Gabriel
O morro à noite era um labirinto de contrastes. O som de um rádio sintonizado em uma estação de notícias se misturava ao batidão de um funk vindo do setor sul. Eu carregava uma pequena sacola da vendinha do seu Zé — café, pão amanhecido e o silêncio que eu precisava para sobreviver a mais uma noite.
Eu estava prestes a dobrar a última viela antes da minha kitnet quando ouvi uma voz que eu reconheceria até no meio de um tiroteio.
— E escuta aqui, Tico — a voz era baixa, mas tinha o peso de uma sentença. — Desce até a entrada, pega a entrega no meu nome e leva direto para a casa do meu irmão. Não para pra conversar, não inventa moda. Se a comida chegar fria, você vai se explicar com o DG, não comigo. Entendeu?
— Entendido, patroa. É pra já! — O rapaz, que não devia ter mais de dezesseis anos e carregava uma pistola na cintura, saiu em disparada ladeira abaixo, sem sequer questionar.
Eu esperei um segundo, observando a silhueta dela contra a luz fraca de um poste que teimava em piscar. Ela estava de costas, com as mãos nos bolsos de um casaco largo, parecendo pequena e, ao mesmo tempo, dona de cada tijolo daquele lugar.
Voltei a caminhar, meus passos ecoando no concreto estreito. Quando entrei no campo de visão dela, Maya deu um solavanco, virando-se com uma rapidez defensiva. A mão dela foi instintivamente para a cintura, mas parou no meio do caminho quando seus olhos encontraram os meus.
— Que susto, inferno! — Ela soltou o ar com força, o peito subindo e descendo sob o casaco. — Você tem o hábito de andar como um fantasma ou é só pra assustar os outros?
— Fantasmas não compram café — respondi, levantando levemente a sacola e mantendo a calma que eu sabia que a irritava. — E você... tem o hábito de dar ordens até para a entrega do jantar?
Maya se recuperou rápido, cruzando os braços e me encarando com aquela petulância que era, na verdade, sua armadura.
— Aqui em cima, nada acontece sem que eu saiba, professor. E se eu quero minha comida na hora, eu tenho quem busque. Algum problema com isso? Ou vai querer me dar uma aula de ética agora?
— Ética é uma matéria avançada demais para quem usa o medo como mensageiro — dei um passo à frente, entrando no espaço pessoal dela. O cheiro de perfume doce e fumaça que emanava dela era inebriante. — Mas admito que fiquei impressionado. Você fala, e eles correm.
Ela soltou uma risada anasalada, mas não recuou.
— Eles correm porque sabem o que acontece se pararem. Você devia aprender com eles, Professor. Ficou louco hoje na frente do meu irmão? Ele não é um dos seus alunos de literatura. Ele não entende metáforas. Se ele achar que você é uma ameaça, o seu "ponto final" vai chegar antes do fim do capítulo.
— Você está preocupada comigo, Maya? — A pergunta saiu mais baixa do que eu planejava, carregada de uma provocação perigosa.
— Eu estou preocupada com a sujeira que vai fazer na frente da minha escola se ele decidir te apagar — ela rebateu rápido, mas os olhos dela me traíram por um segundo. Eles baixaram para a minha boca antes de voltarem para os meus olhos. — Você é um mistério irritante. Mora numa kitnet caindo aos pedaços, mas encara o dono do morro como se fosse um rei. Quem é você de verdade?
— Eu sou o homem que viu você apertar o pingente hoje à tarde na boca — respondi, vendo-a travar no mesmo instante. — O homem que sabe que essa pose de "patroa" cansa você mais do que subir essas ladeiras.
O silêncio caiu entre nós como uma cortina de chumbo. Maya abriu a boca para retrucar, uma farpa já pronta na língua, mas hesitou. Por um momento, nas sombras daquela viela, a máscara caiu. Vi a garota frágil, a menina que só queria ser Maya, e não a irmã do DG.
— Você não sabe nada sobre mim — ela sussurrou, a voz perdendo a força, mas ganhando uma intensidade que me fez querer segurar o rosto dela ali mesmo.
— Eu sei ler entrelinhas, lembra? — Dei mais um passo, sentindo o calor que emanava dela. O que eu que eu estava fazendo? Ela é só uma pirralha — E as suas dizem que você está louca para fugir, mas não sabe por onde começar.
— Você pelo visto, sabe bem como fugir. — disse atrevida.
Ela me encarou por um longo tempo, a respiração curta. Por um segundo, achei que ela fosse me bater. No segundo seguinte, achei que fosse me beijar.
— Fica longe de mim, professor — ela disse, a voz rouca, antes de passar por mim apressada, esbarrando propositalmente no meu ombro. — E para de olhar onde não foi chamado. O morro tem olhos, e nem todos são tão pacientes quanto os meus.
Fiquei parado, vendo-a sumir na escuridão do beco. Meu coração batia num ritmo que eu não sentia há anos. Eu tinha vindo para cá para morrer em paz, mas aquela garota... aquela garota estava me fazendo querer lutar para viver.
E isso era o erro mais fatal de todos.
Primeiro porque ela era só uma garota e eu era um homem feito.
Segundo, porque não havia mais chances para mim nesse mundo.
E Terceiro, ela era o inferno de linda, mas não era para os meus olhos.