O FANTASMA DE ONTEM

1420 Words
O sol de Nova York nasceu frio, uma luz pálida que tentava inutilmente aquecer o vidro temperado da cobertura da Black Industries. Maya não havia dormido. Cada vez que fechava os olhos, via o rosto de Zion, não o homem implacável que a chantageara na noite anterior, mas sombras de um rosto mais jovem, mais suave, que assombrava as bordas de sua memória. Ela se levantou da cama de seda, sentindo o corpo pesado. No closet, um traje de alfaiataria em tom azul-marinho profundo havia sido deixado para ela. Era sóbrio, caro e impecável. Ao vesti-lo, Maya sentiu como se estivesse colocando uma armadura. Ela não era mais a moça desesperada do hospital; ela era agora uma peça no tabuleiro de Zion Black. Ao chegar à sala de jantar, Zion já estava lá. Ele lia o The Wall Street Journal em um tablet, enquanto tomava café preto. Ele não usava gravata, e o primeiro botão da camisa branca estava aberto, revelando a base do pescoço onde uma cicatriz antiga e fina desaparecia sob o tecido. — Sente-se. Coma — ele disse, sem desviar os olhos da tela. — Você tem uma hora antes de descermos para o escritório. — Como está minha mãe? — Maya ignorou a comida, as mãos entrelaçadas sobre o colo. Zion finalmente ergueu o olhar. Seus olhos pareciam ainda mais escuros sob a luz da manhã. — Estável. A cirurgia removeu o coágulo principal. Ela está em observação intensiva. O Dr. Aris disse que as próximas quarenta e oito horas são cruciais, mas o pior já passou. Maya soltou um suspiro que pareceu carregar o peso de um ano inteiro. Por um breve segundo, a tensão em seus ombros cedeu. — Obrigada, Zion. De verdade. — Não me agradeça — ele cortou, a voz gélida voltando instantaneamente. — Como eu disse, isso é uma transação. E aqui está o contrato. Ele deslizou uma pasta de couro preta sobre a mesa de mármore. Maya a abriu. Suas mãos tremeram ao ler os termos. Não era um contrato de assistente comum. Cláusula 4.1: A contratada deverá estar disponível 24 horas por dia, 7 dias por semana. Cláusula 7.3: A contratada residirá nas dependências determinadas pelo contratante para garantir a eficiência dos serviços. Cláusula 12: Qualquer quebra de confidencialidade ou tentativa de rescisão unilateral resultará na interrupção imediata de todos os custeios médicos de Elena Solano. — Isso é escravidão — ela sussurrou, olhando para ele com horror. — Isso é garantia — ele rebateu, levantando-se e caminhando até ela. Ele se inclinou sobre a mesa, o cheiro de café e sândalo invadindo o espaço de Maya. — Você me provou que é volátil, Maya. Jogar água no meu rosto foi um erro que eu não permitirei que se repita. Agora, você é minha. No papel, diante da lei e entre estas quatro paredes. Assine. Maya pegou a caneta Montblanc. Cada traço de sua assinatura parecia uma gota de sangue deixada no papel. Ao terminar, ela sentiu que algo dentro dela se quebrava definitivamente. — Ótimo — Zion recolheu a pasta. — Agora, vamos. Temos uma reunião de conselho às nove. E depois, temos um problema chamado Isabella. O trajeto até o escritório foi um borrão de prédios de aço e silêncio tenso dentro do carro blindado. Ao chegarem à sede da Black Industries, a presença de Maya ao lado de Zion causou um terremoto silencioso. Os sussurros corriam pelos corredores como fogo em palha seca. — Quem é ela? — A mulher que o enfrentou ontem? Por que ela está vestindo Chanel e andando ao lado dele? Zion não parava para ninguém. Ele caminhava com passos longos, forçando Maya a quase correr para acompanhá-lo. Quando chegaram ao elevador privativo que levava à diretoria, as portas estavam prestes a fechar quando uma mão calçada em uma luva de renda branca as impediu. Isabella entrou. O perfume dela, uma mistura agressiva de gardênia e metal, preencheu o cubículo instantaneamente. Ela olhou para Zion com um sorriso predatório e depois voltou os olhos para Maya, uma sobrancelha perfeitamente desenhada se erguendo. — Zion, querido. Não sabia que agora você colecionava caridade — Isabella disse, a voz destilando veneno. Ela se aproximou de Maya, tocando