Rosa estava organizando as flores na vitrine de sua loja quando a campainha da porta soou. Ela não se virou de imediato; o som já era uma parte constante de seu dia, um alerta comum de clientes entrando e saindo. Mas aquele som, vindo acompanhado de uma presença pesada, fez seu corpo se tensionar de forma involuntária. Algo no ar mudou.
Ela sabia que, ao olhar, algo dentro dela iria mudar. E foi exatamente o que aconteceu quando seus olhos se encontraram com os dele.
Caio estava parado na porta, como uma sombra engolindo a luz que filtrava pelas janelas. Seu olhar era fixo, intenso, quase desproporcional ao ambiente delicado da loja. O terno preto que usava parecia imbatível, como se o corpo que o vestia fosse forjado para algo muito mais sombrio do que uma simples visita a uma floricultura.
Rosa respirou fundo e, com uma calma aprendida ao longo dos anos, se aproximou do balcão. Seu olhar, embora desconcertado, não vacilou. Ela sabia que a primeira impressão era crucial.
“Posso ajudá-lo?”, perguntou, a voz suave, tentando manter o tom profissional.
Caio deu um passo à frente, sem pressa, como se estivesse medindo não só o ambiente, mas também a mulher diante dele. Seus olhos se moveram pelas prateleiras, avaliando cada flor com uma atenção que parecia além do simples interesse.
“Preciso de flores”, sua voz foi firme, controlada, mas havia algo nela que cortava o ar como uma lâmina afiada.
Rosa franziu as sobrancelhas, tentando compreender o peso nas palavras dele. “Para o que... para quem?”
Ele olhou diretamente para ela. “Para o velório de uma vítima.”
A resposta foi simples, mas a forma como ele disse, sem emoção, como se estivesse falando de algo trivial, fez Rosa dar um passo atrás. Ele não parecia desconfortável com a ideia de morte. Pelo contrário, parecia quase... confortável.
Ela tentou esconder o desconforto, pegando um vaso de rosas vermelhas. "Rosas vermelhas", ela disse, tentando manter a compostura. "Simbolizam amor eterno... ou talvez até a força de um laço indestrutível."
Ele olhou a rosa que ela segurava, mas seus olhos não estavam na flor. Estavam nela. Uma frieza perturbadora habitava aquele olhar, como se estivesse observando algo muito além da superfície.
“Rosas vermelhas são boas”, disse Caio, sua voz baixa. “Elas são fortes, como ele era. Mas não existe pureza naquilo que fizemos.”
As palavras dele pesaram sobre Rosa, como se ela fosse o alvo de algo mais sombrio do que um simples cliente comprando flores. Ela sentiu um calafrio percorrer sua espinha, mas manteve a compostura. Era um cliente, e seu trabalho era atender.
Ela entregou-lhe o ramo de flores com um sorriso forçado. “Aqui está. Algo mais?”, ela perguntou, tentando suavizar a tensão que agora dominava a loja.
Mas ele não se afastou. Não imediatamente. Seus olhos ainda estavam fixos nela, estudando-a como se fosse parte de um quebra-cabeça que ele tentava resolver. E, por um breve momento, Rosa sentiu que não era só a floricultura que ele observava. Ele a observava. Ele estava tentando decifrá-la. E aquilo a desconcertava.
“Sim”, disse ele, finalmente, após uma longa pausa. “Você me parece tranquila. Tão tranquila que não poderia ser real. Você está distante de tudo que eu sou, não está?”
A pergunta oca foi como uma marca em sua alma. Rosa não soubera como responder, mas sua mente fervia, questionando o que aquele homem realmente queria de uma florista como ela. Ela tinha se acostumado a clientes complicados, a pessoas com histórias, mas Caio... ele não era um cliente qualquer.
Ela tentou sorrir. “A floricultura é meu refúgio. Eu cuido das flores como elas cuidam de mim.”
Ele assentiu lentamente, como se aquilo fizesse sentido para ele, mas não revelou nada sobre si. Em vez disso, pegou o ramo de rosas e virou-se para sair, sem mais uma palavra.
Mas antes que ele saísse pela porta, Caio se virou uma última vez e, com um olhar que parecia atravessá-la, disse em voz baixa, quase como um sussurro, mas carregado de uma promessa sinistra:
“Nos veremos novamente, florista. Na próxima vez, não será por flores.”
Rosa sentiu a pressão do silêncio tomar conta do espaço entre eles. Não sabia o que pensar, ou o que aquilo significava, mas sabia que algo tinha mudado dentro dela. Algo que ela não conseguiria ignorar.
Caio desapareceu pela porta, mas o peso de sua presença permaneceu. As flores ao redor de Rosa pareciam ter perdido sua cor, o ambiente que antes era seguro e acolhedor, agora estava carregado com o prenúncio de algo muito mais sombrio.
Rosa olhou para o ramo de rosas vermelhas em suas mãos. Elas eram lindas, mas agora pareciam diferentes. Mais pesadas. E ela sabia que algo havia começado. Algo que ela não poderia mais controlar.
Depois que a porta se fechou atrás dele, Rosa permaneceu imóvel. O silêncio que restou era estranho, opressor. A loja, antes acolhedora, agora parecia impregnada por uma sombra invisível. Ela passou os dedos pelos braços como se tentasse afastar o arrepio que ainda persistia em sua pele.
Aquele homem — Caio. O nome ainda ecoava em sua mente mesmo que ele não o tivesse dito. Rosa não precisava ouvir. Algo dentro dela sussurrava que ele era diferente. Não apenas perigoso, mas... danificado. E, de um modo inexplicável, aquilo a atraiu. Como se sua alma reconhecesse outra alma partida.
