O JOGO DAS MÁSCARAS

1175 Words
O eco do beijo no elevador ainda reverberava nos lábios de Maya como uma queimadura de frio. Enquanto ela caminhava pelo corredor de mármore da diretoria, sentia os olhares dos funcionários uma mistura de inveja, confusão e julgamento. Ela era a intrusa, a mulher que saíra das sombras do hospital para o epicentro do poder de Zion Black. Zion entrou em sua sala sem olhar para trás. Maya o seguiu, fechando a porta de carvalho. O silêncio que se seguiu foi denso, carregado com a tensão do que acabara de acontecer. — Nunca mais faça isso — Maya sibilou, a voz trêmula de indignação. — Eu não sou um escudo humano para você usar contra sua ex-amante. Zion sentou-se atrás de sua mesa monumental. Ele pegou uma caneta-tinteiro e começou a assinar papéis com uma calma irritante, como se não tivesse acabado de incendiar os sentidos de Maya segundos antes. — Você leu o contrato, Maya. Você é minha assistente pessoal. Isso inclui representar qualquer papel que eu julgue necessário para manter a ordem no meu ambiente de trabalho — ele disse, sem levantar os olhos. — Isabella é uma distração. Você é a solução para essa distração. — Eu sou um ser humano! — ela rebateu, batendo com as mãos na mesa dele. — Você me comprou para salvar minha mãe, não para me leiloar como um troféu de vingança. Zion parou de escrever. Ele levantou a cabeça lentamente, e a intensidade em seu olhar fez Maya recuar um passo. Havia uma escuridão ali que parecia querer engoli-la. — Se eu quisesse um troféu, teria escolhido uma modelo de capa da Vogue, não uma mulher que cheira a sabão barato de hospital — ele disse, a voz caindo para um tom perigosamente baixo. — Você está aqui porque me desafiou. E porque eu decidi que sua "honra" era algo que eu queria ver desmoronar. Agora, prepare-se. À noite, temos o Baile de Gala da Fundação Lancaster. Você será minha acompanhante. — Eu não vou — ela declarou. — Você vai — ele retrucou, voltando aos papéis. — O motorista passará na cobertura às sete. Um vestido foi entregue. Use-o. E Maya... tente sorrir. O mundo precisa acreditar que você está adorando cada segundo da sua queda. Às sete da noite, Maya encarava o reflexo no espelho da cobertura. O vestido era uma obra-prima de seda n***a, com um decote profundo nas costas e uma f***a que revelava mais de suas pernas do que ela se sentia confortável em mostrar. Ele era elegante, austero e terrivelmente caro. Zion não queria apenas que ela estivesse lá; ele queria que ela fosse a personificação de sua marca: Black. Quando ela desceu para a sala, Zion a esperava. Ele vestia um smoking feito sob medida que o deixava ainda mais imponente. Ele segurava uma taça de cristal com um líquido escuro. Ao vê-la, ele parou por um segundo. O olhar dele percorreu o corpo de Maya com uma lentidão que a deixou sem fôlego. Por um breve momento, a máscara de gelo dele trincou, revelando uma fome crua. — Aceitável — foi tudo o que ele disse, mas o tom de sua voz traiu a admiração que ele tentava esconder. O salão do Museu Metropolitano estava repleto da elite de Nova York. Diamantes brilhavam sob os lustres de cristal e o cheiro de perfumes importados era quase sufocante. Assim que Zion entrou, o burburinho começou. Ele manteve a mão firmemente pousada na base das costas de Maya, um toque possessivo que enviava descargas elétricas por sua coluna. — Sorria — ele sussurrou em seu ouvido, o hálito quente roçando sua pele. — Estão todos tentando descobrir quanto você custou. Maya forçou um sorriso plástico enquanto eram cercados por investidores e políticos. Ela se sentia como uma fraude, uma peça de teatro em um palco de ouro. No meio da noite, Isabella apareceu novamente, desta vez acompanhada por um homem mais velho, um dos rivais de Zion no setor de energia. Ela se aproximou do casal com um brilho malicioso nos olhos. — Zion, querido. Que surpresa ver sua... assistente aqui — Isabella enfatizou a palavra com desprezo. — Mas cuidado, Maya. O topo é muito alto, e a queda costuma ser fatal. — Isabella, sempre preocupada com a queda alheia — Zion respondeu com um sorriso frio. — Talvez seja porque você já conhece o fundo do poço muito bem. Enquanto Zion se envolvia em uma discussão técnica com o acompanhante de Isabella, Maya sentiu a necessidade de ar puro. Ela se desculpou e caminhou em direção à varanda que dava para o Central Park. A noite estava fria, mas a brisa era um alívio. Ela se apoiou na balaustrada, olhando para as luzes da cidade, sentindo-se mais sozinha do que nunca. — Você sempre teve o hábito de fugir quando as coisas ficavam difíceis — uma voz conhecida disse atrás dela. Maya se virou bruscamente. Zion estava lá, mas algo em sua expressão havia mudado. A luz da lua suavizava as linhas duras de seu rosto. — Eu não estou fugindo. Estou apenas tentando lembrar quem eu sou fora deste circo — ela disse. Zion aproximou-se, parando ao lado dela. Ele olhou para o horizonte, o perfil esculpido contra a escuridão. — Às vezes, esquecer quem somos é a única maneira de sobreviver ao que nos tornamos, Maya. — É isso que você fez? — ela perguntou suavemente. — Esqueceu o garoto que costumava me dar desenhos de estrelas no orfanato? Zion ficou tenso. O silêncio entre eles tornou-se pesado, carregado de uma verdade que ele tentara enterrar por dez anos. Ele se virou para ela, os olhos brilhando com uma dor reprimida. — Aquele garoto morreu de fome e frio, Maya. O homem que sobrou é o que você vê. E este homem não tem espaço para estrelas. Só para resultados. Ele deu um passo à frente, encurralando-a contra a balaustrada. A tensão s****l que vinha crescendo desde o escritório explodiu. Ele não esperou por um convite. Suas mãos envolveram o rosto dela, e ele a beijou com uma ferocidade que a fez gemer. Não era um beijo de poder, era um beijo de desespero. De saudade. Maya retribuiu. Suas mãos subiram para o peito dele, agarrando o tecido do smoking. Ela odiava o que ele se tornara, mas amava o fantasma do que ele fora. E, naquele momento, as sombras da varanda esconderam a verdade: a "Dívida de Sangue" entre eles estava apenas começando a ser cobrada, e o preço seria o coração de ambos. De repente, Zion se afastou, recuperando sua máscara de gelo tão rápido quanto a perdera. — Vamos. Já causamos escândalo o suficiente por uma noite. Ele caminhou de volta para o salão, deixando Maya sozinha na escuridão, com o gosto de champanhe e amargura nos lábios. O jogo das máscaras continuava, mas agora, ela sabia que por trás do monstro, havia um homem que ainda se lembrava dela. E isso a tornava muito mais perigosa do que ele jamais imaginara.
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