Maya
O relógio no pulso marcava pouco mais de quatro da manhã quando fechei a porta do meu quarto com o cuidado de um fantasma. O silêncio da mansão parecia amplificar o som do meu coração, que ainda batia no ritmo das mãos de Gabriel.
Fui direto para o armário, precisando desesperadamente me livrar daquelas roupas que cheiravam a ele — café, sabão barato e pecado. Quando me encarei no espelho do banheiro, sob a luz branca e impiedosa, o fôlego fugiu dos meus pulmões.
— Meu Deus, Gabriel... — sussurrei, tocando a pele do pescoço.
As marcas eram vívidas, um mapa roxo e urgente de tudo o que tínhamos feito. Uma camiseta de mangas compridas e uma calça folgada resolveriam o problema do corpo, mas o pescoço era uma zona de guerra. Em pleno calor do Rio, uma gola alta entregaria o crime na hora. Minha única salvação era o poder da maquiagem. Gastei minutos preciosos aplicando corretivo de alta cobertura, camada sobre camada, até que a pele parecesse impecável novamente.
Estava cansada quando terminei. Esgota por conta da noite. Deitei na cama e logo o sono me alcançou.
Meus olhos m*l tinham fechado, pesados pelo cansaço e pelo prazer exaustivo, quando as batidas na porta cortaram o meu início de sono.
— Maya? Acorda, pequena.
A porta abriu e o vulto de Douglas atravessou o quarto. Ele se sentou na beirada da minha cama, o cheiro de perfume caro e noite m*l dormida emanando dele.
— Bom dia, dorminhoca. Estou te esperando lá embaixo faz um tempão para o café. Pensei que a gente ia colocar o papo em dia antes de eu subir para a boca.
Forcei um sorriso, sentindo cada músculo do corpo protestar. A "irmã inocente" precisava entrar em cena, e rápido.
— Já vou, DG... só estava recuperando o sono, fiquei vendo filme no celular, e demorei para pegar no sono. — menti, sentando-me devagar e garantindo que o cabelo caísse sobre os ombros para reforçar a camuflagem.
— Que bom que hoje é sábado então. Ia mesmo te perguntar como foi sua noite, mas pelo visto o filme te ganhou. — diz divertido.
— Sim — respondo rindo.
— Te espero lá embaixo.
— Tá.
Antes de descer, fiz mais uma conferencia minusiosa do meu pescoço. Estava tudo bem. Ele não ia ver, ninguém ia. Só então desci.
A mesa do café estava farta, mas o clima pesou assim que me sentei. Douglas parou a xícara de café no meio do caminho, me analisando de cima a baixo.
— Roupa de manga comprida nesse calor, Maya? — Ele arqueou uma sobrancelha, o instinto de proteção (ou de dono do morro) sempre em alerta. — Ficou resfriada? Tá se sentindo bem?
Senti um calafrio subir pela espinha, mas mantive o olhar firme, pegando um pedaço de pão como se não fosse nada.
— Ar-condicionado no máximo a noite toda, sabe como é. Talvez não tenha sido a melhor descisão.
— Seu quarto estava bem gelado mesmo.
— E eu ainda to sentindo o frio do ar-condicionado — dei de ombros rindo, mudando o foco antes que ele resolvesse chegar mais perto. — Mas e você? Não enrola. Como foi a sua noite? Como foi com a garota que pelo visto não deixou você dormiu nada?
— Não sei se isso é conversa pro seus ouvidos — Douglas diz divertido.
— Para de graça. Você sempre me conta.
DG soltou uma risada, o foco saindo de mim e voltando para o próprio ego.
— Ah, você sabe como é... uma morena daquelas. Era do asfalto e quando entendeu minha verdadeira posição, achou que podia mandar em mim.
— Você não presta DG.
— Presto sim princesa. Mas elas não precisam saber — diz se alongando — Mas me conta, o morro está calmo hoje ou é só impressão minha?
Enquanto ele falava, eu tomava meu café em silêncio, sentindo o corretivo repuxar levemente no pescoço. Eu estava sentada à mesa com o homem mais perigoso da favela, escondendo o maior segredo da minha vida sob uma camada de base e mentiras.