Gabriel
A chave girou com dificuldade na fechadura enferrujada, emitindo um rangido que pareceu ecoar por todo o beco estreito. Quando a porta finalmente cedeu, fui recebido pelo cheiro de mofo e poeira acumulada. Entrei, fechando a porta e encostando as costas na madeira descascada, sentindo o suor frio secar na minha nuca. Acho que nunca estive em local tão quente e unido ao mesmo tempo. Como pode?
Eu estava no escuro.
Tateei a parede até encontrar o interruptor. Uma lâmpada nua, pendurada por um fio solitário no centro do teto, piscou duas vezes antes de iluminar o que agora eu chamaria de "lar". Uma kitnet que caberia três vezes dentro da biblioteca que eu costumava ter. Um colchão fino sobre um estrado de madeira, uma pia com uma torneira que pingava ritmicamente — ploc, ploc, ploc — e uma janela pequena com grades de ferro que dava para a parede cinza do barraco vizinho.
Caminhei até a pia e joguei água gelada no rosto, tentando afogar as imagens que insistiam em voltar. Quando me olhei no espelho manchado e trincado, m*l reconheci o homem que me devolvia o olhar. As olheiras estavam profundas, e a cicatriz perto da minha sobrancelha parecia um lembrete pulsante de que a minha antiga vida tinha morrido naquela estrada.
Há um mês, eu discutia filosofia em salas climatizadas. Hoje, sou um fantasma escondido em uma montanha de tijolos aparentes, fugindo de um crime que a justiça não perdoaria e que a minha consciência nunca esqueceria.
Eu sentia ânsia de mim mesmo. Minhas costas pareciam carregar quilos e mais quilos de uma dor que quase sufocava.
Sentei-me no colchão duro, sentindo o silêncio do quarto ser cortado pelos sons abafados da favela lá fora: o rádio de alguém tocando um funk proibido, o grito de um vizinho, o som distante de uma moto subindo a ladeira.
A vida pulsava aqui em cima, mas dentro de mim, tudo parecia estático. Morto.
Era como se, mesmo meus olhos vendo tudo a minha volta, eu não estivesse aqui de verdade.
Como alguém era capaz de se perder tão profundo dentro de si mesmo?
O maior problema é que sou covarde demais para acabar logo com tudo.
E eu queria, admito. É uma difícil viver com uma dor que esmagante. Em todas as noites eu só queria poder sumir. Sumir de verdade. Não acho que faria falta neste mundo de qualquer forma.
Não tenho família, amigos, nada. Agora, sou apenas uma alma vagando no mundo.
Mas então, a imagem dela invadiu meus pensamentos.
Eu não sabia o nome dela. Não sabia quem ela era para aquele lugar, ou por que garotos armados com fuzis baixavam a cabeça quando ela falava. Mas eu sabia o que tinha visto. Aquela garota de cabelos escuros e olhar de tempestade não era apenas uma moradora qualquer. Ela tinha a postura de quem carregava uma coroa pesada demais para a sua idade.
Lembrei-me do momento em que ela desceu daquela moto. A firmeza na voz dela quando deu a ordem para me soltarem... havia algo ali. Uma força que ela forçava para fora, mas que vacilava nas entrelinhas. Vi o jeito que ela apertava o colar no pescoço, como se precisasse de um âncora para não desmoronar.
Ela tentou me desafiar, tentou parecer a dona do jogo, mas eu vi o brilho da melancolia nos seus olhos castanhos. Ela era linda, de uma forma que doía olhar, mas era a sua fragilidade disfarçada de fúria que tinha ficado presa na minha mente.
Quem era ela? Uma filha? Uma irmã? Uma protegida?
Deitei-me no colchão, usando a mochila gasta como travesseiro. Eu deveria estar focado em manter meu disfarce, em não deixar que ninguém descobrisse o que o "Professor Gabriel" escondia sob a camisa de botão. Mas, enquanto o sono não vinha, eu só conseguia pensar no dia de amanhã. Na sala de aula. E na aqueles olhos que quase que queimaram como brasa.
Eu me perguntei se ela estaria lá. E, mais do que isso, me perguntei por que a ideia de vê-la novamente fazia meu coração, que eu julgava sem vida, bater com uma força que eu não sentia há muito tempo.
Dormir no morro era perigoso. Mas o mistério daquela garota era a primeira coisa que me fazia querer acordar no dia seguinte.