Gabriel.
O silêncio na mesa era cortante, mas eu não podia quebrar. Se eu desviasse o olhar, o Capitão morria e o Professor levava a culpa. Sustentei o encarar de DG, sentindo o peso da pistola que ele carregava na cintura mesmo ali, jantando em família.
— No meu método, DG — comecei, a voz saindo com uma calma gélida que fez Maya soltar o ar devagar —, um infiltrado é como uma peça de um quebra-cabeça que não se encaixa. Se você tenta forçar a entrada dela, ela acaba quebrando o desenho inteiro. O segredo não é punir a peça, mas entender por que ela está ali. Se ela serve para completar a imagem ou se veio apenas para confundir quem está montando.
Douglas me mediu por mais alguns segundos. O canto da boca dele subiu num esboço de sorriso satisfeito. Ele bateu com a mão na mesa, um baque seco que fez Clara dar um sobressalto.
— Gostei. "Entender por que ela está ali"... você é um filósofo de guerra, Gabriel. — Ele relaxou o corpo na cadeira, o clima de execução sumindo tão rápido quanto apareceu. — Relaxa, Maya. O Professor passou no teste de paciência.
Ele deu um gole generoso no vinho e apontou com o garfo para Clara, que continuava encolhida.
— A verdade é que a situação está feia lá embaixo. O pai dessa menina era um figurão, Coronel da reserva, mas se meteu com a milícia errada. Os caras queriam usar a garota como moeda de troca para uma dívida e desvio de carga. Mas nenhum filho da put@ ia pega-la como pagamento de nada. Nem por cima do meu cadáver. — Douglas fala olhando na minha direção e depois na de Clara — Nem por cima do meu cadáver — repetiu ele, a voz engrossando. — O morro é meu, e o que eu decido proteger, ninguém encosta. Nem milícia, nem exército, nem o d***o.
Fiquei surpreso. Não pelo crime em si — isso era o pão de cada dia naquele morro —, mas pelo voto de confiança. Douglas não saía contando detalhes de suas "operações de resgate" para qualquer um. Se ele estava abrindo o jogo, era porque me via como parte do ecossistema agora. Um ativo valioso, como Maya tinha sugerido. O silêncio que se seguiu foi preenchido apenas pelo som da respiração curta de Clara. Eu a observei pelo canto do olho; ela parecia dividida entre o alívio de estar sob a asa do DG e o pavor de ser o estopim de uma guerra que ela não pediu.
— Sinto muito pela sua situação, Clara — falei, dessa vez com uma empatia real, de quem conhece o peso de ter um superior que se corrompe. — O exército ensina honra, mas nem todos os que usam a farda lembram da lição.
— É verdade, Professor. Você tem olho clínico. O que você faria se soubesse que tem gente de fora rondando o perímetro? Gente que conhece tática, que sabe onde dói?
Senti o joelho de Maya pressionar o meu por baixo da mesa, um aviso silencioso. Eu precisava responder como o Professor, mas com o conhecimento do Capitão.
— Se o inimigo conhece tática, DG, ele espera que você reaja como um bandido — respondi, mantendo a voz calma e analítica. — Ele espera força bruta e barulho. O que ele não espera é inteligência passiva. Se eles vierem atrás da Clara, não virão com um exército pela frente; virão pelas sombras, infiltrados. A melhor defesa na escola é o controle rígido de quem entra e sai, camuflado de "burocracia escolar".
A conversa fluiu de forma mais amigável a partir dali. Douglas começou a contar histórias de "negócios" antigos, e eu mantive a persona do acadêmico atento, dando opiniões pontuais sobre disciplina e organização comunitária. Maya participava, pontuando com inteligência, agindo como a ponte perfeita.
Por um momento, sentados ali com vinho e comida boa, quase parecia que éramos apenas quatro pessoas comuns. Mas eu sentia o joelho de Maya roçar o meu por debaixo da mesa, um toque elétrico e proibido que me lembrava que, se o Douglas descobrisse a nossa "filosofia" de ontem à noite, aquele jantar seria a nossa última ceia.