Seguro

801 Words
Maya O vapor do banho ainda flutuava pelo quarto, mas o ar já começava a esfriar, trazendo de volta a realidade que as quatro paredes daquela kitnet tentaram barrar. Eu terminei de me vestir, sentindo o atrito do tecido contra a minha pele sensibilizada, cada movimento um lembrete vivido do que tinha acontecido. Não queria nem pensar em como faria para esconder todas as marcas que ganheir nessa noite. Gabriel estava sentado na beirada daquela cama velha, os cotovelos apoiados nos joelhos, um sorriso de canto que era puramente predatório e, ao mesmo tempo, estranhamente relaxado. — Aposto que esse lugar não lembra em nada o seu palácio — ele disse, a voz rouca ecoando no espaço minúsculo, os olhos mapeando cada passo meu. — Meu palácio? — Soltei um riso seco, terminando de prender o cabelo. — Aquele lugar é gelado, Gabriel. Tem mármore, tem segurança, mas não tem vida. Prefiro mil vezes a quentura dessa kitnet do que o silêncio daquela mansão. Ele bateu a mão no colchão ao lado dele, um gesto que não era um convite, era um comando. — Vem deitar. Engoli em seco, sentindo o peso daquela ordem no meu baixo ventre, mas olhei para o relógio de pulso que eu tinha deixado sobre a mesa. — Preciso ir para casa. Vi o momento exato em que a luz nos olhos dele mudou. Gabriel fechou as pálpebras por um segundo longo, o maxilar travando com uma força que fez os músculos do seu pescoço saltarem. Ele odiava aquilo. Odiava o fato de que, no mundo lá fora, eu não era dele, e ele era apenas o "professor". — Preciso ir — repeti, caminhando até ele e segurando seu rosto com as duas mãos. — Você precisa estar seguro. Eu não vou fazer nada, absolutamente nada, que coloque você em risco. Se o Douglas desconfiar que eu passei a noite aqui... — Odeio isso — ele interrompeu, a voz saindo como um rosnado baixo, as mãos dele subindo para apertar meus pulsos. — Odeio o fato de você ter que se preocupar. Odeio ter que te ver sair por aquela porta como se estivesse fugindo de um crime. — Não é um crime, é sobrevivência — garanti, dando um selinho rápido nele, tentando aplacar a fera que estava despertando. — Eu queria ficar, Gabriel. Mais do que tudo. Mas a minha prioridade agora é manter você vivo e longe do radar do meu irmão. Gabriel se levantou, a altura dele me fazendo sentir pequena, mas protegida. Ele me puxou para perto, colando nossos corpos uma última vez. — Agora a gente precisa ser cuidadoso, Maya. Mais do que nunca. Mas deixa eu te falar uma coisa e foca bem no que eu vou dizer: você é minha. Se alguém tentar encostar em você, ou se tentarem te usar para chegar em mim... esse morro vai abaixo. Eu não me importo com quem manda aqui. Eu queimo tudo. E não quero você perto desses garotos filh@s da put@. Eu sorri contra o peito dele. Era uma ironia sangrenta. Eu tinha acabado de sair dos braços de um homem que destruiria o mundo por mim, para voltar para a casa de outro que faria exatamente a mesma coisa. Eu estava entre dois titãs, e o campo de batalha era o meu próprio coração. Quando comecei a me dirigir à porta, Gabriel pegou a jaqueta dele, pronto para me seguir. — Eu vou com você até a entrada... — Não — eu o parei, colocando a mão no peito dele. — Você fica. Eu conheço essas vielas melhor do que ninguém, Gabriel. Eu nasci aqui. Um professor andando à paisana às quatro da manhã chama mais atenção do que uma sombra que sabe onde cada câmera e cada vapor se esconde. Ele hesitou, a veia na sua têmpora pulsando. — E o envelope? — ele apontou para os papéis em cima da mesa. — Leva com você... Se alguma coisa acontecer você me entregar... — Pode colocar fogo nesse arquivo se quiser. Ou guarda. O que está escrito ali não muda quem você é para mim agora — respondi, abrindo a fresta da porta e conferindo o movimento lá fora. Antes de eu sair, senti a mão dele na minha nuca, me puxando para um último beijo, nada calmo, nada carinhoso. Foi um aviso. —Vai logo antes que eu mude de ideia e te tranque aqui — ele sussurrou no meu ouvido, a voz carregada daquela promessa perversa de antes. — E Maya... eu não vejo a hora de te pegar do jeito que você está curiosa. Sem me segurar. Saí da kitnet com as pernas bambas e o coração a mil. O frio da madrugada bateu no meu rosto, mas por dentro, eu ainda estava em chamas.
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