o tecido do paletó dela. — Um corte bonito. Mas a modelo... um pouco comum demais para os seus padrões, não acha? Zion não respondeu. Ele olhava para o painel de andares, a mandíbula travada. — Ela é minha assistente pessoal, Isabella — Zion disse, sua voz soando como um trovão contido. — E você está no andar errado. Sua reunião é no 45. — Ah, mas eu decidi que queria subir um pouco mais — Isabella se posicionou entre os dois, virando-se para Zion, ficando perigosamente perto dele. — Senti saudades do seu temperamento, Zion. Especialmente daquele que você costumava mostrar entre meus lençóis. Ela estendeu a mão para a gravata de Zion, mas ele a segurou pelo pulso com uma força que fez os dedos de Isabella empalidecerem. — O que tínhamos morreu no momento em que você tentou vender segredos da minha empresa para os Lancaster — Zion sibilou. — E ainda assim — Isabella riu, aproximando o rosto do dele, ignorando Maya completamente, você ainda sonha comigo. Eu sinto o seu pulso acelerar sempre que eu entro em uma sala. O elevador deu um solavanco e parou. Uma falha técnica momentânea, ou talvez um desejo do destino. As luzes piscaram. O espaço tornou-se subitamente pequeno demais. Zion olhou para Maya pelo canto do olho. Ela estava pálida, mas seus olhos queimavam com uma mistura de ódio e algo que ele não conseguia identificar. Talvez fosse ciúme. O pensamento o agradou de uma forma perversa. Para punir Isabella, ou talvez para provar algo a si mesmo, Zion soltou o pulso da ex-amante e girou para Maya. Antes que ela pudesse reagir, ele a prensou contra a parede espelhada do elevador. — Zion, o que... — Maya começou, mas as palavras morreram em sua garganta. Ele não a beijou com doçura. Foi uma reivindicação. Seus lábios colidiram com os dela com uma fome que parecia ter sido acumulada por anos. Maya sentiu o frio do espelho nas costas e o calor incendiário do corpo de Zion contra o seu. O cheiro dele, a pressão de suas mãos em sua cintura, a forma como ele dominava o ar que ela respirava... era demais. Isabella soltou um arquejo de puro ódio. — Você está louco, Zion? Na minha frente? Zion se afastou apenas alguns milímetros, seus lábios ainda roçando os de Maya, que estava em choque, com a respiração curta e o coração martelando contra as costelas. Ela queria empurrá-lo, queria gritar, mas uma parte traidora de seu corpo clamava por mais. O sabor dele era viciante. — Eu faço o que eu quiser, na hora que eu quiser — Zion disse, olhando para Isabella pelo espelho, mas mantendo o corpo colado ao de Maya. — Ela é minha. Entendeu agora, Isabella? Ou preciso ser mais claro? O elevador voltou a se mover. As portas se abriram no andar da diretoria. Isabella saiu furiosa, seus saltos estalando contra o mármore como tiros. Ela parou na porta e olhou para trás, para Maya. — Aproveite as migalhas, garota. Zion Black não ama. Ele apenas consome. E quando ele terminar com você, não sobrará nem os ossos para contar a história. Ela desapareceu no corredor. Zion soltou Maya. Ele ajeitou o terno como se nada tivesse acontecido, mas seus olhos ainda tinham um brilho selvagem. Maya sentia os lábios inchados, o gosto de Zion ainda presente. Ela levantou a mão e limpou a boca, um gesto de desafio que fez o sorriso de canto de Zion retornar. — Isso foi... deplorável — ela disse, a voz trêmula. — Isso foi necessário — ele rebateu, caminhando para fora do elevador. — Bem-vinda ao seu primeiro dia, Srta. Solano. Tente não se apaixonar. Seria um desperdício de tempo para ambos. Maya o seguiu, mas em sua mente, a dúvida crescia. O beijo não fora apenas para afastar Isabella. Havia uma dor ali, um reconhecimento. Enquanto caminhavam para a sala de reuniões, Maya olhou para as costas largas de Zion e sentiu, pela primeira vez, que o "Preço da Honra" seria muito mais físico e devastador do que qualquer cláusula contratual. Ela ainda sentia o calor das mãos dele em sua cintura. E, no fundo de sua alma, uma voz sussurrava: Ele se lembra de mim. Ele só não sabe como dizer.
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