Gabriel.
Douglas cruzou os braços, encostando-se no batente da porta da cozinha. O olhar dele alternava entre mim e os papéis sobre a mesa. O silêncio se esticou, pesado como chumbo, até que ele soltou um suspiro curto e soltou um sorriso que não chegava aos olhos.
— Dedicação admirável, Professor. Subir o morro depois do expediente para não atrasar o cronograma... — Ele deu dois passos para dentro, a presença dele preenchendo o ambiente. — Já que está aqui e o trabalho parece ter rendido, não faz sentido descer com fome. Maya, coloca mais um prato. O Professor janta com a gente hoje.
Senti o olhar de Maya queimar na lateral do meu rosto. Era um convite que soava como uma intimação. Negar seria suspeito; aceitar era entrar voluntariamente em um interrogatório disfarçado de cortesia.
— Não quero incomodar, DG. Tenho alguns relatórios para terminar na kitnet — tentei uma saída diplomática, mantendo a voz firme.
— Não é incômodo nenhum. É uma ordem... de hospitalidade — Douglas cortou, e o peso da palavra "ordem" flutuou no ar. — Além disso, quero que você conheça a nossa convidada. Talvez um homem de estudos como você tenha uma perspectiva diferente sobre os problemas que estamos enfrentando.
— Não sei se posso ajudar. Mas estou aqui para o que precisar. — dou de ombros.
— Mandei os moleques trazerem nosso jantar. Chega em dez minutos. Vou subir tomar um banho e chamar. Onde está, Clara?
— No quarto. Foi descansar. — Maya diz tentando parecer tranquila.
— Já volto. — diz nos dando as costas e logo o vejo subir as escadas.
Olho na direção que Maya, que já me encara em silêncio, sabendo que eu não teria como fugir. Paciência, já estou aqui de qualquer forma.
Vinte minutos depois, eu estava sentado à cabeceira da mesa de jantar da mansão. À minha direita, Maya, mantendo uma postura impecável, mas com os dedos inquietos sob a mesa. À minha esquerda, Clara, que tinha descido com DG. Ela parecia um fantasma, m*l tocando na comida, os olhos fixos no prato.
Douglas serviu o vinho, que eu nem vi de onde veio, com uma calma irritante.
— Então, Professor... — ele começou, cortando a carne com precisão. — Você comentou que veio de fora antes de se estabelecer aqui. Onde disse que fez sua formação mesmo?
— Estudei no Rio, em instituições militares de ensino básico antes de seguir para a pedagogia — respondi, soltando uma verdade parcial para sustentar a mentira maior. — A disciplina sempre foi a base do meu método.
Clara levantou os olhos subitamente ao ouvir "instituições militares". O olhar dela cruzou com o meu, e vi uma faísca de reconhecimento ou, no mínimo, de familiaridade técnica.
— Meu pai também acredita nisso — ela disse, a voz fraca, mas audível. — Ele dizia que sem hierarquia, o homem é só um animal com roupas. O senhor fala... como os amigos dele falavam.
Senti o suor frio ameaçar brotar na nuca. Maya interveio rápido, tentando desviar o curso da conversa.
— Muita gente tem essa base, Clara. O morro precisa exatamente disso: ordem e educação — ela disse, servindo mais suco para a garota. — Douglas, deixa o Professor comer em paz. Ele já trabalhou o dia todo.
— Só estou curioso, Maya — Douglas rebateu, recostando-se na cadeira e me analisando como se eu fosse um mapa tático. — O Professor tem um jeito de observar o ambiente... Eu já tinha percebido antes, mas por algum motivo passou. Ele não olha para as coisas como um civil comum. Ele olha como quem está procurando a saída mais rápida ou o ponto mais fraco de uma parede.
Ele deu um gole no vinho, os olhos fixos nos meus.
— Me diga, Gabriel... No seu "método", o que você faz quando um infiltrado tenta passar por aliado?
O ar na sala simplesmente desapareceu. Maya congelou com o garfo no meio do caminho. Clara nos olhava, confusa com a mudança súbita de tom. Eu sustentei o olhar do DG, o Capitão gritando dentro de mim para saltar sobre a mesa e neutralizá-lo ali mesmo, mas o Professor apenas sorriu de canto, mantendo a máscara de gelo.