Professor e a Dama da Quebrada

784 Words
Gabriel O cheiro do mar se misturava com o odor de esgoto e fumaça de motor velho. O Rio de Janeiro, visto de longe, era um cartão-postal. Visto de perto, da borda que dividia o asfalto do morro, era uma promessa de caos e esquecimento. Eu estava ali para a segunda opção. Minha mochila pesava mais pelas lembranças que pelas roupas, e o paletó de linho amassado era a última peça da minha antiga vida que eu me permiti trazer. — Parado aí, playboy! — A voz grave veio de um garoto que m*l devia ter dezoito anos, mas já carregava um fuzil com a naturalidade de quem segura um celular. — Identidade. Pra que veio? Levantei as mãos. Meus olhos escanearam a entrada da favela: barracos empilhados, fios elétricos emaranhados e o grafite nas paredes contando histórias de guerra. Um cenário que parecia familiar de um pesadelo que eu tentava enterrar. — Sou Gabriel. Professor de Literatura. Vim para o projeto social. — Minha voz saiu controlada, mas meus olhos não focavam no cano da arma, e sim no olhar do garoto. Ele estava nervoso. O moleque riu, uma risada sem humor, buscando aprovação do parceiro ao lado. — Professor? Aqui só tem aluno de rua, doutor. Quer virar herói? Eu não respondi. Havia um nó na minha garganta, um lembrete do que eu tinha sido e do que me tornei. A verdade era que eu não queria ser herói de ninguém. Eu queria apenas sumir, desaparecer, me enterrar em um lugar onde meu passado não pudesse me encontrar. De repente, o ronco de uma moto cortou a tensão. Uma Honda CRF preta surgiu da ladeira, parando bruscamente e levantando uma nuvem de poeira avermelhada. E então, ela desceu da garupa. Magia. Não havia outra palavra. Ela não tinha a pretensão de uma mulher do asfalto, nem a fragilidade que eu esperava. Magra, de cabelos escuros e ondulados que caíam em cascata sobre um top cinza, ela parecia uma miragem em meio ao concreto bruto. Usava um short jeans e um colar delicado com a letra "M" brilhando no pescoço. Ela tinha dezoito anos, talvez menos, mas carregava a aura de quem mandava. De longe, ela emanava uma autoridade inquestionável. Os meninos da barreira se encolheram no mesmo instante. — Deixa o cara passar — ela ordenou. A voz era firme, mas faltava o peso da maldade que eu já tinha visto em outros líderes. Era uma autoridade herdada, não conquistada pelo sangue. — A ordem do DG já foi dada. Ela caminhou até mim. De perto, a beleza era hipnotizante, mas foi o que vi por trás da fachada que me fez travar. Eu ainda não sabia o nome dela, mas sentia a energia. Mantendo o queixo erguido e os ombros rígidos, mas seus dedos brincavam nervosamente com o pingente no pescoço. Seus olhos castanhos eram grandes e expressivos, e neles, escondida sob a sombra dos cílios longos, havia uma melancolia profunda. Uma exaustão de quem precisava ser um pilar de ferro em um mundo feito de vidro. Ela estava tentando parecer perigosa, mas o modo como ela desviou o olhar por um milésimo de segundo quando um dos garotos bateu o fuzil no chão a entregou. Ela não era o lobo. Ela era alguém cercada por lobos, vestindo a pele de um deles para não ser devorada. — Você não tem cara de quem gosta de poesia, professor — ela murmurou. A frase era um desafio, mas o tom tinha uma ponta de curiosidade genuína, quase infantil. Eu a observei, lendo as entrelinhas daquela postura defensiva. — E você — respondi, minha voz baixando um tom. — Não tem cara de quem gosta de carregar o mundo nas costas, senhorita. A máscara dela vacilou. Por um breve instante, vi o choque em suas pupilas, como se eu tivesse acabado de desvendar um segredo que ela guardava a sete chaves. O orgulho voltou rápido, e ela estreitou os olhos, endurecendo a expressão novamente. — Aqui em cima, as únicas regras que valem são as minhas — ela disse, mas desta vez a frase pareceu mais um lembrete para si mesma do que para mim. — Tenta não se perder no caminho, professor. O morro não costuma perdoar quem olha demais para onde não deve. Ela deu as costas e subiu na moto. Enquanto ela sumia entre os becos, eu soube: não tinha vindo para a Rocinha apenas para me esconder. Tinha vindo para encontrar alguém que, assim como eu, estava fingindo ser algo que não era. Eu era um assassino fingindo ser mestre. Ela era uma menina ferida fingindo ser a dona do jogo. E aquele era o começo do nosso desastre.
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