antes gélidos, agora queimavam com uma mistura de vergonha e fúria. — O que você viu aqui não significa nada — ele sibilou, mas sua mão apertava o caderno com tanta força que os nós dos dedos estavam brancos. — Isso é apenas o resto de um homem que não existe mais. — O homem que desenhou isso não era um monstro, Zion — Maya deu um passo à frente, ignorando o perigo. — Por que você fugiu? Por que me deixou lá por dez anos sem uma única palavra? Eu esperei por você. Eu procurei por você em cada rosto nas ruas até que a realidade me obrigou a desistir. Zion soltou um riso amargo, caminhando até a janela que dava para o nada escuro da noite. — Eu fugi porque percebi que o amor era a corrente que me manteria na pobreza. Para construir a Black Industries, para ter o poder de salvar sua mãe hoje, eu tive que me tornar alguém que você odiaria. Eu tive que esmagar cada grama de ternura que aquele garoto sentia, porque a ternura é uma fraqueza que os Lancaster e os homens como eu usam para destruir você. Ele se virou para ela, a luz da luminária projetando sombras profundas em seu rosto esculpido. — Eu não voltei porque não queria que você visse o que eu me tornei. Mas quando vi seu nome na lista de candidatos, quando soube da sua mãe... o monstro dentro de mim não resistiu. Eu queria ver se você ainda tinha aquela luz. Eu queria ver se eu poderia comprá-la. — Você não pode comprar o que já possui, seu i****a! — Maya gritou, as lágrimas finalmente vencendo a barreira. — Você nunca precisou de bilhões para me ter. Você só precisava ter voltado. O silêncio que se seguiu foi carregado de dez anos de palavras não ditas. Zion atravessou o quarto com três passos largos. Ele segurou o rosto de Maya com as duas mãos, seus polegares limpando as lágrimas que caíam. O toque não era mais clínico ou possessivo; era desesperado. — Eu sou um homem arruinado, Maya — ele sussurrou, a testa encostada na dela. — Eu fiz coisas para chegar aqui que fariam você nunca mais querer me tocar. Eu usei você hoje no elevador para ferir Isabella, mas o tempo todo, eu só queria sentir você de novo. — Então me sinta — ela desafiou, a voz trêmula. Zion a beijou. Desta vez, não havia público. Não havia vingança contra uma ex-amante. Havia apenas a dor do tempo perdido e o fogo de uma necessidade que nenhum dinheiro no mundo poderia satisfazer. O beijo foi profundo, faminto, as mãos de Zion descendo pelas costas nuas de Maya, puxando-a para mais perto, como se quisesse fundir suas almas e apagar a década de separação. Ele a pegou no colo, e Maya envolveu a cintura dele com as pernas, sentindo a força bruta e o controle que ele estava prestes a perder. Ele a levou para a cama de seda cinza no quarto principal, deitando-a com uma reverência que contrastava com sua arrogância habitual. Naquela noite, sob os lençóis caros de uma cobertura que parecia um mausoléu, o gelo de Zion Black finalmente derreteu. Mas, enquanto se entregavam um ao outro, no fundo de suas mentes, ambos sabiam que o sol traria as consequências. Isabella não aceitaria a derrota, e o contrato que ligava Maya a Zion ainda era uma corrente de ouro. Ao amanhecer, Maya acordou sentindo o peso do braço de Zion sobre sua cintura. Ela olhou para o homem adormecido ao seu lado e sentiu medo. Porque agora, ela não era mais apenas uma assistente ou uma devedora. Ela era a fraqueza de Zion Black. E em um mundo de tubarões, ter uma fraqueza é o mesmo que ter um alvo nas costas. Ela se levantou silenciosamente, mas ao passar pela mesa de cabeceira, viu o celular de Zion brilhar com uma notificação de mensagem de Isabella: "Eu sei o que você está escondendo no quarto ao lado, Zion. Se a imprensa souber de onde veio o capital inicial da Black Industries, nem a sua preciosa Maya poderá salvá-lo da prisão. Temos que conversar. Sozinhos." O estômago de Maya deu voltas. A "Dívida de Sangue" acabara de se tornar muito mais real.
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