Ela voltou para o balcão, tentando recuperar o ritmo da manhã, mas suas mãos tremiam levemente. A última vez que se sentira assim havia sido há anos, quando...
Não. Ela não queria lembrar.
Mas era tarde.
As imagens vieram como sempre vinham — rápidas, cortantes, como cacos de vidro: o carro capotando na estrada molhada, o cheiro de gasolina, o grito da mãe. Depois, o vazio. O quarto frio do hospital. Os meses de silêncio e culpa.
Rosa apertou os olhos com força. Respirou fundo, lentamente. Não era hora para isso. Estava segura. A floricultura era seu mundo, seu escudo contra tudo lá fora. Nada daquilo poderia alcançá-la agora.
Ou poderia?
Porque ele a olhou como se soubesse. Como se visse além da fachada serena, além dos sorrisos treinados. Caio a olhou como quem identifica uma rachadura numa parede lisa — como se soubesse exatamente onde empurrar para que tudo desmoronasse.
E havia algo ainda mais inquietante: ela não queria que ele desaparecesse. Por mais insano que fosse, algo nela ansiava por mais daquele olhar sombrio. Pela primeira vez em anos, seu coração bateu por outra razão que não medo.
Ela se sentia viva.
E isso a assustava mais do que o próprio Caio.
Na calçada, Caio acendeu um cigarro, embora não tivesse o hábito de fumar. Era algo que fazia quando os pensamentos ficavam barulhentos demais. E naquele momento, Rosa era o barulho em sua mente.
Ele havia ido ali para algo simples. Um gesto simbólico — flores para o enterro de um homem que ele mesmo eliminou. Um aviso à família da vítima, um recado silencioso: "Eu estive aqui, e posso voltar quando quiser."
Mas então... então ele viu aquela mulher.
A calmaria dela o desarmou mais do que qualquer revólver. Não era beleza comum — embora fosse bela — era algo no olhar, na forma como ela segurava as flores, como se segurasse o mundo com delicadeza. Ela era tudo o que ele destruía. E talvez, por isso mesmo, não conseguisse tirá-la da cabeça.
Ele não deveria voltar.
Mas voltaria.
Rosa, com o coração ainda em ritmo acelerado, tentou afogar os pensamentos na rotina. Pegou um buquê para montar. Lírios brancos. Simbolizam renascimento. Irônico. Algo nela renascia... e ela nem sabia se queria.
No fundo, ambos sabiam: o primeiro encontro não tinha sido o fim — fora só o prólogo de algo maior.
Algo que poderia florescer... ou explodir.
Depois que a porta se fechou atrás dele, Rosa permaneceu imóvel. O silêncio que restou era estranho, opressor. A loja, antes acolhedora, agora parecia impregnada por uma sombra invisível. Ela passou os dedos pelos braços como se tentasse afastar o arrepio que ainda persistia em sua pele.
Aquele homem — Caio. O nome ainda ecoava em sua mente mesmo que ele não o tivesse dito. Rosa não precisava ouvir. Algo dentro dela sussurrava que ele era diferente. Não apenas perigoso, mas danificado. E, de um modo inexplicável, aquilo a atraiu. Como se sua alma reconhecesse outra alma partida.
Ela voltou para o balcão, tentando recuperar o ritmo da manhã, mas suas mãos tremiam levemente. A última vez que se sentira assim havia sido há anos, quando...
Não. Ela não queria lembrar.
Mas era tarde.
As imagens vieram como sempre vinham — rápidas, cortantes, como cacos de vidro: o carro capotando na estrada molhada, o cheiro de gasolina, o grito da mãe. Depois, o vazio. O quarto frio do hospital. Os meses de silêncio e culpa.
Rosa apertou os olhos com força. Respirou fundo, lentamente. Não era hora para isso. Estava segura. A floricultura era seu mundo, seu escudo contra tudo lá fora. Nada daquilo poderia alcançá-la agora.
Ou poderia?
Porque ele a olhou como se soubesse. Como se visse além da fachada serena, além dos sorrisos treinados. Caio a olhou como quem identifica uma rachadura numa parede lisa — como se soubesse exatamente onde empurrar para que tudo desmoronasse.
E havia algo ainda mais inquietante: ela não queria que ele desaparecesse. Por mais insano que fosse, algo nela ansiava por mais daquele olhar sombrio. Pela primeira vez em anos, seu coração bateu por outra razão que não medo.
Ela se sentia viva.
E isso a assustava mais do que o próprio Caio.
Na calçada, Caio acendeu um cigarro, embora não tivesse o hábito de fumar. Era algo que fazia quando os pensamentos ficavam barulhentos demais. E naquele momento, Rosa era o barulho em sua mente.
Ele havia ido ali para algo simples. Um gesto simbólico — flores para o enterro de um homem que ele mesmo eliminou. Um aviso à família da vítima, um recado silencioso: "Eu estive aqui, e posso voltar quando quiser."
Mas então... então ele viu aquela mulher.
A calmaria dela o desarmou mais do que qualquer revólver. Não era beleza comum — embora fosse bela — era algo no olhar, na forma como ela segurava as flores, como se segurasse o mundo com delicadeza. Ela era tudo o que ele destruía. E talvez, por isso mesmo, não conseguisse tirá-la da cabeça.
Ele não deveria voltar.
Mas voltaria.
Rosa, com o coração ainda em ritmo acelerado, tentou afogar os pensamentos na rotina. Pegou um buquê para montar. Lírios brancos.
Simbolizavam renascimento. Irônico. Algo nela renascia... e ela nem sabia se queria.
No fundo, ambos sabiam: o primeiro encontro não tinha sido o fim — fora só o prólogo de algo maior.
Algo que poderia florescer... ou explodir.